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DENUNCIE O FASCISMO BRASILEIRO QUE ESTÁ ATUANDO NAS TELECOMUNICAÇÕES OU INSTITUIÇÕES DE ESTADO COMO RIO DE JANEIRO
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DENUNCIE O FASCISMO BRASILEIRO QUE ESTÁ ATUANDO NAS TELECOMUNICAÇÕES OU INSTITUIÇÕES DE ESTADO COMO RIO DE JANEIRO
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Textos da
contemporaneidade
Eliane Colchete
Este
blog desenvolve tematicamente tópicos apresentados em "O Romantismo, el
doble e o fantástico" que publiquei também em blogspot. Trata-se da
relação do Romantismo com o que tenho designado geo-ego-logia - o percurso
da modernidade ocidental como discurso que constrói um Sujeito da história, o
ocidente como parâmetro do desenvolvimento psicossocial. Minha perspectiva
pós-moderna é pois a crítica da oposição moderna de primitivo e desenvolvido,
mas explora também o modo como a partir dos paradigmas sucessivos da
modernidade, a unidade do ego ocidental foi projetada como trajetória cultural
desde a Grécia. Ao mesmo tempo que o termo da unidade, o ocidente, não era o
referente da trajetória - e da Grécia - por interpretar conforme o paradigma,
mas sim o lado oposto do "primitivo", cuja definição constitui a
matéria das ciências humanas.
Entre os paradigmas emergindo como a modernidade desde a existência das
humanities, temos o Romantismo, Positivismo, Funcionalismo e
estruturalismos (ortodoxo e "pós-estruturalismo"). O Romantismo é portanto a ruptura genética
da contemporaneidade, por onde apresentar-se como pioneiro pensamento do
Sujeito não mais intelectivamente redutível ao modo de indivíduo de saber
universal. Assim a pesquisa da irrupção do sujeito pensável na
história, desde o Romantismo, se tornou conexa ao exame do duplo
literário, um gênero que se pratica frequentemente entre os autores românticos,
em que ocorre a autonomia do reflexo, sombra ou sósia, do personagem ( não
somos obrigados a usar esse termo no feminino). Nessa correlação imbriquei
a geo-egologia no situamento contemporâneo do ocidente em termos de sua
auto-concepção formada como sujeito por relação ao que situou assim como
"margem", no contexto também pioneiro "pós-colonial".
Mas o exame obviamente necessário do discurso contemporâneo-ocidental sobre o
duplo literário implicou um texto bastante extenso, de modo que a apresentação
do que se tornou relevante ao meu estudo como interpretação geo-egológica da
"modernidade" pode ter ficado algo restrito ou ter parecido
insuficiente. Ocorre que a extensão de textos em espaço de "blog" tem
acarretado demasiados problemas com a postagem - exibem-se janelas contra
textos "longos", por vezes não postam, etc. Mesmo que não houvesse
essa restrição, confesso que a sobreposição de algo mais ao que pôde ser ali
reunido me seria incômoda.
Este blog pode ser lido como complemento àquele, portanto,
se bem que aqui desenvolvo temas de uma forma mais descompromissada em relação
à referenciada demonstração. Incursiono mais sobre o questionamento de
qualquer unidade possível de interpretação dos gregos.
1 )
Ao desenvolver a temática do eu na psicanálise, e começando pela
"concepção pré-analítica" do eu, Lacan estabelece uma pluralidade ao
mesmo tempo que uma unidade (Lacan, livro 2 das edições Zahar, seminário
1954/55: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise).
Enuncia-se assim, haver, no que tange ao anterior à psicanálise: a) uma
concepção ingênua do eu, pré-freudiana; b) uma concepção freudiana do eu que
reabsorve essa concepção ingênua, não contradizendo-a; c) essa concepção
ingênua é idêntica a uma concepção filosófica, portanto, se entendermos serem
ambas o mesmo ou portarem alguma discriminação, em todo caso
é/são enunciada(s) pré-científica (s); d) essa concepção ingênua,
sendo filosófica, é pré-moderna; e) mas sendo ingênua, pré-analítica, é a do
homem comum contemporâneo; f) no entanto, sendo pré-analítica, é a concepção
encontrável na psicologia, portanto é científica.
Mas assim múltipla, e sendo referenciada por Lacan como una sob a rubrica do
"pré" analítico freudiano, essa não é a concepção de que se trata
como a descoberta da psicanálise ou a que "reapareceu" a uma certa
altura das reelaborações teóricas de Freud que, no entanto, conduziram a um "equilíbrio
de conjunto" freudiano tradutível sempre em termos daquela que ficou no
"pré", não desta de que quer tratar Lacan antepondo-se assim ao que
veio à história da psicanálise como consolidação daquele compromisso com o
senso comum, a filosofia ou a psicologia, e ao mesmo tempo interrogando-se
sobre se a psicanálise conservará - conserva ou conservou - ou não, a
descoberta que conforme a nomeada oposição ao "pré", seria a única
propriamente analítica freudiana.
Aqui, portanto, poderíamos posicionar um critério superficial do centrado e do
descentrado que recobriria maximamente a oposição que realmente importa a
Lacan, entre todas as concepções unificáveis ou não, mas que se mantém em todo
caso, infensas à do Freud de lacaniana recuperação.
A oposição do centrado e do descentrado, como entre o não e o sim do
freudo-lacaniano, se leria também como a do indivíduo e do sujeito, enquanto
concepções do eu em que por indivíduo temos o pressuposto da identidade
imediata ao ser, enquanto o sujeito implica a decalagem do ser (individual) à
identidade (sócio-histórica). Grosso modo, por um lado filosofia, por outro,
psicanálise.
Mas logo um outro plano se constitui, na fala desse capítulo inicial, desta vez
um plano histórico entre os dois polos da oposição estruturada, plano por onde
Freud é antecedido ou pré-condicionado pela linha paralela à filosofia, a dos
"moralistas", mais precisamente pela formulação de La Rochefoucauld e
Nietzsche - isto é, nessa linha se produz desde La Rochefoucauld a antecedência
de que se pode esperar Freud.
No entanto, Lacan não diz que La Rochefoucauld, o pioneiro predecessor de
Freud, o é por ter transformado a linha dos moralistas em crítica da moral, mas
sim somente que os moralistas são pessoas que introduzem na observação dos
comportamentos morais ou dos costumes uma perspectiva chamada de verdade. A
novidade de La Rochefoucauld e Nietzsche, não obstante explicitamente
enunciada, é ter denunciado o hedonismo como ao mesmo tempo próprio ao ego e
subjugador dele, impedindo ao ego encontrar sua superioridade em relação ao
hedonismo: o amor próprio é fundamento de todos os comportamentos humanos, mas
como tal é um engodo, "o comportamento humano, como tal, se acha
engodado".
Nessa altura, porém, Lacan não
nos fornece imediatamente a descoberta de Freud, mas sim o motivo de sua
desleitura na época de produção de Freud, o porque dela ter sido confundida com
uma capitulação da psicanálise à psicologia, a saber, o fato nominal de tratar-se
de uma conceituação do eu, essa palavra chave que segundo Lacan une tudo, assim
como psicologia e senso comum até o "ego autônomo" conceituado na
psicanálise por Hartmann.
Pouco antes desse ponto de deslizamento histórico, Lacan insere a exigência do
estilo, contra o procedimento de serializar ou laminar os vários planos de sua
fala.
Desse modo, sem mediação pode prosseguir imbricando seu comentário à leitura do
Menon platônico, atribuindo a Sócrates a origem da exigência de coerência no
Saber que seria prévia à ciência experimental. Ele deixa em suspenso a questão
histórica da autonomia dessa ciência empírica, que apenas sublinha não estar
sendo negada. Bem sabemos como ela foi conquistada muito posteriormente a
Sócrates e num meio de contestação anti-metafísica, mas Lacan não se detem
nisso para poder instalar na origem socrática nada menos que uma
subjetividade, a princípio expressa ligada ao saber coerente exigido - cromo da
história da filosofia - mas logo em seguida, ligada a algo mais que deve ser
requisito prévio ao saber segundo Sócrates, a Aretê ou virtude, portanto onde
se instala o sujeito mais que o saber. Não há aqui menção ao indivíduo, não
obstante a oposição já escavada.
Essa subjetividade socrática ou virtuosa, segundo Lacan, representa o substrato
unívoco de toda pluralidade das concepções subjetivas pré-freudianas, logo,
devemos supor que se trata do indivíduo, mas quanto à freudiana também nesse
ponto unificada em torno apenas da descoberta não psicologicamente capturável.
Surpreendentemente, é uma expressão ante-freudiana que define a revolução
copérnica do "eu" atribuída assim a Freud. A expressão de Rimbaud, eu
é um outro. Obviamente isso não significa outro indivíduo. Para Lacan, o
poeta fornece a fórmula, mas não o seu Saber. Ele diz o que não sabe, e é
somente o psicanalista, o inventor da psicanálise, que vai explicar o que está
assim expresso na poesia - como na subjetividade, nós poderíamos ajuntar.
Barbara Cassin (Ensaios Sofísticos) interpretou Lacan como um sofista, por ter
ele inscrito a problemática do prazer naquela da linguagem, não do ser, e por
isso alinhando-se a uma terapêutica do gozo. É interessante que nisso ela
estivesse se opondo, sem o dizer, ao próprio Lacan que nese e em outro slugares
se ancora sempre em Sócrates, Platão e Aristóteles. Pois, como se segue o texto
acima referenciado, Sócrates que epitomiza o "pré" analítico, é que
permite explicitar o pivô do analítico, o formalismo linguístico.
Mas por essa ordem alternativa de ilação, Cassin chega a um Lacan sofista e a
um parentesco sombrio - posto que tudo sob essa rubrica é proscrito pela
tradição filosófica - de sofística e psicanálise: ambos são estratégias à
venda; comerciam o bem do cliente, que sua arte torna garantido; mas essa arte
é a da palavra, portanto, ambos teorizam a linguagem como pharmakon,
não referência do significado extra-linguístico (p. 302, tradução
brasileira, ed, Siciliano). E o mais importante sendo que ambos fazem do ser um
fato da linguagem. Assim a linguagem, de pharmakon, se atualiza em ato de fala,
em agir benvenistiano (303, 4).
Essa demonstração que posicona a psicanálise como anti-filosofia se suplementa
pela leitura sofística da pós-modernidade como de Francis Ponge, num
outro texto de Cassin (Gregos, Bárbaros e Estrangeiros), fazendo remontar sua
poética aos ramos que ela conceitua sofísticos da literatura antiga. Mas sendo
Hegel o utilizado na introdução do texto, a posição da filosofia torna a ser problemática,
na sua irredutibilidade necessária à episteme contemporânea, como vimos em
Lacan. Esse retorno da filosofia em Cassim mostra-se sintomático, e poderíamos
notar que não obstante a demarcação lacaniana da novidade de Freud, por onde se
entenderia sua crítica do pensamento antigo, ele sempre conserva a
interpregação vulgar da ciência como lance vindo da tradição conceitual
socrático-aristotélica.
O que implica a novidade, com efeito, é o que Cassin tematiza em termos de uma
crítica da ontologia, em Lacan a "separação de planos" como ele se
expressa, entre o Bem (o prazer) e o Ser (próprio). Mesmo assim aqui a novidade
retrocede, já estando em La Rochefoucauld.
Em todo caso, assim Lacan não se desdiz quanto à regra do saber vindo de
Sócrates, não salta ao que seria o anti-saber sofístico, mas lida com uma
problemática, a da moralidade. Sobre os sofistas, nesse trecho inicial do
volume, ele afirma que ensinavam o manejo da linguagem, apenas.
Ou
seja, para permanecer na unidade do Ocidente, não se pode realmente romper com
o que essa unidade articula, a concepção de tradição do saber ocidental, una
porque sendo em que se inscrevem ser e discurso, como pressuposição recíproca
anterior a qualquer crítica, de um pelo outro, entre retórica e
episteme.
Sobre a ambivalência uno-múltiplo do conceito de eu pré e freudiano; sobre a
oposição de não e de autêntico freudiano; e mesmo sobre o deslizamento
histórico do quase-freudiano, se esboça no texto de Lacan uma questão paralela
que escava a proximidade e dessemelhança de três termos - saber, verdade e
sentido - cuja ilusória univocidade a virtude subjetivante socrática é que denuncia
e impede. Ora, é justamente onde Lacan vê o descentramento originário da noção
de subjetividade, contra a unicidade a si do indivíduo que no entanto
demarcaria todo "pré". E mesmo que isso seja recoberto pelo andamento
da oposição antigo-metafísico-centrado e moderno-psianalítico-descentrado.
A leitura lacaniana de Platão escalona a tríade verdade-saber-sentido
sobre o que seria a disjunção do Mênon entre reminiscência, epistemé e areté.
Reminiscência e areté estão relacionadas ao grande campo da "experiência
humana", mas epistemé é algo à parte desse campo, ou melhor, é parte dele,
não todo ele.
A
epistemé é o simbólico, a ciência, mas aqui figurada exemplarmente pela
matemática, e trata-se de notar, para Lacan, que Platão não encenou a
demonstração do teorema por Sócrates através da fala do escravo, como se
este pudesse realmente atingir intuitivamente o resultado. Inversamente, pela
intuição o escravo erraria, é o que demarca expressamente o diálogo platônico. O
formalismo matemático é contra-intuitivo, o saber ou simbólico não pode
ser suposto correlato de uma experiência na imediatez do dito ao fato. Mas
o que é esse saber, sob tal objeção e crivo? Ao que parece, trata-se de um
critério de certo, de resultado certo - aquele com que o escravo não atina
nunca pela mera intuição da relação de equivalência (ab está para cd assim como
ef está para gh). A raiz quadrada de dois é a figura de Lacan para expressar o
simbólico e o saber. Ela não se diz de nenhuma experiência concreta, não é
imaginável, mas ela permite afiançar o resultado certo quando se trata do
problema concreto da duplicação da superfície de um plano.
Assim o que Lacan está demonstrando é que esse nível formal pertence à
estruturação da linguagem, e nesta o que se opera é a essência do formal, a lei
expressa no exemplo do Mênon, pelo resultado certo do problema matemático.
Ortodoxia, Lacan traduz por "opinião verdadeira".
Conforme os
demais textos do seminário e o que apresentam geralmente os comentaristas
de Lacan, o inconsciente Outro expressa a impossibilidade da
desigualdade, negação ou alteridade no inconsciente, mas o desempenho
consciente onde lidamos com essa noção se desdobra da
natureza absolutamente idêntica ( inconsciente/linguagem), portanto o
que desempenhamos no consciente é o regime identitário do conceito
(a=a) em que unicamente temos a mola do "eu". O gozo
é na linguagem, a função do orgasmo que implica o regime identitário da
consciência implica, por essa razão de identitade, que a função de que temos o
desdobramento da consciência desde o inconsciente, é operante do Significante
Uno (falo), portanto não pode haver o outro gozo que não androcêntrico.
Mas nesse caso, podemos notar como certo e verdadeiro estão se equivalendo na
clivagem lacaniana da linguagem, e assim os dois planos, formal e
político-subjetivo, foram sobrepostos como função da autoridade do eterno
conhecedor. Por Platão e desde Homero, é esse o sentido da equivalência do
certo e do divinamente instituído, indiferente à contestação como a qualquer
alteridade.
Não teríamos aqui a forma da representação clássica e do senso comum do
"nojento" sartriano que por toda parte vê o Ser? "Está na sua
natureza serem simbólicos", zomba Jarry. Mas o que Lacan está
afirmando é que a representação clássica desde o platonismo não ignora que a
ciência não é imediatamente a ética, mas não crê que a verdade não possa não
ter a forma objetiva e universal da ciência, e pois, se há ética há verdade
também em ética, ortodoxia. Há ou é o que a subjetividade implica necessariamente
que haja.
Cassin teria razão ao fazer equivaler Lacan e Sofística como operantes do
desvanecimento dessa crença do sujeito em sua necessidade, mas não como simples
denegadores dela, e sim como desconstrutores de sua articulação - não já assim
apenas do seu constituído como suas premissas?
Como se
Lacan mostrasse que o formalismo sendo inerente à linguagem, a questão
ideológica só pode ser bem colocada problematizando-se antes a sua necessidade
que a sua gratuidade como a sua falta de correlato experimenciável prévio, sua
falta de Ser, Cassin insiste.
Quanto a essa necessidade formal, o idealismo conceitua, sim, mas supõe que ela
é pré-linguística, quando ela é da ordem exclusiva do significante, aqui Cassin
esclarecendo Lacan.
Ora, se a
necessidade é o sistêmico, o semiótico, estamos a meu ver no coração da
Vanguarda: a subversão do código é a geração de outro código. Não há o Fora da
linguagem. Não se pode refutar um Logos. Mas, eis a descoberta reversora do
ideológico no idealismo - nada essencial obriga a jogar-se um jogo. Eis o
analogon da sofística à psicanálise, segundo Cassin. Contrariamente a
Aristóteles, trata-se da "logologia" que ela cita de Novalis, pois
quanto à Letra, nada há nela que permita distinguir o mero dizer do significar,
e se o lugar é o palco, mastigar fósforos à Breton ou recitar
Schekespeare concernem ao mesmo radical de apresentação, por assim expressar, à
mesma regra de jogo.
Não obstante toda convergência explícita, parece-me sublinhável que Lacan não
se propõe o relativismo radical quando se trata dos códigos semióticos que
compõe porém algo mais que eles, uma verdadeira linguagem interpretável. Mas,
inversamente, quer o significante como determinismo sociológico androcêntrico -
"é um fato", assim assevera estribando-se na antropologia de
Levi-Strauss. Lacan o deduz da demonstração straussiana de que "na
estrutura da aliança, a mulher, que define a ordem cultural, em oposição à
ordem natural, é o objeto da troca, da mesma maneira que a palavra, que é
efetivamente o objeto de troca original" e sendo assim, continua ele,
sejam quais forem os signos que os pesquisadores recuperarem de formas sociais
de transmissão matrilinear, "a ordem simbólica, em seu funcionamento
inicial, é androcêntrica" (livro 2, p. 354).
Mas esse relativismo é o que me parece o mais atribuível ao intento sofístico
de escalonar todo o seu pensamento sobre a oposição conceituada entre Nomos
(lei, convenção) e Physis (natureza, necessidade).
Como se sabe, ainda atualmente universalismo versus relativismo é a oposição
que anima todas as construções em disciplina ética, como o que nela se
confronta. As ciências humanas estão também cindidas nessa oposição. Por
exemplo, Eagleton votou sua verve contra o pós-modernismo por ser um
relativismo ético e sócio-político, isto é, por não apenas admitir a
irredutibilidade cultural como fator coextensivo à moralidade, como também por
exigir que essa premissa esteja inclusa em qualquer problemática
sócio-política, teórica ou prática (legislação). Argumenta Eagleton que nós não
iríamos impedir atrocidades de uma legislação não democrática apenas por alguma
singularidade nossa, mas porque pensamos universalmente, isto é, porque sempre
e seja qual for o contexto, julgamos que a violência contra mulheres ou pessoas
indefesas é errado.
Nisso Eagleton está ignorando a influência de Lacan em vários setores do
pós-modernismo, como exemplificamos com Cassin. Em todo caso, a questão pode
não ser tão simples, porquanto pode não se tratar de algo tão extremo quanto a
conservação da integridade pessoal. Os sofistas, segundo Guthrie, argumentavam
que o incesto era um pecado entre os gregos, mas algo não proibido entre alguns
outros povos. Além disso, mesmo tratando-se de algo assim a pluralidade de
circunstâncias pode exceder o cômputo imediato do certo e do errado.
Ao contrário do que Eagleton simploriamente colocou, o imperialismo
ocidental não acabou com legislações cruéis na Ásia por zelo caridoso, mas
instituindo outros modos de dominação que envolveram guerras, ditaduras,
aparatos repressivos "políticos" - isto é, exclusivamente punitivos
da resistência ao domínio imperialista, etc. É moeda corrente na
literatura da teoria política oitocentista, como o professor Friedrich
referenciou, que um gentleman inglês é um bárbaro nas terras coloniais, e por
isso cunhou-se a expressão "o poder absoluto corrompe absolutamente".
Seria até irônico que ao defender nossa liberdade, o pudéssemos fazer apenas se
lográssemos demonstrar que ela corresponde a uma verdade das coisas a que todos
teriam que se curvar, ao invés de pela conveniência da reciprocidade, limitada
pelos meios de nos defender miltarmente.
O que a tese do androcentrismo universal implica em termos
psicanalíticos, como enunciado pelo qual uma dissimetria está sendo
postulada como posição inferior da mulher em relação ao homem em todas as
sociedades, é que esse algoritmo fálico seria fundamental à
existência de qualquer ordem simbólica. Isto é, qualquer sistema de
moralidade pensável e historicamente efetivo. Ora, sendo assim, não
podemos pensar uma sociedade onde não há alguma dissimetria na ordem dos
valores que preside as relações de status e papel (social). A mais-valia
que Marx descobriu, está agora explicada na estruturação mesma
do significante.
Que isso implique uma terapêutica, no sentido de que se está denunciando o arbitrário
de um modo tão radical quanto se está definindo o necessário, significa no
entanto que só o Ocidente contemporâneo analítico freudiano o sabe e o pode,
como reversão da "natureza" isto é, do outro da cultura.
Ainda assim, mesmo havendo um Ocidente salvador, resta que Mulher é realmente
o impensável. A alteridade ser constitutiva do Sujeito na leitura psicanalítica
lacaniana implica que a alteridade não pode mais estar, restar, entre os
sujeitos. Estes precisam entrar na ordem simbólica, isto é, num sistema
posicionante de status papel que os torna identidades para si, isto é,
na validez do sentido, não apenas do saber ou da experiência. Entre dois
sujeitos, outros cada um para o outro, há um terceiro, a
alteridade ulterior a ambos como lei da linguagem, sistema da moral,
etc., ou seja, a estrutura inconsciente como a regra do jogo.
As relações de gênero implicam o feminino como gozo do masculino, a
inversão sendo impossível. As relações de gênero articulam a diferença originária
de toda codificação dos papeis identitários em sociedade. A realização da ordem
simbólica implica a normalidade da hierarquia, mas não implica que ela seja
opressiva.
É complicado situar aqui o limite entre o estrutural e o histórico. Freud
pensava a religião como uma produção do superego que a sociedade científica
iria sobrepujar como realização da normalidade do ego. A corrência da
geselschaft, a sociedade moderna-ocidental como impessoalidade ou
livre-jogo das garantias civis, parece mais a propósito do que a psicanálise
estabelece em termos de normalidade. Mas isso se colocando como imagem da
sociedade moderno-ocidental de modo que até mesmo a expressão do que antecede
Freud, como a de Rimbaud, é suposta sem-saber.
Na obra referenciada, Cassin enuncia ter descoberto um paralelo a seu ver
"impressionante" entre a retórica lacaniana da negatividade do (gozo)
feminino e o gorgiano tratado do não-ser, porque em ambos se trata de uma
deriva tal que começa-se por negar a coisa em si, depois nega-se que seja
concebível até que se a tem por de todo não-dizível.
Entre a primeira negação e a segunda, Cassin instala pois uma sub-reptícia
afirmação: a coisa não existe, mas se existisse... então seguem-se a
segunda e a terceira negações, entre ambas repetindo-se a afirmação
sub-reptícia. Nem seria pensável, se fosse real; nem seria dizível, se fosse
pensável. Isso que não existe - o Ser ou a mulher na instância inconsciente
(orgasmo) - pode sempre existir desde que se o tenha negado ao menos
uma vez, e é sempre preciso inventar mais modos de negar que exista pois a cada
negação o que se segue é sempre mais uma possibilidade de existir.
Mas quanto a isso, a meu ver, é nesse ponto mesmo que se poderia demonstrar a
irredutibilidade entre as intenções freudo-lacanianas e sofísticas, assim como
entre determinismo universalista e relativismo em humanities.
Por esse caminho, teríamos uma concepção mais próxima dos historiadores que
como Rostovtzeff consideram os sofistas os pioneiros cientistas sociais, mas
aqui havendo a ressalva de que "ciência" é um termo que precisamos
restringir na acepção da modernidade, de modo que seria mais como se um
pensamento humano houvesse surgido, em se tratando de entorno grego, com os
sofistas, retornando como influxo na precipitação das ciências humanas desde o
Romantismo. E sendo premido pelo mesmo questionamento que as circunstâncias
históricas, ainda que peculiares a cada um desses cenários, em todo caso implicaram
nos termos da problemática da alteridade cultural. A partir desse
desenvolvimento, antepõem-se as filosofias e sistematizações deterministas que
procuram solver a problemática por caminhos recondutíveis à unidade do espírito
e ao universal.
Na perspectiva de Cassin, as duas posições psianalítica e sofística derivam de
um profundo questionamento que nós estamos habituados a designar conforme o
termo platônico "filosófico", ainda que ela o desenvolva como
polêmica voltada contra a filosofia (metafísica). Mas se notarmos bem, esse
questionamento é o que no entanto carece de um nome não-platônico, posto que
nesse cenário que ele inaugura, Platão é sobremodo tardio de modo que com sua
chegada não se sabe se trata-se do verdadeiro início em relação a que a
precedência era balbucio, ou um final, a tranformação em metafísica do que até
aí absolutamente não o era.
É o liame do conceito que se deve demonstrar em todo caso, ora para fazer
convergir ou divergir Lacan e sofistas, como também procede Cassin. Então nossa
leitura comporta a indagação desse propósito de convergência. Há realmente
identidade entre o tratado do não-ser gorgiano e a lacaniana negação do gozo
feminino?
Quanto a isso, o material que possuímos é a resenha de Sexto Empírico em seu
"Contra os Matemáticos". O volume I de Mondolfo ("O pensamento
antigo") trancreve a demonstração das três teses combinadas: nada existe,
se existisse não poderia ser pensado, se fosse pensável não poderia ser dito.
Complementa-se a transcrição de Sexto com as resenhas do tratado constantes no
"de Xenófanes" e do "Gorgias".
Aparentemente trata-se de um truísmo jocoso porque as obviedades afirmadas são
ponto por ponto o oposto do pressuposto eleático (melisso-parmenídico) cuja
entonação poética, guardando voluntário parentesco com o mito como palavra dos
deuses, implicava tratar-se do mais sério e elevado, assim como se pretendia
sagrada a nobreza.
Tudo isso que o mais leve sopro do mais comezinho bom senso num átimo desfaz
sem impiedade, porque nada garante que aquela palavra era não apenas
nominalmente divina.
Eis o
ponto controverso: ser não apenas nominalmente, para Cassin é o que o tratado
proibiria atribuir. Mas se não há impiedade na letra do tratado, e sim intenção
voluntária de permanecer na verdade, a simplicidade aparente à imediatez do
argumento se desfaz logo que se trata do terceiro ponto negado, que a palavra
diga o ser, posto que isso não está ancorado senão num critério objetivo da
palavra, isto é, extra-linguístico.
Para negar que a palavra diga o ser, ou que algo exista, Gorgias envereda
paradoxalmente pela demonstração de que o objeto que a palavra diz pre-existe a
ela como incomunicável por ela. Mas o objeto subsistente fora da palavra
é o decomponível do ser que a palavra intenciona estar dizendo assim como tudo
que é da ordem da sensação - o som, a cor. Esses não são comunicáveis, são
puramente sensíveis, e inclusive não são comunicáveis um para o outro, o som
não atinge a vista, a cor é incoativa à audição; mas é o que compõe o objeto
qualquer que possa estar sendo intencionado veiculado pela palavra, como se lê
no desenvolvimento das resenhas que não se limitam à de Sexto. Inversamente,
Cassin interpreta o tratado como se Gorgias estivesse afirmando que só na
palavra existe o objeto que a palavra nomeia.
Esse ponto é introduzido pela proposição de Gorgias que Cassin
destaca: "Não é a palavra representativa do objeto externo, mas o
objeto externo revelador da palavra", que ela traduz do seguinte modo:
"não é o discurso que indica o exterior, mas o exterior que vem revelar
o discurso". Sobre isso, a leitura de Cassin é como segue: "Assim,
a realidade exterior, se conforma sempre posteriormente ao discurso que efetuou
sua predição, e tem sua existência, assim como Helena, essa concreção
fetichizada de sopro, apenas por ter sido discursado" (p. 305).
Helena, nessa exposição, é demonstrada objeto ausente - perdido,
"raté" conforme a citação do temo lacaniano - nos discursos gregos e
modernos em que ela é constituída enquanto personagem, "tradição
ininterrupta que vai de Homero, Gorgias, Eurípides e Isócrates até Goethe,
Hoffmansthal (libretista de Strauss), Offenbach, Claudel ou Giraudoux".
Mas a princípio, trata-se para Cassin de ser Helena "paradigma do
objeto de odioamoração", o que, conforme o Lacan de Encore,
"nos incita à lembrança de que não se conhece amor sem ódio". Com
efeito, Lacan observou que o Couvade é uma prática extensiva à gravidez
neurótica porque realiza pelo ritual simbólico o imaginário da função
de pai, enquanto o normal é que no imaginário se desenvolva uma relação de
agressividade na qual vai ser realizado a função de pai tal que se
forme o simbólico.
O texto de Cassin desenvolve os exemplos, mostrando como em cada um deles
Helena, em vez de um referencial concreto como pessoa, a quem se odeia ou
se ama, a quem se inocenta ou inculpa, é o lacunar do que não cabe em nenhuma
atribuição unívoca. A princípio, a indeterminação como em Górgias
ou Isócrates, em que se não se quer inculpá-la é porque não obstante seu
crime ou sua culpa, isso resultou num bem, não num mal sempre adotando a
perspectiva dos gregos. Mas se fosse a perspectiva dos troianos ainda se
poderia ver que ela por algumas vezes os auxiliou - como quando força os
ocupantes do cavalo de Troia a se revelar - ou em todo caso, que ela era o objeto
amado e que se queria ter retido, ou ainda que ela nada fez de propósito.
E logo depois, a duplicidade. Se tudo o que se pode afirmar dela é duplo,
ela mesma tem duas mães (a humana Leda e a deusa da vingança, Nêmesis), e dois pais
(Tíndaro e Zeus). Então ela mesma é dupla, animal (nascida de um ovo) e deusa
(filha de Zeus). Ex-centrada quanto ao lugar, se está num, seu coração está em
outro, mas sempre na ordem da palavra se poderia fazer o ex-centramento em dois
sentidos, pois nada se sabe o que ela realmente fez no sentido de ter desejado
(estava em Troia com Paris querendo estar em Esparta com Menelau; estava em
Esparta com Menelau querendo estar em Troia com Paris).
Então desde Estesícoro a Eurípides, Hofmannsthal e Claudel, ela é reduzida a
sombra, eidolon ou simulacro animado, feita de vento, sopro, céu, ou nuvem,
posto que não teria sido a verdadeira Helena corporificada que esteve em Troia.
Pelo contrário, esta Helena ficou todo o tempo no Egito onde a depositou
Hermes, enquanto Paris acreditava tê-la consigo infiel a Menelau. Tratava-se de
pura imagem, não da pessoa real.
Mas então há uma Helena real? Ora, a imagem não era menos real, se ela mesma,
Helena, numa de suas falas assevera: "o que defendeu o valor frígio, o
preço da lança para os gregos, não sou eu mas meu nome", que estava em
Troia. Assim, conforme Cassin, "o nome parece bem mais real do que a
coisa". Vem assim a fórmula de Lacan, citada de Encore: "o
gozo só se interpela, se evoca, se percebe, se elabora, a partir de uma
aparência", que Cassin duplica ao notar que se Helena é apenas
aparência de que no entanto se goza, o gozo de Helena ela mesma é pura
aparência nesse outro sentido de ser o que não existe como gozo.
Então essa negação lacaniana do gozo feminino ("não há outro senão o
gozo fálico") vai se imbricar no desenvolvimento do texto de Cassin à
junção de sofística e psicanálise como negações da filosofia, em prol de uma
concepção de linguagem que implica para Lacan lançar mão de Parmênides para
converter a fórmula ontológica: "o ser é", assim como se
costuma expressar, "e o não-ser não é". O como-se
introduz, na acepção de Cassin, a decalagem da sofística-psicanálise à
filosofia.
Mas será que podemos deduzir do tratado de Gorgias, conforme Cassin, que "o
ser é um fato do dito", assim como o podemos de Lacan se ele, ao invés
de focalizar o fato inalienável das sensações, apenas afirma que "não
há nenhuma realidade pré-discursiva" ?
É preciso voltar ao tratado de Gorgias, examinando atentamente o andamento das
proposições.
II)
Quanto ao tratado gorgiano do não-ser, Cassin interpreta o negado ser como
o objeto e o significado suposto concreto além da palavra. Para ela, como já
vimos, Gorgias está afirmando assim como Lacan, que o significado é efeito
do significante, o mundo é efeito da palavra.
A meu ver, se de fato o significado ideal é o desfeito em si no tratado, e
devemos lembrar que o negado da palavra como significado independente é o Ser
(do significado além da palavra), já não se pode, paradoxalmente, dizer o mesmo
quanto ao objeto. Inversamente, há aí peremptória afirmação do que faz suscitar
("revelar") a palavra, sendo e conservando-se
independente dela.
O que Gorgias está afirmando é que nós temos sensações externas à palavra e são
essas sensações que pretendemos estar sendo comunicadas na linguagem, mas na verdade
apenas há na palavra, ela mesma. Como sublinhou Mondolfo, há assim "antítese
entre a exterioridade, a nosso respeito, da subsistência dos objetos e a
interioridade da palavra".
Conforme a citação dos outros
textos subsequentes ao de Sexto, precisa-se: " e quem fala diz, mas não
diz a cor nem a coisa. Como então quem concebe poderia pedi-los às palavras de
outro"?
Aqui o sensismo se torna
subjetivismo, em sentido antigo, pois mesmo que fosse possível conceber pela
palavra, em vez de só ser possível conceber pelo ver ou ouvir, ao comunicar a
outrem este não o entenderia do mesmo modo por não ter sido dele a concepção. "Visto
que a mesma coisa não pode estar ao mesmo tempo em muitos (indivíduos)
separados". Mas se vários indivíduos participassem da mesma fonta
de experiência sensível, não veiculariam o mesmo pela palavra, porque em
cada um a senação seria singular, irredutível às demais.
No primeiro caso há absurdo porque admitir que muitos sintam o mesmo seria
afirmar que um são dois; no segundo, o absurdo equivaleria à afirmação de que
dois são um.
O curioso é que quanto a essa segunda possibilidade, dela desdobra-se mais uma
objeção, ulterior às três negações (de que o ser é, de que possa ser pensado ou
de que possa ser dito). Nesse novo argumento negativo, a mesma pessoa exposta à
mesma fonte de experiência sensível pode variar seu parecer quanto ao conteúdo,
se repetir a experiência num outro momento. "E parece que nem a mesma
pessoa sente coisas iguais ao mesmo tempo, mas diversas, com o ouvido e a
vista...". Também não sente do mesmo modo "agora e um tempo
antes". Sendo assim "seria impossível que alguém sentisse
inteiramente o mesmo que outro".
Este é um tópico célebre da polêmica sofística, o fato de que o mesmo homem,
estando são sente o leite doce, mas doente o experimentaria amargo. Aqui
Gorgias ampliando o que implica o argumento, a inviabilidade da coisa e da
palavra serem o mesmo, porquanto esta é invariável, mas aquela não, contudo não
implicando que não exista a variação sensível que se especifica como a
experiência de alguém. Pelo contrário, é a unidade da palavra que não existe no
mundo, só existe enquanto palavra.
Algo que é bem explorado até mesmo na Lógica, como a irredutibilidade da
extensão (todas as coisas reais que cabem num conceito) à compreensão (a
definição do conceito que está no pensamento e/ou na linguagem), como do
particular ao universal. Todas as dificuldades que implicam a pluraridade
teórica desde aí derivando do fato de que não se tem imediatamente nenhum nexo
entre eles, portanto a postulação de que o universal existe a mesmo título do
particular depende de se superar a dificuldade, quando se trata de metafísica.
Ou então trata-se de anti-metafísica quando, como Gorgias, não se crê que haja
o ser do universal, restando a resolver os problemas quanto à natureza do
objeto real e sua acessibilidade. O Ser inicialmente negado define-se portanto,
como a pretensão parmenídica da identidade ideal existente por si, inversamente
ao existir variável da experiência efetiva.
Ora, não parece que novamente se pudesse predicar a objeção pelo absurdo da
duplicidade, na ordem de ideias expostas no tratado, pois esta significa, naqueles
dois exemplos, um mesmo (experiência sensível) em outro (indivíduo), não
precisamente a alteridade do mesmo indivíduo (sujeito da experiência).
Assim também podemos notar que a duplicação mítico-dramatúrgica de Helena
contrasta com o duplo literário do fantástico romântico, posto que Helena na
literatura grega antiga nunca se defronta consigo mesmo alterizada. Além disso,
a duplicação não é inexplicável no texto. Esse é o traço conspícuo do
"fantástico" enquanto gênero romântico em que algo inverossímil
acontece. O gênero "maravilhoso" igualmente praticado na
era contemporânea, também apresenta eventos inverossímeis, mas eles são
explicados na interioridade da trama por algum agente específico, fada ou deus
por exemplo. O gênero maravilhoso atualiza a literatura lendária ou
o milagre, mas o fantástico só emerge com o romantismo e até agora
não se o compreende muito bem, sendo locus polêmico em teoria.
Quanto
a Helena, ela apenas sabe do estratagema dos deuses, suscitando um
eidolon (imagem) dela mesma em Troia, e inclusive o explica ao marido. Aqui
pois, repetindo, mais um fator irredutível ao fantástico romântico, pois a mola
do acontecimento está exposta, não há irrepresentável, isso que marca o duplo
literário do Romantismo, como seu puro absurdo, ocorrendo algo impossível de se
explicar, não havendo intervenção de um agente que possa ser atribuído, como
nesse caso de Helena há os deuses. Por isso, com Helena, temos o
"maravilhoso" ou o mítico, não o "Fantástico".
Ora, do mesmo modo que Platão nega que possa haver dois Crátilos, Gorgias
sugere o dois em um ou o um em dois apenas para mostrar que, sendo absurdo, é
impossível, portanto não ocorre em parte alguma.
Esses são problemas sobremodo complexos, e não há proveito em ser-se dogmático
tratando-se justamente da sofística. Mas no exame do tratado de Gorgias, focalizando-se
especialmente essa questão da palavra, nada me parece consoante com a tese
de Cassim pela qual "Helena é o equivalente de todas as mulheres, assim
como o discurso é o equivalente geral de todas as coisas", este
segundo termo da proposição sendo por ela atribuído como o que
afirma o tratado de Gorgias.
Quanto a Helena, trata-se da interressante questão da autenticidade do
verso homérico, o 279, onde se mostra Menelau contando a Helena o
que ela mesma havia feito, imitando as vozes das mulheres dos guerreiros gregos
postos na emboscada aos troianos, a fim de que seduzidos pelo chamado suposto
das esposas eles se revelassem, precipitando-se fora do "cavalo de
troia" já recebido como presente na ilha. O que teriam feito se
Ulisses, compreendendo tratar-se de Helena, não houvesse retido os guerreiros
no simulacro de cavalo, e até amordaçado um deles.
Helena
imita todas as mulheres de modo tão perfeito que os guerreiros não podem não
ceder à astúcia da voz. Cassin referencia como esse episódio é geralmente
considerado inautêntico, uma interpolação, por exemplo por V. Berárd,
acentuando que não há um consenso até hoje exequível a propósito dessa "guilhotina
filológica".
Mas Cassin pensa que a inverossimilhança de que os estudiosos de Homero acusam
essa estorieta, pode ser contornada pois esta "se deixa interpretar na
nossa perspectiva mas então é de uma penetração perturbadora", a
interpretação sendo que Helena está sendo visada como equivalente geral de
todas as mulheres. "E já que é em Helena que se podem ouvir todas as
mulheres, é evidente que, inversamente, o inconsciente, novo doutor Fausto,
deva "ver Helena em toda mulher", de modo que "Helena
nomeia claramente a/uma mulher". Assim como já vimos que o que há no
inconsciente é tão somente o Um, o que faz entender as palavras de Lacan
citada do Encore: "o gozo só se interpela, se evoca, se percebe,
se elabora a partir de uma aparência", aqui Helena sendo, conforme
Cassin, "a aparência de todas as mulheres inclusive dela mesma".
Considero
bem interessante essa interpretação de Cassin, mas não como algo válido para o
inconsciente universal como o postulado psicanalítico, e sim porque a questão
se prende ao que me parece, como já assinalei, a estruturação do logos
metafísico a partir do mito oligárquico, o homérico, onde é de identidade
que se trata. Mas isso implica questionar que a sofística, o mito hesiódico e a
democracia possam ser designados na mesma estruturação.
O tratado de Gorgias se revela surpreendentemente adequado para iluminar um dos
problemas modernos de lógica, o que trata da Negação. Nesse encaminhamento tem
se formulado o problema seguinte. Se pensamos o ser, não podemos pensar o
não-ser. Não podemos formular uma imagem mental ou um correlato compreensível
para o que não existe.
A palavra "inverossímil", por exemplo, como
sugeriu Raphael Demos em 1917, poderia servir para resolvê-la. O
não-ser é pensável como o inverossímil, o que não possui congruência com
qualquer experiência pensável possível ser. Mas ele mesmo se auto-objetou ao
notar que "inverossímil" é uma negação de verossímil, portanto não
podemos demonstrar que possa ser pensado independente de verossível que é a
afirmação do atributo de verossimilhança. Assim, poderíamos ler o início do
tratado como uma formulação dessa questão em que Gorgias está, contrariamente à
auto-objeção de Demos, afirmando que se pode, sim, pensar o nada ou o não -ser
: o não, a negação, existe (em vez de apenas não existe ou
nada existe).
Por outro lado, como se sabe o tratado de Gorgias é um pastiche do dito
parmenídico "o ser é, o não ser não é", o nada não existe, o nada não
é pensável. Para contradizer esse dito, Gorgias vai afirmar, como já
assinalamos, que pensamos coisas impossíveis ou absurdas, inverossímeis,
poderíamos afirmar, como os carros andarem sobre o mar. Pensamos o não-ser.
Sabemos que isso é impossível. Mas pensamos o não-ser porque se pensamos algo
impossível, isso está de acordo com o fato de que o que pensamos, mesmo que
fosse possível, não é imediatamente a coisa real. Esta não é pensável, é em si.
Normalmente supomos que ele está previamente negando a coisa em si, mas o que o
tratado permite afirmar é que há o problema da coisa em si, posto que os
atributos que ela porta não são negáveis da experiência sensível, mas esta não
é ser e sim devir, portanto o correlato invariável atribuído da palavra ou do
pensamento permanece em questão, apenas sabemos que ele não é a coisa, e sim o
pensado ou o falado.
Essa questão pode ser visada em conexão com a do assim chamado argumento
ontológico. A princípio podemos notar que um ponto que se poderia
visar aí a favor de Parmênides, é que Gorgias está aparentemente aceitando
"pensar" mas na verdade está apenas lidando com "conceber".
Os dois podem não ser o mesmo, posto que conceber teria o sentido de imaginar,
enquanto pensar é estar na verdade, atingir o fenômeno na sua essência. Se
pensamos, então imediatamente o que pensamos é. Mas não pensamos ainda, muitas
vezes, quando estamos apenas imaginando. Resta a questão que subjaz a todas
essas: que é do Impensável no pensamento? Este esgota o Real admitindo que se
esquiva ao devir? Ou o Real não é acessível ao pensamento, etc.
Ora, de
fato podemos notar como essa objeção que se utiliza da diferença entre
imaginar e pensar pode não ser tão procedente como parece, ao examinar o que há
com o argumento ontológico. Como se sabe, em história da filosofia esse
argumento é o que se usa para provar a existência de Deus, porque formalmente a
ideia de Deus encerra a perfeição, e a inexistência é uma imperfeição. Se
pensamos a ideia de Deus, e ela assim como um teorema matemático encerra a
demonstração certa de sua necessidade, essa ideia encerra a existência
na perfeição, logo não podemos duvidar que Deus existe assim como não duvidamos
que dois mais três são cinco.
Mas objeta-se a esse argumento que a ideia de Deus só está no nosso pensamento.
Não há nexo garantido nela mesma, entre o nosso pensamento e a realidade
concreta. É esse o ponto de vista de Gorgias. Se pensar e imaginar são o mesmo
ou não, em todo caso não saímos da intelecção. É porque não podemos lidar
apenas com o pensamento certo na intelecção, mas também com a imaginação, que
não temos como distinguir na intelecção o que existe ou não fora dela.
Se o pensamento não é ser, pensamos o não-ser, e o problema ontológico da
negação inexiste. Quanto ao problema lógico, modernamente se o supôs solvido do
seguinte modo. O não ser (falsidade) é pensável, mas como a impossibilidade de
um discurso como sua predicação fora das suas condições de vigência (gênero).
Que a República brasileira foi proclamada no século XIX é uma proposição
verdadeira somente em se tratando do gênero História. Nesse gênero a proposição
"a Répública não foi proclamada no século XIX" é pensável
falsa. Mas pode haver uma estória romanesca em que a República não foi
proclamada naquele século, e seria falso afirmar que nessa estória a
proclamação teria que ter havido se na História efetiva sabemos que houve.
Provar que alguém cometeu um crime é verdadeiro universalmente mas neste
gênero em que a ação é um crime, ou que se define exclusivamente pelo
ato assim considerado crime. O que é crime ou ação legal num país e em uma
cultura pode não ser considerado assim em outros. Na França hoje em dia há
questões legais envolvendo o uso do véu prescrito pelas
imigrantes muçulmanas, por exemplo. Se assim como na Grécia democrática,
hoje nós temos tribunais racionais, então o juízo sobre os atos mesmo na
imanência de um sistema legal comum a todos os participantes, está
numa margem de interpretação possível, por isso há advogados e os
trâmites correspondentes que implicam o uso da retórica, a especialidade
dos sofistas. Ao contrário do que Platão e Sócrates pretendiam como
saber disponível independente de qualquer interpretação possível.
A solução do problema da negatividade pela "lotação" do enunciado num
gênero se encontra em The meaning of the meaning, de Ogden e Richards.
Restam assim duas questões importantes quanto ao tratado de Gorgias: se ele
permite afiançar algo sobre se a sofística chegou a essa solução e como podemos
situar a questão da subjetividade por meio dele.
Sabemos
por Diógenes Laércio que Protágoras praticava a classificação de tipos de
discurso. Segundo alguns autores, quatro: súplica, pergunta, resposta e
comando; segundo outros, sete: narração, pergunta, resposta, comando,
enumeração, súplica e invocação. Essa divisão alcança porém o ponto em
que o próprio referente é função do gênero - o que hoje designamos o motivo
mesmo da elocução, como carta, conversa, telefonema, poesia, exposição
científica, etc.
A meu ver, em todo caso, essa posição pela qual a negação é pensável,
é incompatível com o que prejulga o inconsciente lacaniano.
É interessante notar que a teoria da linguagem subjacente à interpretação
psicanalítica de Lacan poderia ser enunciada como uma teoria do significado
como lugar no sistema. Uma teoria oposta a essa seria a do significado como
"referência", mas não entendendo-se tradicionalmente como adequação à
coisa suposta real em si ou ao conceito suposto real em si. Nessa teoria, como
em Ogden e Richards ("O significado de significado"), trata-se da
referência como situação extralinguística em que um ato de pensamento se forma
como o que está efetivamente em relação com algo na situação.
Ainda que o The meaning of the meaning seja de inspiração claramente
neoempirista, trato essa teoria como "funcionalista", em oposição à
do significado como lugar no sistema que seria "estruturalista". Na
verdade o citado livro é já um conjunto de transformações impostas aos quadros
do neoempirismo, devido justamente à influência funcionalista - a perspectiva
totalizante como na psicologia da Gestalt, a sociologia de Talcott Parsons
ou a física de Heisemberg - que foi preponderante naquela época, anterior ao
rise estruturalista.
O termo funcionalista mostra-se adequado à perspectiva totalizante
porque ela implica não só a situação e o ato de pensamento, mas sendo também
uma teoria da linguagem, escalona a esta como articulação de dois níveis, um
onde estão as funções extralinguísticas que presidem a intenção do falante em
fazer uso da linguagem, basicamente cinco funções sendo propostas listáveis,
entre elas a mais familiar sendo o propósito de que o ouvinte faça alguma coisa
que requeremos dele pela palavra.
Aqui devemos notar que essas funções na teoria em questão são
pré-linguísticas, ou seja, essa função volitiva por exemplo, não pode ser
reduzida à "injunção" como um tipo de discurso, porquanto a função
pode ser servida de muitas maneiras que não uma ordem explícita e até,
dependendo do caso, que se trata de alguma ordem deve ser evitado que o ouvinte
perceba, quando a função volitiva precisa ser alcançada por meios mais
persuasivos. Podemos induzir alguém a fazer o que queremos, convencendo-o de
que é isso que ele quer, independente do que queremos
nós, etc.
Aproximam-se os autores de Sapir, quanto a isso, e eles transcrevem deste uma
conceituação do problema da tradução poética a partir dessa diferenciação da
função e do símbolo linguístico. Poesias centradas na função seriam facilmente
tradutíveis, como Shakeaspeare. Mas poesias centradas no manejo puro do símbolo
linguístico seriam intradutíveis, somente aproximáveis, como a de Swinburne.
Além disso é importante notar que o nível pré-linguístico das funções está
sendo tratado não como em Gorgias, como o que é inalienável da experiência
sensível, mas como generalidade, ou na expressão de Ogden e Richards,
"experiência humana generalizada".
O que desejo enfatizar aqui é a objeção que esses funcionalistas, não
é que moveram eles mesmos, mas registraram como já estando em curso, contra a
teoria do significado como lugar num sistema, de modo que o
"simbolismo" como designam Ogden e Richards a sua teoria, viria como
solução dos problemas já equacionados como objeções a várias teorias que eles
examinam detalhadamente.
Creio
que podemos expor a sua objeção ao estruturalismo por meio do contraste entre
duas proposições:
Eu sei que ele gosta de salmão com maionese.
Eu sei que ele realmente gosta de salmão com maionese.
A
objeção consiste em mostrar que só pela posição não temos como saber o que
significa "realmente". Não temos como saber isso de jeito nenhum,
aliás, é o que se quer demonstrar, porque não significa nada fora do nível do
puro manejo de símbolos, manejo que não está predeterminado pelo sistema da
linguagem, mas depende da vontade do falante.
É algo psicológico, poderíamos afirmar, não "psicanalítico" . Como se
pode notar não há uma diferença de natureza entre as duas proposições, elas
significam o mesmo: em um contexto de situação possível, alguém
gosta de um certo prato. O contexto não é alterado pelo "realmente".
Nem se discerne sempre a mesma coisa quanto ao motivo psicológico do uso desse
símbolo. Sugere ênfase, mas pode ser que se trate apenas de adorno, ou por
assimilação estilística do modo como um autor conhecido costuma escrever.
Afirmar que se trata de ênfase não explica qual a razão de haver a ênfase. Em
todo caso, "significando" (referenciando situacionalmente) o mesmo,
as duas frases não são de fato a mesma.
A segunda frase cria um "contexto" situacional a mais, conforme
seria aplicável a terminologia dos autores. Poderíamos notar que a
primeira frase é somente uma declaração, mas a segunda frase declara
sublinhando a declaração ela mesma. Cria um contexto de importância do fato
declarado, mas não porque "importante" seja o significado do
termo "realmente", pois evidentemente não é o caso.
Uma contra-objeção de tipo estrutural poderia ser endereçada se notarmos que a
oposição dos dois níveis, funcional e simbólico, respectivamente
"pré-linguístico" e "linguístico" implica uma
distinção de natureza entre fala e escrita de modo que, por exemplo, nenhum
recurso literário pode ser reservado à função da fala quando se trata da
destinação pré-linguística que depende da atitude do elocutor em relação ao
ouvinte, de afeto ou de hostilidade. Há recursos literários para
compensar a impossibilidade dessa expressão no material escrito, mas nunca
esses recursos são suficientes para eliminar a irredutibilidade do escrito ao
falado. Ora, pode-se afirmar contudo que a fala é do mesmo modo que a
escrita, sistema de marcas. Pode haver variação quanto aos códigos formáveis
pelo sistema, mas todos teriam a mesma natureza textual, se linguísticos.
Além disso, se o "simbolismo" em tela pemite ultrapassar o limite do
funcionalismo tradicional que reduz toda linguagem à comunicação, uma vez que
postula uma função psicológica e pré-linguística da manipulação dos próprios
símbolos linguísticos como vimos com o exemplo do "realmente" que
implica um uso puramente poético ou "simbólico" nesse sentido, na
verdade ele persevera na redução porque não é sobre as funções que ela incide,
e sim sobre o sistema de símbolos, o linguístico.
Mas a redução da linguagem ao comunicacional impede descortinar o problema
justamente da subjetividade que se enuncia na relação da volição com o logos,
visto que este movimenta-se precisamente como todo sentido possível da volição.
A relação do elocutor com o ouvinte, como entre o que move e o que é movido, já
implica a decisão de mover num ou noutro sentido, a qual já foi posta como
possibilidade na linguagem. Não só a coisa como o fato, o isso que
"a" quer que "b" faça, mas o meio em que a pretensão de
"a" sobre a ação de "b" veio a ser algo com sentido é um
meio de linguagem.
Assim,
porém, não se instala imediatamente a oposição lacaniana de imaginário e
simbólico, mas a questão recusada por Lacan, da cultura. Não se trata, pois, de
uma solução, mas do problema.
Lacan
define a linguagem como um sistema absolutamente posicional, e assim elimina
várias dificuldades quanto ao círculo linguístico do sentido, mas não
quanto ao significado. O que Derrida permitiu situar como algo pertinente
à superação do dilema entre as duas teorias que estamos examinando é que o fato
de um sistema posicional ser descritível - o que é pensável pelo modelo da
escrita alfabética - em termos das relações inteligíveis que ele instaura e o
como estrutural de sua instauração, não implica que essas são todas as relações
possíveis geradas pelo inconsciente. Ou seja, nada implica que esse sistema
seja o único possível e se algum registro expressar relações ulteriores não
está de antemão provista a legitimidade de reduzi-lo a um caso anômalo ou
desviante daquele sistema.
A objeção ao formalismo estruturalista, que vimos a propósito do significado,
na verdade se desdobrou historicamente nas objeções da antropologia
pós-straussiana pelo que a irredutibilidade cultural não resta subsumível à
universalidade do formalismo linear significante. Há muitas
questões postas pelos fenômenos de uma certa cultura que não podem
ser ventilados pela redução de tudo que ocorre a "sistemas de
trocas". Isto está bem expresso na formulação anti-freudiana do
inconsciente de Guattari-Deleuze ("Anti-Édipo"), mostrando por
exemplo, contra o formalismo puro, que há relações de aliança entre grupos e
pessoas que subvertem todo o previsto pelo sistema de trocas da
etnia, em que pretensamente se assentam as leis estabelecidas dos
casamentos, sem que isso implique ruptura para com a sociedade.
Mas Deleuze-Guattari continuam pretendendo solver a questão por uma
classificação exaustiva a priori, das possibilidades
sistêmico-posicionais do Inconsciente. Assim no Anti-Édipo há uma só
possibilidade inconsciente para os "selvagens" opostos ao
sistêmico "civilizado". Mas o problema permanece, pois há
vários fenômenos que diferenciam (grosso modo, já que o mapeamento continental
está apenas representando o que é mais constante dentre as tribos
conhecidas; mas profundamente porque a irredutibilidade é incontornável)
aborígenes sul-americanos e africanos, especialmente quanto à chefia. Na
teoria do anti-édipo esses dois contextos culturais seriam um único
"desejo" ou mentalidade selvagem: marcar a pele, territorializar
o espaço, como meio de estabelecer a regulação dos costumes que não
implica a subjetividade identitária dos indivíduos, apenas a sua pertença ao
grupo e sua adesão às regras, por isso quanto à estas pode haver
"devir", variação de alianças sem transgressão do contexto
social.
Essa problemática, como pode se compreender, está subjacente ao problema da
sofística enquanto parâmetro retórico-relativista da linguagem, e agora temos
uma base adequada ao desenvolvimento da apreciação do tratado focalizando-se as
questões acima referenciadas.
============
2
É preciso propor, a propósito da sofística, uma questão que até agora ainda não
constatei desenvolvida, a propósito de sua relação com o Saber.
Se ela é a pioneira formulação da posição cética ou ao menos de um
criticismo antigo a propósito da pretensão do conhecimento da physis.
Pois, se
costuma ser associada a origem do "pensamento racional" (Filosofia =
Episteme), ao jurídico, o saber demonstrativo do orador forense sendo o modelo
do saber racional bem antes de Platão e mesmo da sofística, desde Hesíodo,
a democracia é a epítome da fórmula legislativa do socius. Contudo, a sofística
que se articulou na Polis democrática Ateniense, é a recusa do saber da
physis ou natureza, o objeto da perquirição dos primeiros filósofos, como Tales,
Heráclito ou Parmênides. Como o triunfo da fórmula demonstrativa do
logos filosófico sobre todo pré-concebido da tradição
mística ocasionou na Grécia antiga - ao invés de um impulso
científico puro, uma sociedade empíreo-científica, como na modernidade -
o fenômeno inverso da relativização radical do discurso entre a sofística
e o ceticismo?
Pode-se responder
a isso que se chegou, sim, a uma concepção empírica - ainda que não metódico -
"experimental" - do conhecimento, em contraste com o conteúdo
especulativo dos "physiólogos" pré-socráticos. No entanto, vemos que
esse conteúdo ainda é matéria problemática quanto ao modo pelo qual
devemos entender o objeto da especulação pré-socrática que por amor à
cronologia e à exatidão histórica deveríamos chamar ante-sofística.
Restringindo à informação antiga, como a Aristóteles, nós nem teríamos algo
como especulação e sim uma indagação bem concretamente voltada à pesquisa das
origens, ou causas, materiais do universo. Mas é a relativização do conteúdo do
saber, o elemento crítico, que penetra somente com a sofística, e que será
depois sistematizada, juntando-se a componentes outros de
problematização, com a escola cética.
O que é sofístico, a meu ver, poderia ser proposto em comum com o Romantismo e
o pós-modernismo. Aquilo que designaremos o "recebido" da
cultura, em vez de ser o perpetuado ou o de todo recusado em vista de alguma
descoberta que o desloca inteiramente, é visado como o problemático
naquele sentido que ressoa na expressão de Deleuze a propósito da episteme
atual: em vez do hipotético, o problemático; em vez do tético, o temático que
assim escapa ao reducionismo dos "tópicos de paragrafo" da
comunicação. Não se trata mais da supressão do problema na instância da
solução, portanto o que é temático ressoa na heterogeneidade inesconjurável do
problema ("teoria").
A
obra de Deleuze pode nem sempre ter se mantido nessa circunscrição, como seria
desejável, mas esse é o caráter expresso na duplicidade da cultura à altura do
Romantismo, assim como referenciada por W. Schlegel. A unidade
clássica fôra rompida, dado que cristianismo e greco-romanidade já não
podiam ser reduzidos a um pressuposto universal dogmático. Ao que se poderia
acrescentar que grego e romano já não eram tampouco a mesma coisa. Mas como se
pode depreender, o recebido é o dado persistente da cultura, o que se trata de
criticar ou transformar, ou mais precisamente conceituar num nível acima do
meramente judicativo na acepção do senso comum imediatista, aquele da
"teoria" ou da interpretação.
A questão sofística do Nomos encerra esse caráter do problemático - a propósito
daquilo que se traduz, Lei ou Convenção enquanto objetos teóricos cuja
construção no pensamento comporta necessariamente um elemento opositivo a
Physis ou Natureza. Esse termo "recebido" é o que estou transpondo
aqui do destacado por Derrida ("Força de Lei") de Pascal num
trecho em que este, segundo Derrida, cita mas sem nomear, a Montaigne: "O
costume faz toda eqüidade [da justiça] pela simples razão de ser
recebida ...". A justiça aí é sinônimo de "autoridade".
Nada mais fácil que ler todo esse parágrafo citado à luz da sociologia
compreensiva - a "funcionalista", de Weber e Dilthey em diante.
Quando a justiça é sinônimo de autoridade nesse plano imediatista do costume,
trata-se de tradição, em vez de racionalidade legal. Trata-se, portanto,
de ante-capitalismo, sociedade pré-industrial.
Já nos quadros da Antiguidade grega, um paralelismo notável pode ser
encontrado, se situarmos a sofística como resultado da luta de classes que
designa o período entre a estabilidade dos clã nobres e agrícolas (após as
invasões dóricas) e a Polis instituída, entre, portanto, os períodos
aproximados do séc. X a VIII e V a III. A luta de classes, entre os séculos VII
e VI, é concomitante ao surgimento do regime jurídico, da reinserção do
alfabeto e a escrita das leis, o nascimento da filosofia, da retórica e dos
jogos dialéticos, as seitas órficas populares, tudo isso na inserção
das transformações econômicas que reinserem o comércio e mudam grandemente o
cultivo agrícola de onde o motivo da consolidação do escravismo.
A sofística deve, pois, entender o caráter construído da lei, assim como na
vigência racional-legal das organizações de governo da sociedade
moderno-industrial, mas se o paralelo se limita a esse legalismo, é porque a
democracia e a crítica sofística que lhe é concomitante continuava na
sociologia compreensiva, a ser suposta algo transitório e anômalo na
Antiguidade, já que a consolidação moderna é intrínseca ao fato do capitalismo
industrial, regime assalariado, etc.
É assim que se nesse âmbito moderno o capitalismo pode ser interpretado como
desterritoralização dos códigos sociais tradicionais, na sofística o caráter
construído da lei implica o problema do ser indeslocável das tradições que não
obstante, tem que ser conciliável com o viés meramente convencional, portanto
mutável, não-natural, da lei.
Derrida não envereda por esse rumo, ao invés ele se aplica à
elucidação do sentido do "recebido", o qual escava-se
sobre a oposição que o trecho subentende entre justiça e lei
(direito). Trata-se do infundável da justiça, inversamente ao nível
estritamente decisionista que a lei instala, isto é, aquele em que
qualquer que seja o pensável, ele já está relacionado a uma instância de
decisão em função do imperativo significado da lei. Em todo caso,
reencontramos aqui aquele nexo polêmico da sofística, entre justiça e
força. Para Derrida, se a justiça é infundável, é porque ela é
o próprio ato fundador (do direito). Mas aqui há uma ambiguidade no texto
derridiano, pois sendo esse o caráter do ato atribuível à justiça como
infundável, ora se atribui a esse ato, como à justiça, uma "estrutura
violenta", posto que ele (a) está para lá do direito, antes do
direito; ora, inversamente, que o ato ou a justiça são anteriores a
qualquer oposição do fundado e do não-fundado, do legal e do ilegal.
Como se o direito ele mesmo fosse essa oposição do legal e do ilegal? Em
todo caso, não o poderia ser quanto ao fundacionismo e anti-fundacionismo.
Derrida afinal localiza a justiça como o que não é descontruível, inversamente
a todo direito que é desconstruível. Sendo assim, a justiça, o desejo desse
haver da justiça, é a desconstrução, o x indesconstruível que permanece
("existe") impossivelmente em tudo o que é desconstruível.
Aqui me parece ressoar o problema ventilado - entre Mannoni, Lacan e Jean
Hyppolite, a propósito do Simbólico - no seminário que referenciamos cujo tema
é o "eu na teoria de Freud...". A exposição de Lacan em que vemos
Sócrates ultrapassar o nível da intuição demonstrando um teorema contudo por
meio das respostas do escravo, como acima referenciamos, conduz ao formalismo
como ortodoxia. Se contrastei a identidade que Cassin propôs entre
sofística e psicanálise, nesse trecho o próprio Lacan nos informa sobre quem,
no quadro histórico em apreço, era para ele o psicanalista, a saber, "para
Sócrates", segundo Lacan, "se Temístocles e Péricles foram
grandes homens é que eram bons psicanalistas".
Nessa altura, já havia crescido entre os assistentes interlocutores de Lacan, a
rejeição em assimilar Platão a Freud, e Lacan também nega que teria sido
esse o seu propósito. Mas é essa fórmula de Sócrates - se bem que não a de
Platão necessariamente - que fecha a questão da filosofia antiga na
apresentação de Lacan.
Sua motivação retorna logo a seguir, quando se trata de Levi-Strauss,
porém, porque o que está em jogo é essa, digamos, natureza do simbólico,
que tanto choca a assistência, uma vez que ela está instalada assim no coração
da cultura. Já não se dirá natureza, mas "máquina", mecanicismo, que
Lacan está defendendo, se bem que depurando das suas fórmulas primeiras que
sabemos terem sido historicamente produzidas pelo Iluminismo. Entre a ortodoxia
socrática e os iluministas, que pode haver de comum que, ainda por cima, deva
responder pelo nome de "psicanálise"?
A resposta é bem simplesmente a "letra", o sistema, a escritura, a
linguagem, o formalismo, o algoritmo. Aqui, o universal - e portanto o
"socrático". O oposto do "sentido", espontâneo, meramente
convencionado, etc. Mas os problemas que restam assim são inúmeros, porquanto
eles não se esgotam nas formas de oposição em que podem ser enfrentados
pela teoria: entre o imaginário e o simbólico, entre o corpo e o eu, entre o
dado/recebido e a escolha, entre necessidade e liberdade.
Todas essas oposições são recortadas sobre uma imagem que resta comunicativa da
linguagem, enquanto algo elaborável num nível consciente por um "eu"
que está situado pelo/para o falante desde a instância da letra em que a
fala se instala. Mas também como algo a elaborar num nível insconsciente, como
sistema. A imagem da linguagem sofística, inversamente, não é a do
endereçamento politrópico sem ser, antes, o que não se reduz às formas
expositiva e descritiva nas quais temos a imagem da elaboração/comunicação do
Saber.
O jurídico ainda podia manter essa instância que subjaz à forma narrativa
mítica como seu destilado, o seu ensinamento, mas a democracia requer uma
ruptura ainda maior. O jurídico permanece no âmbito idealizável tradicional da
sociedade como perpetuação de uma hierarquia de estamentos. Ele já estabelece a
ruptura, como em Hesíodo, mas a luta de classes em sentido grego-antigo ainda
não havia abolido o sistema pré-jurídico da nobreza. Quem fala na sociedade
arcaica da nobreza é o ethos hierárquico, a unidade que ele pressupõe a
partir do clã, a linhagem referencial dos cuidados dos deuses cuja identidade é
a da etnia - ou, depois, da "cidade". Essa unidade está
problematizada na democracia, pois agora trata-se da heterogeneidade
compositiva do social.
A legislação que o jurídico já introduzira, é o locus da forma
conversacional que extravasa a simplicidade do diálogo, trata-se do pensamento
em presença do múltiplo, em composição com ele. Esse múltiplo só
na democracia antiga irá conservar-se no elemento do político, onde não se
trata somente da ortodoxia como a boa opinião que poderia ser reduzida a um
saber - Lacan, inclusive, retém o exemplo de Temístocles a quem
coube o mérito de ter compreendido que os persas voltariam a atacar e
por isso, a urgência de aparelhar a frota em vez de qualquer outro dispêndio
orçamentário.
As decisões são em níveis plurais e o que precipita o que chamei pensamento
humano como o que na modernidade fornece a imagem das ciências humanas é
que muitas vezes o que está envolvido não tem correlato de certitude para além
da conveniência das partes, esse sendo o caso exemplar das democracias quanto
ao regime, e da cultura quanto ao objeto do saber, em vez daqueles
que podem ser reconduzidos a um conhecimento
"técnico-científico-administrativo".
Aqui há também uma ambiguidade notável em Lacan, pois ele começa por instalar a
psicanálise nesse tipo de conhecimento, junto à ortodoxia, mas na verdade o que
está tratando como o simbólico em que se realiza está sendo operante para a
problemática relacionada ao que chamamos aqui a cultura, e para ele designável
como o que é posto ao homem como a função da fala.
O Nomos (lei) na sofística, como o problema da justiça, não é posicionável
senão em relação à linguagem, mas esta seria anacronicamente interpretada por
nós se a situássemos nessa "função" que à psicanálise em geral ou a
Lacan em particular, e mesmo à desconstrução derridiana quanto a isso,
tornou-se pensável porque houve um enraizamento histórico
moderno-ocidental em que o "eu" tornou-se ele mesmo pensável em si e
para si, como por exemplo na questão do desejo como do inconsciente.
Mas isso não é afirmável para a sofística.
Assim, nesse ponto instalamos ou retomamos o que acima restou como a
questão do sujeito no gorgiano tratado do não-ser.
Ora, o seminário lacaniano a propósito do "eu" começa por referenciar
o que seria uma ideia popular do "eu", conservando ao que parece o
preconceito indemonstrado de poder haver o comum pensamento a propósito disso
como entre um aborígine australiano do século XIX e um engenheiro holandês
de hoje em dia. Essa ideia, entre todos os referentes e acepções que destacamos
naquela oscilação indecomponível com que é iniciado o Seminário, enquanto
popular tipifica-se como a do dentista. O estereótipo aqui, não obstante
obviamente a classe dos profissionais em odontologia ser irredutível a um tal
preconceito, mostra-se estratégica porque poderíamos supor, para os médicos e
dentistas, o "eu" é o que sente algo, o sujeito que precisa ser
curado.
O corpo sensível, em psicologia contemporânea, é no entanto o oposto do
"eu", na medida em que tudo o que for atribuível ao nível orgânico,
inclusive que concorrer na composição da experiência da auto-consciência como
os reflexos, automatismos psíquicos, etc., é designado
"sub-consciente" - como na referência do estudo de Wallon. Se bem que
Lacan não conte essa história direito, porque ele apresenta Freud num
pioneirismo que não lhe cabe de fato, como se Freud tivesse rompido sozinho com
o dualismo cartesiano de matéria e espírito. As coisas são portanto, em todo
caso, bem mais complicadas que suporíamos se fôssemos o popular
pseudo-generalizável de Lacan.
Há o corpo e seu encadeamento biológico; há o que desse encadeamento subjaz à
constituição das potencialidades psíquicas; e há a vida psíquica em que temos a
experiência, que resta saber até que ponto é cultural e até que ponto é
universal humano, da auto-consciência. Explicar ou conceituar como dos dois
primeiros níveis chega-se a este e em que ele consiste conforme alguma partição
científica do cultural e do individual, não foi o problema que primeiro se
deu Freud, mas em que toda a psicologia e a psicopatologia nascente
estavam quando Freud integrou os seus quadros, e as soluções dele,
contraditórias e transitivas como foram, são apenas uma dentre as que
surgiram, como a de Janet, de Wallon, a Gestalt, etc.
Restou nesse âmbito o behaviorismo como um caminho em que não havia o problema
da auto-consciência, mas somente o do comportamento como integração ambiental;
ou a reflexologia de Pavlov em que em vez do comportamento são os reflexos o
determinante - na verdade, a origem do behaviorismo como hipótese. Toda
essa recusa do "mental" ou consciência como matéria possível da
psicologia, parece ter sido inviabilizada desde a transição aos anos
quarenta, concomitante à afirmação paralela da Gestalt e da psicanálise.
Atualmente, ao que eu saiba, o behaviorismo está integrado em
"cognitivismos" que não deixam de lidar com hipóteses intervenientes
(mentais), como as estruturas do conhecimento em Piaget. Mesmo assim, o fator
interveniente não é nunca a "consciência" em si, mas sim algo
estritamente conceituável como a propositividade, redução de drives (impulsos),
linguagem, etc.
Em compensação, a evolução da psicanálise conduziu aos formalismos de Lacan e
pós-estruturais em que se trata da solvência de todo parentesco do
"eu", "self", com o senso comum, totalidade do Si,
auto-imagem, etc.
Não
obstante a solução original de Freud, o inconsciente não deve portanto a ele a
origem pensável, como fluxos de atividade mental que não chegam a ser
percebidas naquilo que designamos habitualmente consciência normal - por
exemplo, fenômenos de dupla personalidade, ação sob hipnotismo, ou a histeria
que era a questão importante na psicopatologia nascente. Como caracterizar
esses estados mentais se tornou o ônus de cada uma das escolas de
psicologia, dentre elas a psicanálise em que uma energia sexual designada
"libido", independente do "eu", se definiu como a
fonte das ações não-"conscientes".
Mas como tenho assinalado frequentemente, é esse o ponto em que o ter-se
tornado pensável do "eu" na modernidade tem que ser reconsiderado
como o problema mais importante quanto à duplicidade da ação e da
representação. pois a designação de inconsciente não é de fato inventada por
Freud e está aí desde o Romantismo como a problematização em que emerge a
questão do "eu".
O que interessa ao propósito presente é notar que aparentemente
o tratado de Gorgias se instala no senso-comum que Lacan repudia, na qual
não existe um "inconsciente", mas tudo da ação e pensamento
da pessoa é representável por ela assim como pelos outros. Gorgias
nos fala de uma experiência sensível, a que está na base da motivação do
elocutor, e em relação a que tem lugar o esforço do ouvinte por
reproduzir o que motiva o elocutor, mas entre ambas as atividades está a
indiferença da linguagem, o seu invariável, o formalismo.
Assim, se bem que aqui pudéssemos aproximar o problemático que reside na
sentença de Protágoras pela qual "o homem é a medida de todas as
coisas", mas não sabemos se "homem" está por espécie ou
indivíduo, e nos resolvêssemos por este último, vemos que os quadros da
filosofia antiga ou "clássica" somente nesse sentido de ser
ante-contemporânea, são conservados. Pois não se vai daí colocar a questão
desse sujeito que sente e/ou que fala ou que deseja o endereçamento da sua
fala. Em vez disso, o tratado não tem mais que dizer, pois ele é apenas a
síntese da negação no pensável, e em outros textos sofísticos e gorgianos é que
vamos localizar os tópicos referentes ao que os sofistas problematizavam
positivamente, ou seja, sua teoria social, política, ética e da linguagem.
Nessas problematizações o que encontramos é o pensável da
heterogeneidade - dos grupos na sociedade, e dos costumes na cultura
- como o locus de instalação da linguagem. Se Protágoras se referiu ao
indivíduo, ao que parece ele é apenas o exemplar da espécie, e a variação do
aqui-agora em que alguém é situado singularmente são as da espécie. Não há um
problema da origem do pensamento estritamente subjetivo, pois não há
teoria na Antiguidade a propósito. O limite do pensável
singular é a variação possível do exemplar da espécie - se doente ou
são, se desta ou daquela cultura, etc. Este limite em que não há teoria do
sujeito, perdura no Ocidente, pois, até o Romantismo. Não há referencial
da emergência do sujeito pensável fora da cultura moderno-ocidental.
Nesta, a emergência do sujeito pensável está em conexão com o problema da
heterogeneidade cultural transformado porém pela ruptura do aborígine
americano. Quando a irredutibilidade deste deixou de ser "natureza" e
se tornou cultural - na decorrência da independência das colônias - então se
tornou pensável a relação da cultura com o sujeito histórico, como a questão da
gênese. Inversamente, nessa inserção, o básico a toda a
problematização clássica (ante-romântica) e especialmente greco-antiga, é o
liame da relatividade do Nomos com o sentido social a se estabelecer como
legitimidade, da justiça.
Ou seja, instalando o pensamento na heterogeneidade, se não se desenvolve
a questão do sujeito por um lado, também não há a do simbólico ou inconsciente
como locus da formação subjetiva da linguagem/cultura, por outro lado. A
justiça, na linguagem e por ela vai não se constituir em si, mas se
viabilizar na concretude das leis e na estabilidade social, porquanto é preciso
que se pense que há uma pré-constituição da sua necessidade em função da
heterogeneidade.
Não é Sócrates que põe esse problema, inversamente, a meu ver ele quer
desqualificar a posição do problemático, identificando na forma da linguagem
cuja questão sofística é somente a do seu manejo e sua limitação frente ao
devir (Real), a instância da "solução" que no entanto
nesse aporte autoritário é e só pode ser a antítese da democracia.
Lacan não hesita em falar do "zé-povinho"- na tradução brasileira -
sempre que quer referenciar aqueles que não sabem, e que pensam que sabem.
Mas
se a sofística fosse uma questão de gozar do salmão com maionese às custas
do trabalho alheio, como parece ter sido a interpretação de Freud, realmente
não haveria porque não ficar com Platão, o homem honesto. Mas a nobreza não é
honesta, pelo contrário, é a "moralidade" do gozo do salmão com
maionese às custas dos outros supondo que fariam conosco o mesmo se
pudessem, e em Platão é o mito que lastreia a afirmada absolutez
de um saber que só tem a nos dizer que os "sudras" (serviçais em
sânscrito) o são por natureza de sua alma, etc.
A propósito do sujeito na sofística, ou na Antiguidade da Polis, só o que temos
de positivo quanto ao que poderia ser a sua realidade "para si" é que
por um lado há a experiência sensível e sua afirmação na sofística, por outro
lado há a racionalidade pura que se torna pensável como anulação dessa
realidade subjetiva (devir) desde Sócrates platônico ou "metafísica".
Quanto à aretê ou virtude, ela é do mesmo modo inconciliável entre a
da nobreza e a democrática, como se pode demonstrar entre Homero e
Solon, sem tratar aqui de Hesíodo que ecoa Solon, e de Tirteu
onde se modula "patrioticamente" - de fato, militarmente - Homero.
A retomada platônica e depois aristotélica da tradição mítica homérica tem
sido tematizada como a viragem metafísica da religião grega, onde
a antropomorfização dos deuses cede lugar à regularidade racional
pura dos astros. Mas para manter a mesma noção de hierarquia
cósmica comum à physis e ao nomos, como à natureza e à
soberania. E assim a alma em si (mundo ideal) é identidade pura, não
uma "subjetividade" em qualquer fórmula de transitividade pensável.
Já no Romantismo, quando ocorre novamente no âmbito europeu essa irrupção do
heterogêneo que desfaz a unidade hierarquizante tradicional da nobreza, em vez
da heterogeneidade poder ser reestruturada como cosmo político
("Polis"), por isso inviabilizando a deriva da questão do sujeito,
está havendo a impossibilitação até mesmo do compromisso classicista e depois
auflkarung, de uma racionalidade generalizada universal. Isso em um meio
de diversidade tal que os vícios privados redundassem em benefícios públicos
num sistema social de harmonia pré-estabelecida, devido à ruptura na
"margem" ex-colonial que implica pensar a pluralidade radical da
cultura.
O inconsciente vem à tematizar-se junto ao Eu absoluto dos Românticos que
se trata de reler na atualidade, mas já sabendo-se que seu questionamento está
intrinsecamente relacionado à emergência da História como ciência social.
Aqui podemos equacionar sinteticamente o âmago do argumento que interessa a um
contraste suposto legítimo, em vez de impensável segundo as visões tradicionais
sedimentadas desde o Realismo a propósito do Romantismo, da concepção de
inconsciente deste frente ao psicanalítico. Isso, de modo que o que desde Lacan
se tem o hábito de tematizar - o fato de que Freud conhece a termodinâmica de
que Hegel não suspeitava - pode ser minimizado por uma leitura da psicanálise
como uma redução determinista do erotismo e da formação inconsciente que
podemos resgatar dos românticos.
Mas devemos ter em vista que todos os determinismos que desde o Realismo se
revezaram na redução das problematizações de sujeito, história e cultura
oriundas das ciências do espírito românticas, e como recalques destas, podem
ser hoje por sua vez reduzidos a discursos da geo-egologia ocidental. Isto é,
fórmulas da alteridade ou margem (primitivos/passado) que endereçam, ao mesmo
tempo e logo, paralogicamente, a centralidade do Ocidente como
Sujeito da história já desde o Realismo narrativizada pelos sistemas
deterministas em termos de trajetória humana ao progresso moderno-ocidental
(racionalidade). Como vimos inicialmente, os paradigmas que formalizam o
percurso do sujeito da história como centro do desenvolvimento, a partir
da definição do estado do primitivo ou margem, são sucessivos, entre
romantismo, positivismo, funcionalismo e estruturalismos. A razão dessa
sucessão é a mudança do objeto a partir do acúmulo e gênero da pesquisa,
acoplada como tem sido às mudanças do imperialismo desde a independência, a
dominação econômico-industrial inglesa na América Latina, o
neocolonialismo e o pós-guerras, entre o neodesenvolvimentismo, a
descolonização e a globalização. Esses determinismos estão sendo desconstruídos
desde a era pop, ainda que o "recentramento" da
"globalização" como domínio local das empresas multinacionais
acoplada à dominação info-midiática tenha interceptado esse movimento, não
obstante retomado como theory pós-modernista ("ex-cêntrico").
A síntese que enuciei deve ser instaurada pela posição indeslocável à
releitura do Romantismo, do tema dos duplos literários - que se estende em
todos os focos de problematização de época. Como se sabe, o
Outro em Lacan é o que preside a forma pura da identidade entre os dois
pequenos outros, "eu" e "você" em interlocução na fala. O
Outro, portanto, é a Langue, para preservar a oposição
de Saussure. Já no Romantismo, eis porque não podemos reduzir
o duplo literário do seu gênero "fantástico" às
figuras da dualidade características do barroco ou à
comédia antiga como em O Anfitrião: não há unidade transcendente em que a duplicidade
(afirmação da outridade pensável) possa ser convertida em dualismo
(neutralização de um dos termos reduzido a suplemento, pelo caráter do termo
"fundamento"). O espelho não reflete o "ego" e é por
essa deflexão que o ego se descobre produtor de irredutível outridade, o
devir histórico.
Conforme
o meu argumento, o espelho que não reflete o ego mas sim a
sua aparência como outro, é a história enquanto o meio
irredutível a qualquer unidade (já)-pensável, ainda não narrativizada pelos
determinismos sociológicos/antropológicos do realismo em diante. O
gênero dos duplos frustra toda concepção narrativa ao neutralizar a ação - que
não pode ser mais atribuída ao personagem, por onde a questão da
estranheza ou inverossimilhança do gênero não poderia se reduzir à oposição de
Kermode ("Formas de atenção"), em seu estudo sobre as figuras de
dualidade em Shakespeare e no barroco, entre personagem e texto. Por onde essas
figuras que ele tratou como "duplos" seriam o abandono do primeiro em
favor do segundo como uma deriva própria da literatura moderna. Sendo a
opção pelo personagem a da narrativa realista, e a opção pelo texto a dos
experimentalismos modernistas ou preciosismos barrocos, Shakespeare
explora o paradoxo e as antíteses que emparelham gêmeos e duplos como
recursos de uma estética exclusivamente do significante.
Mas
na literatura dos duplos romanticista, a ação neutralizada do personagem,
porque toda ação possível se reverte à impossível atribuição ao duplo que não
se torna porém nunca um personagem na economia anti-narrativa, torna o texto
correlato daquilo que se tratou, por exemplo em Jean Bellemin Noel, como o
irrepresentável.
Entre a história e a literatura está havendo a pioneira partição irredutível -
o que não havia no barroco e nos classicismos. O saber histórico não é
mais o idealizável da arte como narrativa moralizante, que agora se torna
independente como gênero exclusivamente literário. Na história, o pensamento
absoluto - que, como o horizonte formal do pensável, está anterior a toda
representação ou oposição representável - devém (torna-se) não
imediatamente os fatos, mas o interpretável deles enquanto o documentado
referencial de um conceito da pesquisa historiadora. Então o que devém historicamente
são os sistemas interpretáveis das culturas que embasaram as possibilidades dos
fatos enquanto histórico-sociais. Esse simbólico, é Outro num
sentido não identitário-formal, mas inversamente, como o que impede que toda
identidade inter-sistêmica seja fundamentável em-si. Que o "ser" seja
somente linguagem nos colocaria o problema inverso ao resultado sistêmico de
Lacan como a necessidade auto-identitária, ou seja, nos colocaria a fórmula de
Qorpo Santo esclarecendo talvez a de Rimbaud: Hoje (eu) sou um, amanhã (eu) sou outro.
Mas sabemos que não ocorre exatamente assim. O paradoxo romântico é que se é
assim (em si), mas não pode ser assim (para si), é porque não era assim de
fato, em si, e se parecia ser assim é porque havia algo mais não perceptível de
imediato, a saber aquilo em que o em si Se põe a si. Não o elemento puro
da linguagem, mas o elemento alterizante em que há linguagem, a história. Essa
concepção está mais próxima daquelas formulações em psicologia atual, nas quais
se orienta à percepção da decalagem entre o que sentimos ou pensamos ser e o
que produzimos como a visão ou interlocução de nós mesmos pelas demais
pessoas. O ajuste entre a expressão e a intenção ou meramente a impressão pode
se revelar inatingível sem orientação de outros. Na história nós somos captados
pelo que produzimos, mas não somos imediatamente a experiência sensível.
Mas a história é uma espessura não redutível ao que Deleuze, por exemplo,
tratou em termos de devir, tanto mais ela não seja a narrativa épica de
um todo impossível como sócio-evolução. O devir histórico está nesse meio de um
"recebido" problemático, e o dilema entre escolha e maquinismo deve
ser ultrapassado pela inserção dele.
Compreendemos atualmente que uma história de "margem" - isto é, de
marginalização - não pode ser um centramento alternativo, porque ela
depende de se liberar a linguagem em que a realidade local existe e
que é irredutível àquela em que uma história como de margem relativa aos
acontecimentos de sua marginalização pode ser contada, isto é, na linguagem do
saber ocidental. As alternativas anteriores pelo que se tratava da escolha
entre o antes (índio) ou depois (industrialização) do colonialismo, se revelam
ambas faces de uma mesma oposição construída numa linguagem que não é nem a do
antes nem a desse depois que ainda não se fez por não ser possível nessa
linguagem em que só se estrutura o saber da "alteridade" da
margem.
Considero muito sintomático que
Kermode tenha relido a complementaridade de tema e horizonte da estética da
recepção em termos de centro e margem, porquanto isso não é um correlato
necessário daquela teoria, bem inversamente, a atenção está sendo por esse meio
geo-ego-politizada. Porém a centralidade e a marginalidade aí não são funções
relacionais, nem Kermode se refere à geopolítica. Ele só valoriza o centro
da atenção, como o que o comentário na atualidade se contenta ao mesmo tempo
que produz como é, relativamente à periferia da atenção preenchida pelos
textos historicamente disponíveis porém não tocados pelo comentário
daqueles que o hoje selecionou.
Assim a condição da periferia na construção kermodiana é realmente uma
proscrição, e o que impele a atenção em seu movimento centralizador de um
presente histórico, não obstante esse movimento se definir pela seleção dentre
os textos historicamente existentes, aqueles cujas características interessam
hoje, não é produzido por uma interlocução intertextual do presente com
os textos da história eles mesmos. Não percebi uma explicação qualquer do que
seja. Que hoje nós nos interessamos por Shakespeare vem do fato de nos
interessarmos mais pela estética do significante do que pelo realismo do
personagem, e eis porque Shakespeare era tão marginalizado nos tempos do
classicismo erudito, mas não há um movimento histórico-cultural que o
justifique.
Em todo caso, também na estética da recepção trata-se de supor um
mecanismo de identificação, em cuja problematização toda a teoria
contemporânea desde o realismo tem se mantido.
Mas o surpreendente é que dada a conexão com os determinismos como a priori da
geo-ego-política do saber (contemporâneo)-ocidental enquanto Saber do
ocidente, tem se revelado a necessidade sempre mais onipresente de
obliterar o interregno em que as ciências humanas formaram não só o discurso
desse Saber, mas se instituíram como o locus da descoberta do que coage a
pensar anteriormente à fixação do discurso, em termos da alteridade cultural.
Ou seja, tem-se voltado cada vez mais para a época clássica (barroco e
classicismo) como se ali estivesse o paradigma, ao mesmo tempo a superar
e/ou a redescobrir, da "modernidade". Inversamente a disponibilizar o
recentramento, a releitura do Romantismo na inserção do duplo literário
pode viabilizar-se como releitura das humanities, da
história e do saber contemporâneo numa perpectiva não intrínseca ao
"ocidente" - como se o discurso deste pudesse ser auto-demonstrado,
tanto mais quando o que se pretende ao formalizar sua
auto-demonstração seja desconstruir sua dominação. Nessa perspectiva a
estruturação poria o seu outro - a margem de que ela fala e o como dessa
parole.
=======
3
)
O tratado de Gorgias coloca uma questão importante, a do objeto.
A
negação pensável, ou o impensável de qualquer positividade entre o sistema
da linguagem e o devir está sendo tematizada de um modo que,
contrariamente ao que se tornou tradicional como filosofia ocidental,
parece inviabilizar que o Real possa ser atribuível pelo lado da
linguagem. Aqui devemos, pois, não descurar da aparente contradição do tratado
na sua corrente interpretação de iniciar-se por uma negação do
"ser" parmenídico, para logo depois afirmar um ser da sensação
como o que não é apreensível no pensável como no dito. O que se nega é
apenas um ser como o parmenídico, separado do devir.
Há assim algo de inegavelmente Real, a sensação mutável. O que não reside
nessa esfera, não tem conexão com o ser na acepção simples do existir, na letra
do tratado gorgiano. E efetivamente, toda questão do ser em Parmenides pode ser
endereçada como o deslocamento da teminologia da
"arché" (origem) para a do "ser", no âmbito
da investigação pré-socrática, restando a questão de se ambas, ou somente
a segunda mas esta indubitavelmente, são interrogações que implicam a
concepção do Real e questionam a sua relação com a cognoscibilidade e a
enunciação - portanto, no poema de Parmênides pensar e ser estão do lado do
Real, mas a linguagem enganosa que condiciona o mero imaginar, não.
No
entanto, no poema há uma linguagem adequada como do verdadeiro, ao Real, a
que se limita a afirmar e negar. A contradição aqui é do mesmo modo
incontornável, posto que aquilo que afiança a veracidade do logos adequado
é a identidade do ser e a incognoscibilidade, como impossibilidade em si,
do não-ser. Logo, não se pode dizer o não-ser, e no entanto a palavra adequada
afirma o que é e o que não é.
A contradição do tratado poderia ser contornada se em vez de uma negação do ser
em si, fosse uma negação do ser parmenídico enquanto o mesmo que o pensar
e o dizer adequados. Mas então ele nos apresenta essa questão do
objeto, posto que nele não há objeto pensável como o correlato do
julgamento de ser ou não real, mas rigorosamente o objeto da
linguagem também não se pode dizer que há. Pensamento e linguagem não
estão, contudo, sendo negados na sua facticidade. A ortodoxia de Lacan se vê
confrontada pela paradoxia - por assim expressar - da "filosofia"
não-platônica em curso desde a sofística. O correlato do paradoxo, podemos
afirmar que existe como seu objeto? Evidentemente, não. O paradoxo é o que
impede que tenhamos, do que ele diz, uma referência.
É interessante que no pensamento chinês do séc. IV ac. exista o
questionamento do objeto como correlato necessário do pensar e do dizer,
assim como do ser. Podemos acentuar que esse questionamento
está se encaminhando num meio em que o problema lógico
da atribuição também está se efetivando, o que impede
que se mantenha a afirmação tradicional da Grécia como lugar único do
"pensamento racional" na origem, posto que a sistematização do
que posteriormente chamamos a "lógica", é concomitante ao que parece,
ou dista pouco, de Aristóteles a Hui-Tzu e Kung-sun cuja problemática era
expressamente relacionada ao objeto da proposição.
A prevalência do vazio num âmbito mais generalizado do registro que
estamos habituados a chamar "oriental" costuma estar associada a
escolas ou tendências de pensamento contrapostos aos que podem ser
estabelecidos como objetivamente endereçados - seja ao ser das coisas
referenciadas, como entre os lógicos; seja às categorias socialmente
discrimináveis como em Confúcio. A problemática da lei não está circunscrita a
estes últimos. Bem inversamente, neles ela não aparenta ser o problema, e sim o
dado que permite solucionar os conflitos que resultam da não conformidade a ela
ou ao seu desconhecimento por ignorância, numa aproximação bem socrática.
Uma "sofística" é expressamente atribuída a essas
tendências do pensamento chinês, que aqui estou designando
não-objetivistas, por Max Kaltenmark. Mas sua terminologia é
ambígua. A princípio, ele localiza a grande escola rival do
confuncionaismo, até o século III d.c., não no taoísmo, que está vigente desde
o século IV ac. mas que é apresentado como algo paralelo, comum ao ambiente de
especulação e discussões desde a época de Confucio e familiar a este. O período
assim chamado "dos cem filósofos", que com ele se inicia, está registrado
entre 500 ac. e 233.
Após a época dos cem filósofos, a exposição do pensamento chinês volta a
preponderância dos fatos ao período, já na nossa era, do neotaoísmo e do
budismo que foi introduzido na China no século I, enquanto a pregação budista
na Índia origina-se do século VI ac., conforme o situamento de
Kaltnmark. Agora, que se trata de rivalidade ao confucionismo se nota por
isso que o neoconfucionismo desse período irá conduzir à perseguição do budismo
na China, desde a reação desencadeada por Han Yu. A progressiva dominância
política do confucionismo, que se tornou conspícua, só foi abalada no século
XIX da nossa era pelas ideias ocidentais, desde que havia
se convertido numa ortodoxia - efetivamente, uma filosofia oficial
do império - cujo expoente fundador é Tchu Hi, à época dos Song do Sul.
Kaltenmark
situa a rivalidade marcada ao confucionismo, nos tempos dos cem
filósofos, na escola que procede de Mo Ti, cujos preceitos estão
registrados no Mo-tsu, coleção de escritos heterogêneos, incluindo
diálogos em que Mo Ti expõe suas ideias, mas também aforismas e
tratados. Esta é uma escola com forte ênfase na legalidade e na
justiça, ainda que sua base seja a crítica à estreiteza da concepção
confucionista do amor dos pais e da pátria. É interessante que essa forma de
amor seja a que inspira Camões por meio de sua influência maior, o
neoplatonismo renascentista, ao ver de Luis de Souza Rabelo ("Camões e o
sentido de comunidade"). Aqui, o ideário de Ficino é explicitamente
referenciável do seu Convivum Platonis sive de Amore, onde se
exorta ao "amor e estima por Deus e pela pátria", esse dever
abarcando todos os compatriotas, ancestrais ou contemporâneos.
Com efeito, Rabelo ressalta que no quinhentos, em Portugal, o preceito do
amor da pátria encontra-se incluso no quarto mandamento da lei de Deus, o
que referencia "honrar pai e mãe", exemplificando assim a relação da
poética de Camões com as concepções correntes do país à sua época. Essa "tradição
cívica portuguesa" que viria de um humanismo originário em Petrarca,
acrescentando-se de uma "formação teórica muito sólida", desde
as duas posteriores gerações dos humanistas florentinos.
A
esse amor da pátria que o amor dos pais implica por ser ela
mesma "o ninho meu paterno", conforme o verso caminiano,
é o que Mo Tsu chamou o "amor circunstanciado", o Jen dos
confucionistas, para mostrar que se ele é necessário, limitar-se a ele
implicaria o seu contrário. Posto que o amor pelos nossos pais resultaria no
ódio ou no menor amor aos pais dos outros, o mesmo em relação à
pátria. O seu conceito de "amor universal" deveria portar, ao invés,
sobre todos os seres humanos, mas estando baseado num princípio egoísta.
O amor universal é aquele de que resulta o maior bem, e o desejo do
próprio bem é o que move a cada um. O rigorismo de Mo Tsu deriva desse
princípio. Tudo o que é excessivo deve ser evitado: as guerras mas também
instrumentos sofisticados e até as artes.
Ora, Kaltenmark nota que a escola de Mo Tsu, justamente por pretender formar
filósofos que seriam justiceiros na prática, não apenas pensadores
especulativos, exercitava a dialética na acepção de lógica, conforme a
letra de um dos tratados: "O dialético deve fazer aparecer o que separa
o verdadeiro do falso, examinar as razões da ordem e da desordem, explicar o
semelhante e o dissemelhante, investigar as relações entre as palavras e as
realidades, estabelecer a diferença entre o profícuo e o que é nocivo, e assim
desfazer as dúvidas".
É nesse ponto que intervém a ambiguidade, pois transitando à "Escola dos
Nomes" de Huei Che e Kong Suen Long, onde se criticava o conceito de
amor universal de Mo Tsu por considerar-se que era ainda demasiado
restrito por compreender somente os homens quando deveria abarcar todos os
seres, Kaltenmark apõe que desde Mo Tsu, outros pensadores se ocuparam da arte
de discorrer e de problemas de lógica, e "destes sofistas",
mais tarde classificados na Escola dos Nomes, os mais célebres foram os dois
que acima citamos. Aparentemente a antiga sofística chinesa está atribuída
somente a esta Escola, mas pode ser que todos os que se ocupavam da
problemática do discurso estejam referenciáveis assim como Mo
Tsu também pode estar, se ficou ambíguo a que se refere a dêixis. E
posto que o que sabemos dessa Escola é o que está preservado no capítulo
33 do Tchuang-Tsu, o livro número dois do taísmo cujo autor é homônimo do
título, a seguir do Tao Te King de Lao-Tzu.
Kaltenmark sublinha o que aproxima a Escola dos Nomes de Chuang-Tzu, a
concepção de que no que Kaltenmark designa "o todo" , ou "o
universo", as diferenças estão solvidas, a meu ver nesse sentido de
serem indiscerníveis. E os paradoxos perfazem a linguagem comum a ambas as
tendências, para Kaltenmark os mais interessantes citáveis de
Huei Che sendo "análogos aos dos filósofos gregos", tais como aquele
em que Che afirma: "Nada existe que seja exterior ao infinitamente
grande... Nada existe que seja exterior ao infinitamente pequeno.".
Essa posição do
não-discernível é em que se instala a noção de Vazio como a
que usufrui nesse registro, da posição que na metafísica ocidental se
reserva à noção de Ser. O Vazio não é o oposto do Ser como o não-ser, é o
que precisamos pensar anteriormente a toda oposição pensável, precisamente como
o pensar do que é Impensável, do que está anterior a todo pensamento
discriminável.
Vemos, por exemplo, que um dos paradoxos de Huei Che se endereça bem
como um contra-argumento aos de Zenão sobre a impossibilidade
do movimento, pois não se trata de poder discriminar do seu ser ou não
ser: "O vôo de uma flecha lançada rapidamente é feito de tempos em que
ela não está em movimento nem está parada".
É preciso registrar que Kong Suen Long, arrolado na mesma Escola dos Nomes, na
verdade professava um meio oposto ao da evidenciação da solvência do atribuível
no vazio, o "uno" que no entanto devemos pensar não por qualquer
oposição ao múltiplo, como também se denota no tao te king. Long posiciona a
questão filosófica como sendo a nomeação, e em vez de solvência paradoxal do
atribuível, trata-se de restringir ao máximo a atribuição, por onde chega-se à
problematização do seu elementar: "cavalo branco" não é
"cavalo", e a correspondência é uma definição mínima. Contudo,
aqui há a limitação das fontes, pois não é possível saber se esse meio pode ser
interpretado como alternativo em relação a um princípio comum ao de Huei Che
como a independência do "todo", por assim expressar, ou inversamente,
como uma recusa desse nível à especulação. Novamente temos uma ambiguidade no
tratamento de Kaltenmark, pois se ele começou por inserir a Escola dos
Nomes na sofística chinesa, ou relacionar a esta
exclusivamente com a Escola, agora observa que também não podemos
saber se essa problémática da atribuição em Long implica apenas parte de
uma obra Lógica.
Em
todo caso, essa posição do Vazio é o que também nomeia a
"equipossibilidade" de Schelling. Mas se ele se utilizou desse
conceito para criticar o Ser em que Hegel instalou a primeiridade do pensar na
Lógica, porquanto o ser já seria um oposto do não-ser, e em vez
de corresponder a um início sem nada de prévio, na verdade subentende
por isso a concepção de número ("primeiro"), podemos notar que na dialética
de Hegel o que está primeiro como ser ou tese, é um engano, um equívoco ou uma
estranheza, posto que se trata da impressão sensível provinda de uma situação
que não é a do ser em si assim pensável como predicável, mas a da extrusão.
O estar em outro da condição subjetiva frente a um mundo ou um real
inevitavelmente apreendido pelo sujeito como outro, onde ele, o
sujeito está como um outro, no estranho.
Tudo está no estranho, nesse nível tético que é o da nossa extrusão, nosso
auto-apreender ingênuo do mundo como outro, ou seja, também o mundo está no
estranho, também o mundo não é a imediatez do ser para si, a condição do
sujeito em que há identidade posta por um Soi.
O paradoxo do pós-kantismo está assim instalado, quer se interprete Hegel como
tendo, inversamente a Schelling, suposto duas ordens de estranheza quando na
verdade só há uma, a do Impensável em si, ou apenas mostrado em que a
duplicidade é instaurada já pela estranheza ela mesma como
esse Impensável. Em Schelling a duplicidade não é menos posta. Assim como
a imagem do espelho e o por ela refletido, o objeto pensável é a reflexão do
sistema num pensamento para o qual o sistema é um momento, e, assim,
transcendental não aos objetos mas aos sistemas.
O paradoxo da alteridade é assim conceituado como a gênese do pensar no
pensamento, mas expresso como a crítica dos pós-kantianos ao kantismo.
O criticismo de Kant erigiu-se em sistema, mas só o que poderia ser feito
era a evidência da falácia de "um"-qualquer sistema
instalado como posição originária de alguma crítica. Pois, assim reza o
argumento de Schelling, essa posição não pode abranger a sua própria instalação
ou posicionalidade em termos de existência ou tese existencial além de si mesma
para si mesma. A existência é incoativa a toda tese de existência, e nesse
sentido "puro" a filosofia é insolúvel. Mas ela é solúvel no sentido
"prático", não porque o ser está subentendido em toda afirmação, e
sim porque algo é posto por/para aquele que põe, nessa circunscrição do
posicionado acima da qual não há posição possível, tudo é equipossível, o
ser como o não-ser são afirmáveis e/ou negáveis, etc.
O que me parece importante quanto ao nível de instalação do pensamento, o Vazio
ou Equipossível como o de uma autêntica Crítica da razão, portanto não a já
objetivista ou objetivada crítica de Kant, é justamente que nesse nível o
que está se propondo ao pensamento é a impossibilidade de pensá-lo como
destinação ao objeto. Podemos designar aristotelismo ao nominalismo ocidental,
por exemplo o de Okham, porque mesmo que se diga que o objeto só existe na
linguagem, essa objetivação preserva a ontologia do Ser, pois o que existe na
linguagem é universal. Essa a inserção da psicanálise lacaniana.
Não é possível que o universal conjure o Ser, ainda que o instale na linguagem.
Pois assim fazendo, ele está destinando o pensamento. Mas o que Lacan supõe ser
a novidade da psicanálise é que nela não se trata de ser, nem de objeto, sem
tratar-se originariamente de pensamento e de sujeito. Ora, como vimos, não é
necessário, mas tampouco é demonstrável o a priori do Sujeito como correlato do
Objeto ou da objetivação. Que isso é demonstrável, que não se poderia pensar
senão demonstrando-o, é inversamente a premissa em que me parece estar instalado
a argumentação de Lacan, mas também o inteiro pós-estruturalismo. Seria o caso
de se perguntar que é que ocorreu - para haver uma contraposição assim - se a
inserção histórica de Lacan ao pós-estruturalismo é a contemporaneidade cuja
ruptura enquanto o locus da inserção do Sujeito ao pensar, vem a ser o
Romantismo.
Não
ignoramos a influência do pensamento oriental no desencadeamento da cena
"pop" e "pós"-moderna. É interessante como em Lacan se
referencie o aristotelismo junto a Mêncius, que na tradição confuciana lhe
permite posicionar o universal como função do falo Significante,
portanto absolutamente indeslocável do Logos, como o Zen. Ou
podemos notar como Deleuze aproxima Zen e estoicismo, pela função do
paradoxo.
A
propósito de Lacan, não creio que haja dúvidas não obstante a
dispersão das citações, a propósito da sua inserção na tradição ocidental
aristotélica do universal (onto)-lógico. Quanto a Deleuze, é preciso
obstar que as formas sob as quais ele reuniu sua interpretação do Zen ao
conceito ocidental, na verdade permanecem aquém da crítica dos
pós-kantianos. Seja a essência neutra, e por esse meio a noção de
heceidade. A neutralidade da essência em relação ao predicado da existência,
não deixa de ser uma relação do conceito ao objeto. Mas vejamos a
heceidade, que permitiria à essência ser conceituada como uma variação
contínua em vez de um objeto significado "x". A essência neutra
do animal, é somente o gênero, não ainda a diferença específica. Não
há, obviamente, um correlato concreto no sentido da materialidade, quanto a
esse animal genérico.
Mas o que é a variação, a heceidade em que se resolve esse difícil
correlato mental, a essência "animal"? O devir
deleuziano implica ser variamente esse e aquele, e aquele outro animal,
etc. Mas cada um deles, no sentido lacaniano que critica o singular
absoluto como o que seria o impossível pensamento sem o significante,
ou seja, cada um desses animais pensáveis é um universal específico, não
a enumeração infinita de cada indivíduo.
Assim, a heceidade em Deleuze, retomada de Duns Scottus. O pensamento não
atinge, não apreende o por do que ele põe. Não problematiza
esse por, uma vez que fez previamente a crítica dessa problematização
subsumindo-a à questão Husserl-fenomenológica do ego transcendental, da
apoditicidade, etc., que por esse outro lado vão conduzir, não obstante, ao
mesmo limite do posto - objeto x, conceito universal.
Na consideração do que
ocorre na contemporaneidade de modo a precipitar uma transformação
tal que do pós-kantismo o que resulta é um
retorno ao esquematismo transcendental, ainda que seja a
Subjetividade o dado a pensar desde o início, o que ressalta como o mais
importante - dado que a profusão de motivos que podem se considerar
decisivos é incontornável - parece-me consistir nessa persistência do que
percorre o campo, o Sujeito. O que o torna pensável, ou o que insere em seu
elemento ("para si") o pensamento, é a indagação que pode então
enfeixar as variáveis do problema da contemporaneidade como o que
historicamente a desencadeia. A questão subjacente se torna o que desse fator
comum se desdobra como a máxima irredutibilidade histórica no vir a ser desse
pensar.
4
Eu
gostaria de endereçar as considerações que se seguem na chave da proposição
pela qual a dialética romântica seria uma inserção antitética à composição
sistêmica que vem sendo a mais constante na atualidade, por isso que
inversamente ao que se costuma interpretar, baseia-se numa premissa oposta à
que lastreia o que até pode iniciar-se como um ultra-racionalismo. A
premissa dialética é oposta assim à asserção de que o Real é um caso do
possível.
Pois, como se poderia argumentar, nada há fora do Real, mas o possível não
sabemos se existe de um modo que ultrapasse a sua inserção discursiva
como modalidade lógica.
Uma
vez na proximidade dessa problemática, institui-se a questão importante da
transformação que impele o Romantismo. Vinda de uma impossibilidade dada como
tal, a história como ciência nele se afirma a inserção própria do pós-kantismo
e da ambiência das rupturas epistêmicas em que este se insere, das quais surgem
as ciências do espírito que hoje designamos "ciências humanas", tanto
na acepção de terem surgido como estudos autônomos com métodos próprios,
quando na acepção mais importante, de terem posto a questão e exigido o
estatuto de uma especificidade em relação às ciências naturais.
O
que impele uma transformação assim? Aparentemente, a questão tem por
suporte a estrutura da objetividade. Algo nessa estrutura foi afetado ou
mudou em termos do que define o objeto científico, até então
restrito ao expresso na linguagem matemática e agora podendo abarcar
os fatos da expêriência humana. Esses fatos, até aí, eram do domínio
do irracional, não por serem humanos, mas por não serem restritos ao que
no ser humano o definiria em si, na concepção clássica, a
racionalidade lógico-matemática, ou seja, tudo o que não
desborda o requisito de ser idêntico e imutável,
de restar independente do devir. Humano: não ser duplo ou cindido,
mas ser dúbio ou provisório, entre o ser/intelecto/eternidade ideal e
o não-ser/materialidade/devir passional.
Como
já vimos, não se pode afirmar apenas que o fato correlato da experiência
tornou-se identificado com um significado objetivo, enquanto fato portanto
"verdadeiro", pois se houve a exigência epistemológica da
autonomia das humanities, elas não foram a princípio consideradas como
posteriormente, no positivismo desde Comte, extensões temáticas conquistadas
pela aplicação do método das ciências naturais. Na verdade, a história como
ciência já estava sendo proposta no ambiente aufklarung nessa acepção de ser
uma reconstituição de fatos objetivamente ocorridos, mas justamente não foi
assim que a história atravessou o limiar epistemológico que fez dela uma
ciência social.
Poder-se-ia perseverar na
hipótese do objeto. No entanto, a questão de que "objetualidade" foi
conceituada como restrita às ciências do espírito recebe resposta vaga se nos
acercarmos da oposição já não imediatamente de Hegel, entre ciências da
natureza e do espírito,mas de Coleridge entre o "reasoning" das
ciências da natureza e o "understanding" das humanities. Ou mais
oportunamente ainda, da hermenêutica de Schleiermacher. O que se tematiza são
processos, não "fatos". Ainda não se reduziu a tematização a
determinismos tais como o ethos evolutivo de Comte ou a produção dissimétrica
de Marx. Por outro lado, ainda não se produziu a cisão interposta pelo Realismo
e que até hoje resta insuperada, entre a psicologia e a cultura ou
sociologia. Justamente na imanência do Romantismo ainda não há esta
última, que só emerge a partir de Comte, redefinindo o quadro da episteme
romântica e nessa redefinição podemos inserir estruturalmente a
economia política de Marx.
Em Schleiermacher e W. Schlegel, o referencial do termo
"romantismo" esclarece bem do que se trata pelo significado da
miscigenação concretizada como processo linguístico (derivação neolatina dos
"romanços" como proto-línguas nacionais, mistura do bárbaro local e
do latim).
Assim, a meu ver, seria mais conveniente não tratar o problema da transformação
- que designo a ruptura genética da "modernidade"
(contemporaneidade) - imediatamente em termos de uma transformação do objeto,
mas da concepção do Real. O devir tornou-se pensável, não como o que pode/deve
ser reduzido ao Ser, isto é, não no estatuto do Suplemento.
Por isso o Real não é caso do possível. O Real é histórico, quando se trata do
homem e da sociedade, é evolutivo quando se trata da natureza. A historicidade
implica a impossibilidade, não da Repetição, mas desta como uma
"mesmidade". Trata-se já desde aí, do Eterno Retorno do dessemelhante
ou do âmbito histórico como instalação do Real em termos da
dessemelhança. Jogamos aqui com a duplicidade da história, entre os seus
dois significados irredutíveis, a ciência ou o exercício hermenêutico que já
impede que ela seja confundida com a memória; e a efetividade em si do que
meramente ocorre.
O que se inicia como um processo discernível historicamente em sentido
científico, não é necessariamente um discernimento intelectivo lá no em si da
sua efetividade. Neste, está o heterogêneo, o múltiplo, o que ainda não foi
pensado mas coage à ação.
As polêmicas que Lacan endereçou a Piaget tem aqui uma ressonância, pois com
todas as suas ingenuidades tal como consideras por Lacan, Piaget colocou um
problema importante à pesquisa da inteligência, primeiro ao aproximar-se
expressamente da noção marxista de "inteligência prática", mas depois
ao estabelecer o seu problema - psicológico e epistemológico - na defasagem
impreenchível por qualquer a priori, entre a prática e a representação. Lacan
motejou continuamente a Piaget, e o problema aqui é admitir que exista um
conteúdo da representação puramente epistêmico, independente do significado
relativo ao processo inconsciente, digamos, afetivo na linguagem de Piaget.
Mas de fato, pode não ser essa uma questão relevante para a posição
deste. As relações do que chamou inconsciente cognitivo podem ser estudadas
independentemente do inconsciente afetivo ou psicanalítico, mas para Piaget,
entre eles há categorias comuns como por exemplo a do recalque. Que dependência
se pode estabelecer entre eles restava na sua concepão, um problema não ainda
resolvido naquela altura das pesquisas. Lacan pensa que Piaget estava mesmo
embaraçado pela constatação de que a criança que aprende uma explicação sua a
propósito das relações entre a válvula manejável da torneira, os estados de
liberação ou contenção da água e a retenção afirmável ou não de água pela
bacia, ao dever por sua vez explicar a outra criança não o consegue sem omitir
ou distorcer as informações principais.
Isso é o que deveríamos exatamente esperar, do mesmo modo que a criança que
sabe percorrer o trajeto da escola, não sabe representar o trajeto num
mapa.
Deleuze objetou a isso, de algum modo, ao afirmar que as crianças
"mapeiam". Ou seja, que elas não só fazem desenhos de seus trajetos
que para elas são significativos destes, quanto que produzir esses
desenhos ou cartografar por algum meio é essencial ao seu desenvolvimento
psíquico. Mas a questão de Piaget não é de modo algum que as crianças não
possuem uma linguagem, uma vez que a delas não funciona como a nossa.
Inversamente, ele trata a irredutibilidade da linguagem delas, supondo que é
uma linguagem tão completa em si mesma quanto a nossa, só que impossibilitando
as mesmas performances e implicando outras performances bem identificáveis
se compreendemos a sua estruturação.
Sem pretender reduzir o múltiplo ao uno, o social ao individual, vemos que a
autonomia das ciências sociais como a história só nos coloca frente a
realidades que na sua junção a algum conceito antropológico, para favorecer a
concepção de uma independência do nível prático em se tratando da
inteligibilidade do fenômeno para si. Mas isso está se colocando por
sua vez, ainda sem termos confrontado o problema da relação ou Real
que habitualmente se trata reduzindo ao problema da objetualidade numa
conexão com o inconsciente.
Se juntarmos esses enfoques, vemos que indagar historicamente de
um fenômeno pode implicar modos de conceber que escapam à
alternativa de Lacan entre a enumeração meramente extensional e
o universal, sendo sua suposição a de que sem o androcentrismo a
priorístico, nunca se transitaria daquele a este, ou seja, se houvesse um
matriarcado efetivo, nunca haveria "a" mulher, mas sempre cada
uma contada por cabeça, enquanto haver "o" homem é o requisito
de podermos pensar qualquer universal por Repetição desse uno original.
Não é a mesma alternativa que, não obstante, foi repensada numa chave positiva
do múltiplo extensional, quando Deleuze-Guattari indagam no seu título que
devemos grifar - "um só ou vários lobos"?
Colocando a problemática da democracia grega em que se insere o exercício
efetivo da sofística, a questão que se apresenta emblemática é a
que corresponde ao sentido de "cidadania".
Não devemos, contudo, situar a questão nos limites etimológicos ou sistêmicos
de forma que a palavra esteja medida entre o consenso e o conflito por um
lado; e pressupondo uma pragmática patronímica de que se
deriva a semântica sempre na prática ambígua, do que é ou não
"grego" (ateniense), por outro lado.
Pois assim procedendo, estaríamos misturando contextos. A problemática de que
provem a democracia grega não pressupõe a decisão sobre o que é ou não grego,
mas sim a luta de classes de que ela é uma solução junto com a proibição da
escravidão por dívidas e a isonomia. A repartição de propriedades territoriais
que deveria solver as desigualdades pela inserção da cidadania poderia parecer
já estar dependendo da questão patronímica, mas na verdade essa repartição não
atende senão o conflito cujos sujeitos não põe a dúvida de sua pertença
territorial.
Além disso, a proximidade da guerra persa, ao que parece, contribuiu para que
permanecesse obscura, já que solicitava-se nessas circunstâncias, o aumento
demográfico, o intercurso com cidadãs não-atenienses. É só quando já está
consolidado o assim chamado imperialismo ateniense que a questão patronímica,
não do "grego" mas da Cidade-Estado, se torna aguda, mas sua
eclosão é sentida no âmbito do direito privado. A comprovação da autenticidade
de nascimento de pai e mãe atenienses é um meio de deslegitimar outrem
"miscigenado" por ser a mãe de outra Cidade-Estado
grega, ou promover oposição pessoal, obviamente perseguindo-se vantagens
determinadas, aos progenitores de semelhante prole.
Creio que em vez da oposição consenso-conflito, em que a cidadania iria se
articular como uma concepção unitária do múltiplo (consenso uno dos
cidadãos múltiplos) a cada vez que se trata de uma lei ou sempre que se trata
de decisão sobre a identidade "grega"/"ateniense", seria
mais oportuno inserir a questão do sentido de "cidadania" democrática
antiga, isto é, em Atenas (séc. V ac.), focalizando o testemunho que
Rostovtzeff registra:"Um conservador ateniense desse século
observa, com razão, que é impossível distinguir escravos e estrangeiros dos
cidadãos nas ruas e praças porque todas as classes vestem-se do mesmo modo e
vivem de maneira idêntica".
Aqui encontra-se, assim como na ruptura romântica, uma transformação na concepção
de realidade, mas desta vez expressando-se imediatamente como política, e é
desta que podemos endereçar a transformação cultural e epistemológica em que se
insere a sofística. Enquanto no Romantismo, inversamente, começando pela
transformação epistemológica somos conduzidos às não menos importantes
inovações na concepção política.
Entre ambos, contudo, Atenas democrática e a Europa do Romantismo, trata-se do
mesmo fator proeminente, a irrupção do heterogêneo, como podemos ver pelo fato
de que pelo registro de Rostovtzeff, não se poderia supor que houve
solvência das classes, que a cidadania antiga implicasse uma unidade na
concepção do social. Inversamente, que a cidadania seja algo independente
da heterogeneidade de classe e status, no sentido de que a esta não reduz
a uma unidade hieraquizando-as de modo
que haja alguma concentrando a referencialidade da
cidania "real", é o que exaspera o conservador.
É de se notar inclusive que Rostovteff está inserindo nessa noção de "classes"
expressamente também a dos escravos - isto é, a "cidadania"
não é um atributo que possa recobrir na prática o patronímico. Ao menos no
território ateniense, os escravos são "empregados no comércio
e na manufatura", que estando em igualdade de condições que o resto da
população, muitas vezes "progrediram sozinhos como hábeis homens
de negócio e eventualmente receberam sua liberdade".
Ou seja, historicamente podemos antepor que o conflito em que foram tomados os
campesinos frente ao confronto da classe ressurgida dos comerciantes com a
nobreza que havia concentrado o poder, no interregno da re-estabilização a
partir das invasões dóricas, é aquilo de que, bem mais tarde, quando o conflito
está acomodado pelo novo quadro sócio-político, vai permitir aos gregos e
atenienses pensar e expressar o problema do patronímico e da pertença,
inclusive porque a acomodação já trouxe novos elementos (escravos,
estrangeiros), subsequentes ao estado endógeno do conflito originário com
a nobreza. Não foi inicialmente uma questão terminológica, nem conceitual.
É nessa proposição que devemos desenvolver mais minuciosamente a inserção do
heterogêneo nas expressões do pensamento grego antigo e romântico.
§§§
O que implica essa tarefa? Em outros termos, por que parece tão
transgressivo imbricar uma sociologia da sofística na rubrica das
"sociedades igualitárias" em antropologia social? Sobretudo,
porque não se o faz, mesmo quando se trata de manter a sofística aprisionada
numa das imagens detratoras geradas historicamente como desdobramentos da
metafísica? Parece-me que a resposta roça a problemática do Saber. As
sociedades igualitárias da antropologia social são supostas
"simples" ou primitivas e mesmo que isso não seja diretamente
tematizado por vezes, subentende-se que elas são sociedades sem produção
autônoma de Saber. Esse consenso é comum ao estruturalismo e ao funcionalismo.
Malinowski o representa muito bem, escrevendo sobre a coincidência feliz entre
o simbolismo de Ogden e Richards e sua própria concepção de linguagem
primitiva. Esse registro de Malinowski, que Ogden e Richards anexaram no seu
"The meaning of the meaning", é uma pérola da ambiguidade
ocidental. A linguagem primitiva é a originária, ela então deve ser o
referencial dos estudos de filosofia da linguagem.
Mas após páginas dessa espécie de elogio misturado com a sedimentação do
princípio antropológico da autonomia do funcionamento linguístico primitivo,
pelo que de modo algum a linguagem originariamente é um meio de transmissão do
pensamento, mas apenas parte de uma situação concreta de atos grupais, o homem
primitivo é apresentado como "semi-animal" em sua satisfação
ou insatisfação. E a sociedade primitiva é uma em que toda a linguagem, sendo
originariamente situada, limita-se a esse situamento. Quando as pessoas se
reunem após o meio do situamento por excelência, que é o trabalho grupal,
Malinowski só registra de sua conversa "frivolidades de preferência ou
aversão, relatos de acontecimentos irrelevantes, lugares-comuns, comentários
sobre o que é perfeitamente óbvio", ou seja, só há aí "tagarelar".
Isso é o que se deveria esperar. Se não há situação concreta como
solicitação de ação pelo meio, nesse momento de comunhão e descanso, que
conteúdo poderia ser abstraído pelo observador, das palavras trocadas? Ainda
assim, podemos ver que há ação, não significado transmitido. É a mera ação de
estar-se juntos em sociedade, desfrutando da companhia uns dos outros.
Ora, se as próprias "categorias derivadas do uso primitivo também serão
idênticas em todas as linguagem humanas, apesar de muitas diversidades
superficiais", torna-se claro haver aí um problema, o da produção do
texto antropológico em que obviamente há retorno dos modos reflexivos e
cognitivos do comportamento, que haviam sido banidos dos modos ativos em que a
fala humana havia sido inserida substitutivamente a eles. Malinowski
resolve essa questão sem ruptura do novo sobre o originário. O Saber, que nesse
texto está associado às noções de observação, reflexão e cognição, é
simplesmente derivado da magia, a qual consta nas sociedades primitivas
como uma especialização do uso da palavra "em ação". Ele
chega a uma teoria dos "três usos fundamentais da linguagem:
ativo, narrativo e ritual" , neste terceiro compreendendo-se a
magia e quanto ao narrativo trata-se de uma adaptação posterior da ação num
meio igualmente ativo, assim como o exemplo destacado de um relato aborígine a
propósito de uma expedição de canoas que nessa cultura sempre contem algo de "jactância"
(sic) competitiva que a transforma numa corrida.
A leitura desse relato mostra o quanto ele pareceria enigmático ao ocidental
por não conter fatores que transformam a ação concreta num conceito separável.
O frescor das circunstâncias em que se envolvem os atores permanece na forma
dos seus verbos e descrições situadas: por exemplo, não se fala "a canoa
que estava atrás", mas sim "madeira-atrás" contrastada com
"madeira-frente", e se é o narrador do caso que estava à frente, ele
não aduz complementos "nós navegamos na canoa da frente", mas apenas
há dois sintagmas "corremos", "madeira-frente".
Assim, pelo princípio etnográfico da linguagem originária como sendo a do homem
em ação, compreende-se porque "revertendo ao significado de palavras
isoladas, o uso da metáfora, os primórdios da abstração, da generalização e uma
imprecião associada à expressão extremamente concreta", as linguagens
primitivas "frustram qualquer tentativa de tradução simples e
direta". Elas não podem ser "arrancadas de qualquer contexto
de situação" como não só podem como só o podem os registros sobre que
o ocidente antes do trabalho de campo antropológico conheciam, o das línguas
mortas dos documentos do passado ocidental.
A
magia ou ritual, contudo, se continua sendo uma linguagem viva, "falada
in fluxu" - e assim comprovando-se a premissa de Malinowski de
que "a perspectiva do Etnógrafo é a pertinente e real para a formação
das concepções linguísticas fundamentais e para o estudo da vida das linguagens
ao passo que a do Filólogo é fictícia e irrelevante" - continua também
a coibir uma independência do Significado vigente autônomo. Agora fala-se da "atitude
primitiva, mágica, em relação às palavras" que poderíamos divisar
igualmente na atitude infantil em relação a elas.
O salto entre a palavra em ação e uma atitude conceituável sobre a
palavra está nesse texto interposto por uma questão, a de que não obstante não
haver correlato reflexivo ou cognitivo fora de situação na linguagem primitiva,
sabemos que esses povos produzem "textos fixos", à exemplo de
canções, provérbios, tanto quanto mitos e lendas ou fórmulas rituais. O
surpreendente é que lançar mão do ritual como a estratégia de Malinowski, bem
obviamente faz a questão permanecer no que tange ao conteúdo cognitivo que é
expresso no provérbio. Nada se falará sobre isso, a partir daí, mas vai se
proceder como se tudo o que foi arrolado nessa frase como exemplo de
textos fixos estivesse do mesmo modo explicável uma vez que se compreenda
que se o falante da sociedade primitiva é o homem em ação, sua concepção da
palavra é mágica e ritualística - subentende-se que não há cognição no fato de
ter-se uma concepção, posto que essa concepção implica somente a imaginação de
ações reais ainda que por exclusivo meio da palavra. E eis de onde veio,
por desdobramento, o significado isolável do Saber ocidental.
Assim o triângulo de Ogden e Richards (símbolo, pensamento ou referência,
referente) é adaptado por Malinowski para revelar seu desenvolvimento na
formação psíquica desde a infância e/ou desde os primitivos: primeira
e segunda fases em que há só a base (símbolo, referente), mas transitando dessa
relação apenas como reação ao som ligada à situação, para o som ativo
correlacionado ao referente. Então ocorre a fase da fala em
ação, com a formação do ato de figuração (pensamento ou referência) na ponta do
triângulo, interposta a partir da transformação da relação som/referente em
símbolo usado para manipular o referente. Nessa fase há um desdobramento,
pois o ato de figuração implica tanto uma relação indireta de símbolo e
referente (linguagem da magia ritual), quanto uma relação misticamente
pressuposta entre ambos (ato ritual, baseado em crença tradicional).
O funcionalismo tem adaptado
essa ambiguidade, sofisticando-se. Em Beattie, por exemplo, a magia já se
apresenta como algo por natureza autônomo em relação à qualquer conceituação
válida de ciência, pois naquela o ato é simbólico nesse sentido de que ele vale
pelo que ele faz, não pode ser reduzido a um meio para atingir-se um objetivo.
Os malinowskianos poderiam objetar, contudo, que a ciência não é diretamente
uma adaptação da magia, e sim que enquanto ocidental ela está após a metafísica
- como se pode ver pelo fato de que, inversamente à metafísica, ela faz a
crítica do sigificado. Foi a metafísica como crença no significado que se
reduziu, pela evidência etnográfica, a mera refuncionalização da magia.
Mas tanto no de Beattie, quanto no manual de Willems ("Antropologia
social") não há qualquer rubrica reservada à questão do saber nas
sociedades estudadas que compreendem apenas organização econômica, família e
parentesco, organização política (Willems), o que é um mapeamento validamente
correspondente aos capítulos de Beattie. Assim podemos lidar com a noção epistemológica
da unidade metodológica do funcionalismo, bem como de uma sua unidade de visão
a propósito do sentido da divisão social entre primitivos e civilizados.
Já uma generalização da influência da sociologia compreensiva com seu conceito
de "sociedade tradicional" basicamente oponível à modernidade
ocidental induziu a despropósitos tais como se encontra em textos - como na
revista da Unesco sobre sociedades tradicionais - para os quais o
procedimento ordálico é uma "forma natural" de julgamento. Se nesses
ambientes o saber dessas sociedades cujo tradicionalismo foi traduzido como
naturalismo, exatamente como vimos para todos os funcionalistas, já é algo a se
destacar, informando-se por exemplo, inversamente a Câmara Cascudo para os
índios brasileiros, que eles tem amplo conhecimento de plantas medicinais.
Mas é claro que não se trata desse saber como uma questão - a de
sua estruturação.
Mas
o estruturalismo psicanalítico não ultrapassou os limites do etnocentrismo,
como se pode ver pela correlação lacaniana entre o Couvade e a gravidez
histérica estudada por Eissler, aliás nisso antecipando o que parece novidade
no Mille Plateaux ("sobre alguns regimes de signos"). Até seria de se
notar que nesse texto de Guattari-Deleuze ainda se lida com o delírio paranóico
por meio do conceito de Clereambault - "desenvolvimento em
rendilhado (en réseau) sobre um contínuo amorfo, uma atmosfera deslizante onde o
menor incidente pode ser preso" na expressão do Mille Plateaux, a
partir de "um começo insidioso como centro oculto testemunhando
forças endógenas ao redor de uma ideia".
Lacan
critica essa concepção no seminário sobre "As psicoses (1955/56)",
porque o importante não seria ser o fenômeno "um núcleo inicial, um
ponto parasitário, como Clérambault se exprimia, no interior da personalidade,
em torno do qual o sujeito faria uma construção, uma reação fibrosa
destinado a enquistá-lo envolvendo-o, isto é, explicá-lo como dizem
frequentemente". O delírio em Lacan é fenômeno elementar, não
deduzido, mas reproduzindo a sua força constituinte:" a noção
elemento não deve ser tomada aí de modo diferente de estrutura, estrutura
diferenciada, irredutível a outra coisa que não ela mesma".
Não obstante, o Mille Plateaux está nesse ponto produzindo uma história do
saber da doença mental no Ocidente, desde o nascimento da psiquiatria até a
estabilização da psicanálise, e é por isso que o importante não é só o delírio
paranóico descrito, mas também o que se descreve fazendo intervir
Sérieux e Capgras descrevendo-o como sendo produzido por um postulado
ou fórmula concisa como ponto inicial de uma série linear, de um processo que
se desenvolve até o ponto inicial de um outro processo. Este é o delírio de
emoção mais que de ideia, e de esforço ou ação mais que de imaginação
Assim, a meu ver eles estão se opondo à História da Loucura de Foucault, pois a
psiquiatria não surge de uma ocupação outrora desempenhada por outros meios - o
penal na época clássica, por exemplo - a qual consistiria em asilar
o irracional protegendo assim a sociedade. Ela surge quando se produz um objeto
autônomo. Os dois delírios recobrem a duplicidade do ser louco mas não parecer,
como de um piromaníaco; e do parecer mas não ser, nesse sentido do
presidente Schreber que não é louco, segundo o Mille Plateux, por
que a par dos sua "paranóia irradiante", pode continuar a
gerir sua fortuna.
Só ter descoberto o ser sem parecer, tendo-se dado a competência única não do
explicar, mas já do meramente dar por existente, é o que demarca o nascimento
de disciplinas concernentes à doença mental: "Logo, a psiquiatria
não se constituiu de forma alguma por relação a um conceito de loucura, nem
mesmo com um reposicionamento (remaniement) desse conceito, mas antes com sua
dissolução em duas direções opostas", a destes dois delírios que
também são o ponto de partida da psicanálise, e que os autores do Mille
Plateaux aventam como hipótese de uma auto-concepção do homem: "e não é
nossa dupla imagem generalizada (à tous) que a psiquiatria nos revela
assim, ora tendo o ar de louco sem o ser, ora sendo-se sem ter esse ar"?
Mas logo esses delírios vão ser reduzidos como práticas sociais produzidas pela
psicanálise: internar o monomaníaco que é louco mas não parece porque eles são
revolucionários como os das classes trabalhadoras e o
campesinato, mas deixar livre os paranoicos como o presidente Schreber porque o
seu é um delírio burgues.
Ora, a novidade pretensa do texto é mais do que isso, mostrar
que esses delírios correspondem a regimes de signos relacionáveis a
regimes políticos que definiriam - antropologicamente, a meu ver - povos
históricos como os cristãos ocidentais e os antigos judeus:
respectivamente um delírio/regime de signos despótico, significante e
paranoico; e um autoritário, pós-significante subjetivo ou passional. Em
geral: uma ramificação rendilhada desde um ponto que a tudo captura; e uma série
de processos que se alternam infinitamente. Não obstante as reservas
contra-psicanalíticas, isso corresponde ao mesmo modo pelo que vimos
Lacan definir como um mesmo operante uma prática antropológica do Couvade entre
aborígines brasileiros, e uma neurose catalogada na psiquiatria.
Mas o que é importante notar é o modo como nesse ponto Lacan desfaz qualquer
pretensão de uma explicação funcionalista, que iria justificar o Couvade pela
circunstância da ignorância do papel biológico do homem na procriação. Não é
que eles - os primitivos aborígines - ainda não sabem, é que eles não querem
saber.
É
por isso que se pode falar aqui de normalidade. Se em vez dessa neurose ou
dessa limitação estrutural ao saber, porque é o imaginário do pai que está sendo
forçado a se desenvolver pelo simbólico, tivéssemos o simbólico do pai sendo
forçado a se desenvolver pelo imaginário, então teríamos uma aptidão automática
ao Saber. O discurso do mestre da antiga metafísica não é ridicularizado por
Lacan, sem ser antes posto como pré-condição ao vazio de discurso operante do
psicanalista na modernidade. E vem assim a leitura lacaniana do caso Schreber:
nem a anormalidade do imaginário pelo simbólico, nem a
normalidade sub-desenvolvida do simbólico pelo imaginário, Schreber
delira diretamente a função biológica do pai. Os seus "homenzinhos"
schereberianos do futuro são, para Lacan, os espermatozoides. Um delírio do
saber, posto que não mediado pela formação do simbólico.
Posiciona-se assim na circunscrição da psicanálise de Lacan os três domínios
antropológicos bem especificáveis. O primitivo, onde a análise do Couvade
permite a meu ver afirmar que nele o ritual como imperativo
social está cobrindo o campo potencial do saber. O das sociedades capazes
de produzir as velhas metafísicas, por onde a exemplificação de Lacan é
Mencius, no seminário de 1971 (de um discurso que não fosse semblante). E o
científico-psicanalítico da sociedade moderno-ocidental, que como saber do
significante explica os outros dois como formas de fixação imaginária do
significante, ainda que o discurso do mestre (metafísica) corresponda já a um
descentramento no imaginário tal que um saber destacado vem a ser desejado
- como vimos também corresponder à leitura lacaniana do advento de
Sócrates.
Em todo caso, não há necessidade de um outro inconsciente em relação ao
psicanalítico, isto é, não há a hipótese do "matriarcado".
Assim a crítica que na atualidade, quando tem se tratado do
importante contraste dos pós-estruturalistas a Lacan, tem sido
habitualmente manejada contra aqueles. Lacan permaneceria mais correto, porque
a suposição do significante despótico a que eles objetaram na verdade ignora a
relação entre significante e função do saber que em vez de encerrar no
despotismo, inversamente é o que permite fazer a sua ultrapassagem. Após os
anos noventa, a balança tem pendido decisivamente para Lacan, ao menos no
âmbito das publicações em nosso país.
Mas o desenvolvimento historicamente pós-psicanalítico já estava bem presente
a H. Marcuse que como crítico da psicanálise, no entanto propunha
apenas reorientá-la pela evidência da mesma necessidade que impulsionou o
pós-estruturalismo, a saber, promover a conexão explícita de um inconsciente
político. Pois, o que ocorre politicamente é desejo - de domínio ou de
liberação, em todo caso, formas de assujeitamento, variação no simbólico.
Assim, o que estabelecemos até agora como o enfoque estrutural,
relacionando as questões antropológicas e do Saber, pode ser expresso por sua
expressão: "Ao dissolver a ideia da personalidade do ego em seus
componentes primários, a Psicologia [Freud] desvenda agora os fatores
subindividuais e pré-individuais que (em grande parte inconscientes ao ego)
fazem realmente o indivíduo: revela o poder do universal sobre os indivíduos e
neles próprios."
Também se poderia supor
coincidência entre o modo como, em vez de por meio da objetualidade,
ele trata a questão da mudança social - a histórica desde os primitivos, e a
revolucionária na pauta da atualidade - em termos de modificações no Princípio
da Realidade, e o que acima apresentei como minha proposta
histórico-metodológica.
Contudo, vemos que um ponto bem oponível da sua condução da problemática
em relação ao pós-estruturalismo está em que neste houve desde o início a
compreensão de que era a continuidade de princípio na constituição do desejo, a
universalidade do Édipo, o que estava impossibilitado desde o acúmulo da
pesquisa de campo, muito para além dos primeiros trabalhos no ocidente,
pioneirismo em que podemos situar a contribuição de Malinowski. As
modificações no Princípio da Realidade, para Marcuse, não afetam a
universalidade do Édipo, mas são explicáveis por ela como em mais uma
história possível da civilização humana.
A atualidade ocidental não é expressiva dessa história como a do progresso,
como para os positivistas, no entanto. Bem inversamente, para Marcuse
trata-se de uma dominação violenta sobre outros povos que se manifesta
porém apenas como alienação de classe quando se trata do seu próprio povo, o
trabalhador branco, afluente e assalariado no centro. Mas sem uma mudança orientada
pela consciência do que causa esse resultado que não é nada diverso da
constante de civilização assim como Freud a conceituava, um permanente
confronto com o indivíduo re-expresso como a do ego e do ig, seria impossível a
revolução satisfatória. Marcuse não deixou de sublinhar a ambiguidade de
Freud, pois se o confronto é permanente e inerente à civilização, nem por isso
a emergência do ego como o seu resultado deixa de ser vital à espécie em geral
e ao indivíduo em particular. Ora, o que desejo mostrar é que há aí, nessa
constante de civilização como confronto com as forças do Eros (id,
princípio de prazer) um delírio do Saber.
Marcuse não procedeu como Lacan uma retificação de Freud tal que a
hipótese antropológica deste a propósito do que ocorre na origem, "a
experiência de dominação, simbolizada pelo pai primordial - a situação
extrema do Édipo", conforme Marcuse, deixasse de ser necessária.
Inversamente, se ele bem sabe que já não se poderia corroborar tal hipótese,
ainda assim não a descarta, isso com a maior seriedade científica: "Se
a hipótese de Freud não for corroborada por qualquer prova antropológica, terá
de ser inteiramente rejeitada, excetuando o fato de que ela encaixa, numa série
de eventos catastróficos, toda a dialética histórica de dominação e, por
conseguinte, elucida aspectos da civilização até aqui inexplicados. Usamos a
especulação antropológica de Freud apenas neste sentido: pelo seu valor
simbólico."
O Anti-Édipo de
Deleuze-Guattari, inversamente, vai mostrar que essa visão
catastrófica não pode ser generalizada, de modo bem mais
coerente com os fatos do registro antropológico já conhecidos. A ponto de
se propor um corte entre sociedades sem Estado - isto é, sem polo de
dominação centralizada - e com Estado, aquelas somente em que o confronto
do despotismo ao desejo individual pode ser designado um fato. Mas esse
corte é que faz problema, pois como já assinalei, há demasiadas diferenças
entre as sociedades para que uma dicotomia assim permaneça útil. Além disso,
resta o problema histórico. Pois, Deleuze-Guattari protestam que ao
traçar seus regimes de signos, o que poderia se estender às suas cartografias
do inconsciente selvagem, despótico e edipiano (moderno-civilizado), "nós
não fazemos história: nós não dissemos que um povo inventa esse regime de
signos, mas somente que ele efetua a tal momento o agenciamento que assegura a
dominância relativa desse regime...".
Por aí sua crítica a Nietzsche, que se pioneiramente tematizou a
irredutibilidade entre os regimes de julgamento moral dos selvagens e dos
bárbaros, tratou a questão histórica da transição de uns a
outros, resolvendo-a na base de uma especilização de alianças e
filiações, enquanto o Anti-Édipo pretende que cada um dos três inconscientes
de sua própria classificação antropológica, sendo que o edipiano é apenas
uma derivação do despótico sendo ambos "estatais", correspondem
a formas eternas, a estruturas puras. O problema de sua atualização nessa ou
naquela sociedade inexiste, resta apenas a constatação com base na
classificação. Mas como podemos assim estar certos da aplicabilidade universal
dessas três categorias, como bastantes para exaurir metodologicamente todo o
campo da ciência social? Como podemos estar certos de que nosso ajuste dos
fatos aos princípios pre-concebidos não é apenas uma racionalização a
posteriori desde a mera fantasia do a priori?
Todos os caminhos da totalização epistêmica do objeto da teoria social, que são
derivados do preconceito do Saber do universal - função e/ou estrutura -
mostram-se incontornavelmente aporéticos, na imanência da pesquisa in loco.
Ora, Deleuze-Guattari nem chegam a realizar pesquisa de campo. Entre o
Anti-Édipo e o Mille Plateaux, sem sair do seu escritório na França, eles
fazem a atribuição definitiva das inúmeras sociedades, ora como cabendo em
algum dos dois socius não "civilizados", ora em algum
regime de signo-delírio.
Já um outro aspecto das dificuldades que estamos examinando deve ser
tematizada a partir da aproximação da motivação histórica da obra de Foucault.
Ele costuma ser arrolado no mesmo alvo das objeções que vimos acima, dos
psicanalistas lacanianos contra os pós-estruturalistas, mas o fato é que
Foucault não resvala para a crítica do universal edipiano que podemos constar
entre Guattari e Deleuze. A questão se torna mais complexa, porque vindo do
mesmo pressuposto do simbólico, a questão do Saber como partição antropológica
da modernidade vai se revelar um problema, não uma solução, e por um motivo
análogo ao que tematizou Marcuse, o fato dessa sociedade do saber do
significante não ser imediatamente a sociedade da liberação, mas de uma
intensificação nunca vista da dominação, de fato uma dominação com pretensões a
alcance planetário.
Ora, Guattari e Deleuze fizeram a crítica, justamente, do Saber ocidental, não
obstante sua aparente contradição, já que produtores do que exemplificaria ao
máximo as pretensões desse saber. Mas, como vemos ter se tornado a constante, é
que esse saber aportou a sinônimo de veículo da dominação, ao que eles se
contrapõe, supondo que basta denunciar o Édipo como um particular da
modernidade, em vez do universal do inconsciente, tudo está feito para salvar o
inconsciente, assim como Marcuse pensava ser possível desvincular do princípio
do prazer todas as condições adversas que lhe apos Freud, desfazendo
no mesmo lance a ambiguidade notória da psicanálise ora interpretável como
descrição do que ocorria historicamente, não mais como explicação da ocorrência
histórica por meio da necessidade dessas condições.
Vimos que isso não conduziu a menor ambiguidade - e Marcuse continua a tratar
os países periféricos como "atrasados". Mas o que temos a notar é que
desfazendo o princípio do Saber ocidental como um progresso na via da
desfixação imaginária do significante, pensando-o ora criticamente como uma
derivação do Édipo, ora revolucionariamente como um outro discurso possível (o
regime de signos "diagramático") que significa apenas o
estruturalismo suposto adaptado ao devir, Guattari-Deleuze substituem as
diferenças históricas por diferenças de estrutura. Ao mesmo tempo impedem
colocar o problema que Foucault estava desenvolvendo, que é o da relação do
Saber com o desejo, tanto mais agudo quanto na era da psicanálise o que se
assiste em termos de dominação tem por meio nada diverso daquilo que vem a ser
o objeto teórico mais próprio desta, o Sujeito. Como se pode compreender um
fenômeno assim?
É
nesse ponto que incide a questão dos duplos em Foucault, e sua conexão com a
interpretação dos gregos que por mais original que tenha
sido, apresenta-se do mesmo modo que todos os registros que estamos
examinando, posicionando os gregos, estrutural ou funcionalmente, irredutíveis
aos povos que se supõe sem saber como esfera autônoma.
Se uma divisão estrutura o self desde a universalidade do Édipo, que
vimos interpretada como a necessidade da civilização ou confronto da
sociedade ao indivíduo, no entanto a vontade de saber que impele aos
acontecimentos da castração só poderia sere conceituada por uma sociedade
em que o saber fosse pensável autônomo. Não é isso que faz o problema, pois
como vimos, o saber do significante é o que se deveria esperar algum dia, desde
que houvesse um discurso do mestre e então, na posse do saber do significante é
que se entende o que ocorria antes, quando a vontade de saber atuante na
castração - a descoberta da feminilidade da mãe, que encerra a fase do Édipo e
inicia a maturação psíquica - não chegava a um Saber autônomo na
realidade do adulto, pelos motivos já discernidos.
O problema é que essa divisão jamais seria uma duplicidade, isto é, uma relação
pensável eticamente de si consigo mesmo, se ela não se formasse a partir
de um saber autônomo constitutivo do meu juízo possível de mim
mesma. Os gregos seriam a sociedade em que pioneiramente se assiste a essa
relação pensável. Não são só produtores de uma mestria. São produtores de um
Saber. Sintomaticamente, Foucault examina as consequências tendo por fonte os
gregos de um Saber suposto constituído, aqueles dos
registros datados desde o século IV ac., isto é, após o
cenário da sofística e em plena urgência das sistematizações metafísicas.
Na modernidade, porém, inversamente aos gregos, o Saber não é apenas o que
institui na positividade o juízo de si sobre si, como critério
do controle de si, mas a ciência do homem se articula como uma vontade de
Saber da identidade tal que uma representação do Sujeito como correlato
totalizante identitário do si é sempre subentendido como objeto dessa vontade.
Essa representação de uma unidade do Sujeito tal que ele é sujeito de uma
unidade de compreensão do mundo é fantasiosa, vigente paralelamente à
impossibilidade dessa representação já conceituada pela psicanálise e as
ciências reais - o que para Foucault as ciências humanas não são - ísto é,
impossível pelas metodologias estruturais. A dominação na modernidade tem
por meio esse Sujeito da representação. Logo, não é o que podemos
conceituar haver entre os gregos.
Alhures argumentei que a concepção foucualtiana da homogeneidade do desejo
grego como estrutura heautocrática - uma relação consigo que não chega
a produzir um sujeito pensado em si e para si - está bastante mal
demonstrada, que ela não é provável. Tenho sempre mantido a necessidade de se
lidar com a heterogeneidade constitutiva dos registros culturais gregos que foi
pioneiramente conceituada por Nietzsche ao opor exemplarmente a estruturação do
mito homérico à dramaturgia da Polis.
Não há uma heterogeneidade reportável dos registros grego antigos no estudo de
Foucault, e isso desfaz a aporia que restou da sua história
descontínua : se não se trata de uma "gesta histórico-mundial" como
na expressão de Deleuze, por ser o caso de uma história de estruturas descontínuas,
ainda assim há um pioneirismo, há um encaminhamento do Sujeito desde a
duplicidade da relação consigo suposta na estrutura heautocrática, etc. Há
"ocidente" numa unidade de tradição, o que se torna cada vez menos
demonstrável.
Restam as propostas de tratamento que manifestamente se quiseram
não-etnocêntricas, ou seja, a necessidade não só de desfazer a universalidade
do Édipo, mas desfazer o seu pressuposto dualista de princípio: por um lado,
trata-se, entre indivíduo e sociedade, de antagonismo, confronto,
inconciliabilidade a priori; por outro lado, essa irredutibilidade só é
realizada pelo lado do sujeito pelos acontecimentos de suas relações parentais,
posto que ela é redutível formalmente à mera concepção do sujeito como posição
de sua identidade familiar (sobre-nome de pai) social/realmente atuante. Haverá
delírio se o real não tiver por meio de sua realização pelo
sujeito, o simbólico, essa posição identitária que é significante, que implica
o nome e o conceito, etc.
Mas se a evidência antropológica mostrar que nada disso é representativo de
todos os registros, não restará o recurso de ainda assim admitir que se trata
do redutível para efeitos de ciência, se voltarmos à constituição dos conceitos
que orientam esse dualismo. O id é uma noção que bem inversamente a ser
moderno-ocidental, poderia ser o correlato do pecado bíblico. Ou seja,
impensável numa cultura em que inexiste essa concepção de objeto pecaminoso -
mesmo que se trate sempre de adestrar os instintos na convivência social.
Portanto, a socialização não persiste na delimitação dos acontecimentos
"repressivos", se a educação não desdobra a concepção de que aquilo
que se precisa aprender é o contrário de algo ruim na acepção de pecaminoso.
Além disso, torna-se oportuno destacar o processo de interpretação dos
fenômenos que a psicanálise cede. O inconsciente, o sujeito e a sociedade são
reflexos dos princípios que os regem - em vez de serem eles mesmos os atuantes
dos seus processos reais e históricos. Por exemplo, Marcuse designa "princípio
do desempenho" o qualificativo do princípio de realidade que impera na
sociedade moderno-ocidental. Esse princípio a faz uma dominação. Ao mesmo tempo
o que se diz é que "sob o seu domínio, a sociedade é estratificada de acordo
com os desempenhos econômicos concorrentes dos seus membros".
Mas é bem claro que não é a sociedade moderna que está sob o domínio do
princípio, e sim que grupos e sujeitos nela dominam outros grupos e
sujeitos, impondo socialmente a opressão da estratificação de classes, de modo
que o que temos que estudar são os meios efetivos pelos quais essa imposição é
feita a despeito do fato de que não só os grupos dominados, mas muitos
constituintes da sociedade mesmo do centro estão independentes do domínio
de princípio no sentido de bem consciente e manifestamente o repudiarem. Assim
também, Marcuse argumenta que os assalariados alienados no centro estão
domesticados pelo princípio porque a despeito de sua alienação, eles obtem por
esse meio subsistência e diversão à vontade.
Mas o que eles obteriam assim seria somente engano, pois quem se sentiria
satisfeito se soubesse a verdade sobre o limite ecológico da indústria e sobre
as condições reais de repressão, com as consequências esperáveis? Ora, basta
que um grupo saiba a verdade para repudiar os ditames do sistema, mas não é o
que adianta. Vimos recentemente, nos episódios da guerra ao oriente médio, que
a população estadunidense não aprovou de forma alguma a iniciativa bélica,
tendo havido maciças manifestações contra a guerra que foi avante assim mesmo.
Que meios materiais são usados no engano das massas e quando nem isso é
bastante, na sua sujeição pura e simples, a despeito do fato de que nenhum
governo vai poder garantir cem por cento o seu povo contra o grassar
dos terrorismos, a proliferação dos banditismos, muito menos a
degenerescência da saúde pela deterioração ambiental?
Será oportuno na atualidade, retornar ao estudo da sofística e da
democracia grego-antiga, naquela proposição da temática de revisão da
teoria inconsciente, à luz da heteroneidade antropológica não mais reduzida à
homogeneidade do parâmetro ocidental com sua tripartição taxonômica que nada
explica, e que, inversamente, é o que precisa ser explicado na sua
persistência incoativa a toda evidência.
5)
Entre
Nietsche e Hegel o pós-estruturalismo instituiu a canonicidade do primeiro
e desprezou o segundo. Mas a pós-modernidade, inversamente, descobriu a
tópica da relação entre ambos, desenvolvendo-se em termos da dependência do
primeiro ao segundo. A história da recepção do pensamento hegeliano encontra
nisso a sua continuidade em nossos tempos, pois há
assim evidentemente a motivação de resgatar a importância de Hegel, e
mostrar que a crítica nietzschiana na verdade escamoteia a origem de suas
próprias bases temáticas.
Como
já se propôs, podemos ler essa história do hegelianismo, como em todo
caso pressupondo uma opção básica entre forma e conteúdo. Isso, sabendo-se que
ela é feita de uma multiplicidade de linhas de interpretação inclusive tão
antitéticas quanto as três linhas principais do pensamento político ainda
atual, liberalismo, socialismo e fascismo. Na opção pela forma, preserva-se a
dialética como uma lógica que permite incorporar os novos acontecimentos
históricos, como no exemplo de Marx; na opção pelo
conteúdo conceitua-se a dialética como se Hegel houvesse
tornado intrínseca sua leitura dos fatos histórico-mundiais já conhecidos a
essa sua concepção revolucionária da lógica.
Aparentemente, na crítica pós-estruturalista da dialética como negatividade,
tendo Nietzsche como referencial, a leitura pelo conteúdo implicaria a
impossibilidade da criação singular, ora como subsunção ao
totalitarismo estatal, ora meramente como subsunção ao comum de modo tal
que só se poderia interpretar uma ação como reação. Não obstante a objeção
de Scarlet Marton a propósito da leitura deleuziana de Nietzsche, com base em
que a concepção do "reativo" seria apenas invenção deleuziana, não
como Deleuze apresenta, algo que se pudesse provar conceito nietzschiano, já
que Nietzsche não se expressa nesses termos, vistas as coisas pelo ângulo da
questão Hegel, é de grande importância haver uma concepção do ativo tal que se pudesse
posicionar anti-dialética.
Não há dúvida de que aqui parece haver uma ambiguidade, entre Nietzsche e sua
recuperação pós-estrutural, na medida que poderia tornar-se afirmável que nele
há preponderância de uma leitura de Hegel na perspectiva do conteúdo, enquanto
o pós-estruturalismo seria uma novidade porque então a rejeição da dialética
chega a ser pela própria forma.
A questão Hegel não é tão simples como se pudéssemos escalonar a
extrema-direita hegeliana como conteudística - e então Nietzsche seria a
negação exemplar desse Hegel, deixando intematizada a linha da esquerda
hegeliana. Pois se assim fizéssemos, já teríamos operado sem a justificar, a
decisão sobre se o que se apresenta como esse "conteúdo" - o elogio
do príncipe e do Estado monárquico - corresponde ao que a partir do
Realismo vem sedimentando-se no Ocidente como contrário à legitimação
democrática da cidadania.
Inversamente, se há sentido no acúmulo de investimentos teóricos na questão das
relações Nietzsche/Hegel, é porque a indecisão em que pairam os estudos
hegelianos a propósito da concepção de Estado Moderno no enfoque dialético,
deixa margem para supor que sob a terminologia do Estado moderno, o elogio
monárquico de Hegel teria a ver com o conflito histórico interno a todo o
Romantismo - entre Impérios supranacionais e nacionalismos. Como também
com sua própria concepção de historicidade.
Mas a rubrica da "modernidade" nesse pensamento implicaria a conexão
do constitucionalismo com a garantia dos direitos civis, e eis o vínculo não só
com o liberalismo ou até com o socialismo, mas com a teoria do sujeito cuja
posição no pós-kantismo é axial. Essa garantia pressupõe a noção de realização
máxima da ideia de liberdade, e eis a definição de Estado hegeliana: a ideia de
liberdade correspondente a uma sociedade, a um povo.
Ao longo da história, eis o "conteúdo" dessa filosofia, os Estados
apresentaram ideias de liberdade progressivamente extensíveis a maior número de
pessoas, desde o déspota único livre, e a modernidade implicaria a realização
da liberdade em nível subjetivo: todos livres, pelo vínculo privado do direito,
e público da constituição ou legalidade que, na historicidade alemã, naquele
momento a monarquia representava, isto é, na conjuntura dos açambarcamentos
imperiais. Ora, a partir daí a história da Alemanha se imbrica à da segunda
revolução industrial, a transformação capital-imperialista do Estado, e é sob
esse crivo que portará a crítica de Nietzsche ao objeto teórico que Hegel
conceituou em termos de Estado, modernidade e cidadania nacional.
Paralelamente, a esquerda que se utilizou de Hegel absorveu a forma dialética
como negatividade num sentido ele mesmo dialético na base da pressuposição
recíproca de destruição e construção, bem no espírito belicoso e prometeico das
vanguardas históricas. Na atualidade porém, a história dessa recepção também
ressalta o problema de se considerar que isso implica que apenas a forma foi
preservada, pois na verdade o que está em suspenso é o papel do príncipe no
pensamento de Hegel. Não se denega a validez da opção conteúdo-forma, de
qualquer modo, mas sim como isso se problematiza a cada vez que se trata de
interpretar a pertença de cada uma das vias ao pensamento de Hegel, ao longo
dos duzentos anos de sua recepção.
Ora, o que precisamos notar é que Nietzsche realmente apresenta uma novidade,
que é um outro recorte do que chamaríamos "conteúdo", portando, pois,
sobre os modos históricos do Estado. Ele articula a oposição entre povos com ou
sem Estado, a qual não se poderia, por outro lado, de maneira alguma ter por
uma retomada da ultrapassada teoria política clássica - a qual está
epistemologicamente inviável pela emergência das ciências do espírito
românticas.
Ou seja, não é o caso da antiga oposição de estados de natureza e de sociedade.
Mas de legislações sem dominância da consciência, portando apenas sobre o
comportamento dos corpos; e legislações instituindo-se por meio de castas
sacerdotais. Ocorre que esse é um locus confuso na terminologia nietzschiana,
pois ora Roma vai ser o representante do não-sacerdotal, ora é a questão do
Estado e sua crítica que se imbricam aí, de modo que a oposição vai se jogar
sobre um fundo histórico, e se tematiza o fato de que os povos guerreiros
(opostos de sacerdotais) são ao mesmo tempo os bárbaros que fundam impérios
sobrevindo belicosamente sobre o território de outros povos.
Aparentemente, Nietzsche está opondo Estado e Império, mas por outro lado, a
sua crítica do Estado é a crítica do Império do seu tempo. No manifesto,
trata-se de algo simples: o Estado moderno, sob o disfarce do Império, não é
uma dominação pela força, mas por uma concepção do direito que para Nietzsche
seria uma violência ainda maior, já que esse direito ou legislação não estatui
senão sobre a consciência, sobre aquilo que deveria ser livre e inalienável, em
vez de apenas sobre o que basta para garantir a conveniência dos
comportamentos à co-existência. Hegel, ao teorizar sobre o vínculo
intersubjetivo, não teria pensado senão dentro do vínculo
desse Estado de consciência, e feito todo o modelo existencial do
singular a essa imagem e semelhança, conforme a crítica de Nietzsche.
Mas o que temos que observar aqui é que esse fundo histórico estaria
comprometido pelo fato de que, para ficar com a exemplificação do extrato
europeu, as invasões indo-arianas como a dos micênicos e dórios na Grécia,
é o que funda os impérios sobre, grosso modo, matriarcados ou, senão tanto,
povoações oriundas do neolítico há muito localizadas no território. O que
implica uma problemática da origem do direito de que resultaria, inversamente,
um vínculo de consciência somente no que se opõe à sua origem, isto é, o
vínculo de consciência é o que se pode atribuir ao domínio
oligárquico imposto como remanescente do
"imperial" (bárbaro), contra o que a instituição do jurídico
expressa a oposição popular, e o problema aqui é a obscuridade quanto à
composição dessa população heterogênea, recoberta entretanto pelo extrato
étnico sucessivamente bárbaro/imperial-oligárquico.
A extratificação de casta ou aristocrática é o que implica esse vínculo como
consciência da pertença de nascimento e o que ela acarreta como
"aristéia", enquanto o direito legal, inversamente, deriva como já
notamos, da luta de classes que se ativa num ambiente que hoje poderíamos
interpretar numa conexão plausível com o que ficou à margem das invasões.
Lembrando que desde Micenas, o indo-europeu não era o colonizador culto, mas
inversamente, o inculto que assimilou o letramento do
escriba cretense, e que inversamente a Sparta, o território de fixação do
invasor dório, Atenas ficou naquela margem por sua posição geográfica durante o
período de trevas, em que se interrompeu o exercício letrado, das invasões
dórias.
Os
dórios perpetuam exemplarmente a aristéia micênica, não obstante terem
destruído o império micênico sem absorver a civilização e a escrita, por meio
da oralidade da mitologia homérica. Enquanto o desenvolvimento posterior da
luta de classes vai implicar a letra de um mito irredutível, como o de
Hesíodo, e o surgimento do pensamento laico ou filosófico, paralelo à
sedimentação do jurídico - a escrita que retorna na época subsequente ao
período das invasões é empréstimo dos fenícios.
O pós-estruturalismo, como podemos ver com Derrida, desenvolve uma temática da
disjunção de justiça e direito na qual, não obstante a ambiguidade dessa
exposição por ser relativa ao pensamento de Benjamin a esse propósito, parece
que se pode afirmar o recuo da justiça como algo que mesmo não sendo necessário
acarretar as consequências que isso tem em Benjamin, é incontornável. A justiça
como o que se funda num ato de violência por ser o que está antes do direito,
portanto, não regulável pelo direito, mas inversamente o que permitirá que o
direito regule qualquer coisa.
A ambiguidade aí é a do próprio ocidente como o construído sujeito do direito
universal, da democracia e da legalidade. O recuo da justiça em relação ao
direito é ao mesmo tempo a fundação do direito. Até hoje o preconceito de uma
unidade de mentalidade "grega" a partir do elemento racial indo-europeu
implica a confusão do surgimento histórico do regime legalista-democrático com
uma origem na soberania micênica. Por essa via nietzschiana, a legalidade
democrática não pode ser pensada como um princípio de realidade irredutível, de
modo que não se pode pensar que não é só o direito, mas a justiça mesma
que não tem o mesmo sentido na soberania aristocrática e na Polis democrática -
irredutibilidade resgatável quando cotejamos o significado da "aretê"
em Homero e Hesíodo, este que é propedêutico a Solon.
Em Homero, a virtude é o dom da habilidade, vinda dos deuses, qualquer que
seja, e assim distingue o nobre, cujo parentesco ancestral com linhagens de
deuses expressa a nobreza e legitima a soberania. Em Hesíodo, é o
sentimento reto da justiça igual para todos assim como do direito ao fruto do
trabalho. Em Solon também, mas se naquele a transgressão acarreta castigos
divinos, neste acarreta apenas o mal social. Em Hesíodo e Solon, portanto, há
uma relação da justiça com a reciprocidade na heterogeneidade, inversamente ao
que ocorre em Homero, onde ela é personificação da ordem sobre/natural,
como da soberania, lembrando que os deuses gregos são princípios
naturais, materiais. Assim fica sem aplicação a concepção nietzschiana de um
direito tipicamente "judeu", que os gregos e os povos sadios não
conheceriam, posto que se trata da concepção de justiça como reciprocidade,
para ele apenas ficção de fracos.
Por outro lado, vemos que o recuo da justiça na tematização pós-estrutural cabe
numa localização neomarxista do pensamento ocidental cuja necessidade já
poderíamos divisar desde Benjamin e as reinterpretações da ideologia datando
dessa época "gramsciana". Pois, há um obstáculo formal à famosa
inversão da dialética hegeliana por Marx. Se a sociedade fosse o efeito da
produção econômica, na forma das relações sociais entretecidas qualitativamente
na produção, onde estaria ancorada a moralidade que nos
faz atribuir um direito natural do proletariado sobre o fruto do seu
trabalho? Já está estatuído que a produção não é meramente a concorrência de
agentes livres e desembaraçados num espaço de iniciativa privada, mas a
pré-condição da transmissão da propriedade, leia-se meios de
produção, como a priori de classe.
Nós sabemos que para outros, não há qualquer direito natural do
trabalhador sobre o seu trabalho se de início ele não era o proprietário dos
meios. Se quisermos demonstrar a eles que esse direito deveria ser inalienável,
porém, pela própria letra do materialismo não poderíamos apelar para a
moralidade. Ocorre que desde Marx até hoje os meios de reprodução do
capitalismo como a priori de classe tem se sofisticado a ponto de afetar o que
havia sido a salvaguarda dos pensadores que desde inícios do século XX estavam
às voltas com esse problema, a saber, a dialética da ideologia e utopia, pelo
que por mais que as tradições culturais estivessem perpassadas pela ideologia
como premissas da reprodução do a priori de classes, elas se espraiavam num
meio popular de inter-comunicação das dificuldades inerentes aos obstáculos de
acesso à produção impostas às massas operárias. Hoje esse meio está reificado
pelos estereótipos midiáticos, e em vez de um operariado que se torna
crescentemente consciente do a priori de classes, temos um capitalismo que se
torna crescentemente integrado pela força das armas e do controle das
comunicações.
O recuo da justiça em relação ao direito é o desenvolvimento formal da
problemática que estava por trás do recuo do roubo antes da propriedade,
referido pelo marxismo. Se não há moralidade alguma a estatuir no início da
sociedade, se esta é materialmente efeito da produção, tampouco podemos
garantir conceitualmente uma teleologia que oriente sociológica e
economicamente quanto aos fins.
Aquilo que Foucault não equacionou na sua violenta crítica às ciências
humanas, é algo que cada vez menos se tematiza nas faculdades em que
até há algumas décadas, se tinha que estar consciente de tratar-se do
peculiar a essa área. Ou seja, o fato de que nela não há um objeto
natural prévio ao envolvimento conceitual-teórico, e que toda
pre-concepção de universalidade que se poderia emprestar de um objeto
natural é aqui portanto, inviável. O seu As palavras e as coisas
não distingue suficientemente ciências humanas de filosofia, não observa que se
esta é uma das vias pelas quais aquele envolvimento conceitual-teórico se
presentifica, a contaminação é recíproca e além disso, não é a única.
Não
obstante, não se desconhece aqui o uso das ciências humanas como instrumento de
dominação, nem a contribuição de Foucault no desfazimento do mal
entendido que consiste em atrelar a crítica às ciências em geral e às
humanities em particular, à limitação à tarefa de discernir
a ideologia por trás da pretensa objetividade. Foucault escreveu, segundo seu
testemunho, para desfazer o dilema de ideologia e saber, mostrando que não
é por ser ideológico, não é por importar o intematizado para o interior do
conceituado e deixar as coisas assim, mas por esgotar a temática, por
supor que esse esgotamento é suficiente para, estando na posse de uma verdade,
estar ao mesmo tempo no domínio de toda verdade ou Real.
Isso valeria, então, o que Foucault parece ter negligenciado,
para qualquer conceito que se pudesse arriscar para unificar algo tão
heterogêneo sincrônica e diacronicamente, como "ciências humanas".
Beattie, na trilha de Malinowski, mas desenvolvendo o que neste havia sido uma
espécie de requisito operatório, insistiu na irredutibilidade cultural
como princípio metodológico da antropologia social e ciências
afins, já na altura dos sixties. Recusa de toda
antropologia filosófica, enquanto na concepção de Malinowski, nas
décadas iniciais do século passado, vimos a constatação de que toda importação
de conceitos ocidentais sobre a linguagem implicava o impasse do antropólogo
ante seu material de campo, mas logo que o descentramento viabilizou alguma
compreensão do conteúdo, aquela constatação derivou-se incontinente a
servir ao objetivo de uma totalização universalista do cromo
"cultura" (linguagem e inteligibilidade do meio).
É bastante curioso, e mesmo dialético, que dessas duas posições, o
funcionalismo tenha persistido na generalização, ao menos, do seu objeto: a
cultura, em geral o que é irredutível como um sistema fechado particular. As
posições fixas do sistema, como suas funções, eis o que pode então servir à
armação conceitual do que é pertinente ao exame antropológico, para todos os
casos. Elas são as variáveis, viabilizando lidar com a irredutibilidade. Mas
não são a princípio, necessariamente, as variáveis de uma totalização
qualitativamente previsível. Quanto à metodologia, portanto, não se retorna à
antropologia filosófica, nem se utiliza o que habitualmente aprendemos
como a filosofia da história de Hegel. Inversamente, o estruturalismo com
Levi-Strauss postulou uma universalidade, mas não do efeituado como cultura, e
sim da sua produção simbólica, novamente a linguagem, só que reportada aos
sistemas de pensamento lógico, o possível suposto subjacente ao real.
O pós-modernismo não é a tentativa de solucionar o dilema desses caminhos, ou
de produzir um novo paradigma. O aprofundamento do fator irredutibilidade
veio junto com a supressão de vários obstáculos para a inter-comunicação de
culturas, nações e sociedades. Conhecemos mais as irredutibilidades porque elas
nos são apresentadas não pelo antropólogo, e sim pelos escritores e pensadores
dessas culturas que podemos ler pelo incremento do mercado de publicações em
nível internacional. Problematizando a sua heterogeneidade, a sua
impossibilidade de integração à consciência ocidental, eles estão ao mesmo
tempo questionando e problematizando essa consciência que os interpela e
suscita a sua voz. Eles a estão reescrevendo, reinterpretando, mas ainda não
sabemos se estão realmente a transformando ou se isso é exequível. A proposição
meta-teórica em que se encontra a recusa do paradigma implica pensar o modo como
pensamos, questionar os paradigmas intematizados que habitam as escolhas
teóricas e táticas, recusando generalizar posições que vindas de uma opção
assim, se abstrai dessa origem situada para idealizá-la como universal.
Mantendo pois, o mínino comum relativo a um princípio de heterogeneidade, é que
seria oportuno inserir a problemática antropológico-social do Estado, assim
como aproximada por Willems. Ora, nesse ponto, reencontramos Hegel. Aqui
estou atribuindo a este a concepção pela qual uma cultura tem
existência autônoma em relação aos indivíduos que integram presentemente uma
sociedade, e que da imbricação desses dois fatores resulta a autonomia da
própria sociedade em relação aos indivíduos, autonomia que se pode
postular como sua afirmação política em termos de soberania ou Estado, o que
implica que os indivíduos são duplicados "para si" como sujeitos e
como sujeitos dessa soberania (Estado).
A exposição de Willems focaliza justamente a defesa em
antropologia social, da posição de universalidade do Estado
como atribuível a todas as sociedades, mas ao mesmo tempo essa
universalidade sendo apenas o requisito da irredutibilidade de formas de
soberania que expressam a autonomia de cada uma das sociedades. A exposição
envolve uma apreciação das dificuldades que essa posição enfrenta por parte dos
que defendem, inversamente, a definição do Estado como conjunto de instituições
estruturadas de certo modo, e assim as sociedades primitivas, onde não há tais
estruturas, não possuiriam Estado.
Mas se pudermos posicionar as sociedades igualitárias, geralmente assim
consideradas as mais simples ("primitivas") existentes,
como comportando o Estado, podemos assimilar a democracia grega como forma
desenvolvida desse Estado igualitário, implicando assim a pluralidade de
sociedades heterogêneas no mesmo extrato historicamente designado
"grego-antigo". Por esse meio, denegamos a contiguidade da sociedade
homérico-aristocrática à Polis democrática, mas também a desta à consolidação imperial
helenística e depois, à feudalizada que conservou, ainda que desfigurando,
a linguagem teórico-fílosófica daquela consolidação.
A emergência de um cenário irredutível ao Antigo, devido à ruptura dos limites
humano-geográficos relativa às grandes navegações implica reposicionar toda a
questão da democracia moderna, como algo historicamente relacionado a um novo
desfazimento da ordem imperial-aristocrática. Os agentes sociais que despontam
na transição ao século XIX como ativos na história são por todo esse
interregno, desconhecidos e imprevisíveis na armação da mentalidade clássica
que no cenário pós-feudal ainda pode fabricar uma idealização de continuidade
da tradição imperial antiga.
Esses agentes recolocam a problemática das sociedades igualitárias que insiste
na consolidação singular da democracia grega.
O importante quanto a isso é que por todas as ordens clássico
imperiais-oligárquicas, pode-se manter a circunscrição psicanalítica que
subsume a problemática da alteridade ao vínculo familiar que implica a
extratificação hierarquizante do social. E do mesmo modo, essa
extratificação subsume a identidade do socius a uma unidade, um cosmos.
Inversamente, nas sociedades igualitárias e nas organizações populacionais marginalizadas que
a hierarquização imperial-oligárquica idealiza subordinadas ao
estamento servil, assim como na transformação do direito liberal que está
na base do que chamamos democracia moderna, aquela circunscrição não pode ser
mantida.
Como Oswald de Andrade observou, as premissas de monogamia, hostilidade do meio
natural, equacionamento trabalho-dessexualização via imposição por uma classe
alheia à do trabalhador, vigilância do comportamento sexual feminino,
atrelamento da identidade à paternidade, desconhecimento da realidade corporal,
outridade "sexuada" (tabu genital) do corpo nu, tudo isso não se
pode dizer universal desde que se desloque o "homem vestido" da
sociedade imperial-aristocrática, pelo aborígine nu, habitante dos trópicos.
Mas ao fazer assim a crítica da psicanálise freudiana, e conceituar um
inconsciente de grupo em vez do significante do pai, vemos que não se trata de
"grupo" como uma soma de representações e de regras de papeis
sociais, como poderia ser o correlato de um indivíduo hipostasiado, à Jung ou
mesmo Deleuze-Guattari.
Não é a representação marcada de uma alteridade do grupo em relação ao
indivíduo, como se o grupo fosse ou devesse ser uma realidade idealizável, um
correlato x, à Durkheim - a quem Deleuze-Guattari também podem ser aproximados
pelo aspecto de sua inadequada conceituação das sociedades primitivas como
"segmentares".
O
"grupo" de que se reporta a alteridade à formação inconsciente na
sociedade igualitária é a heterogeneidade ou pluralidade em que toda
positividade e identidade não estão pré-formadas como tais, mas devém o
problemático que tange à co-existência. Nível público-prático onde a justiça
não se funda pela violência, pela posse do território conquistada à força e
mantida pelas armas; mas como liame do Estado que soluciona institucionalmente
as questões localizadas da co-existência, num contexto de populações longamente
fixadas e letradas ou, inversamente, nômades e semi-nômades, só podendo
pensar-se como questões envolvendo a variedade e heterogeneidade dos sujeitos
que aí colocam o problema de suas diferentes situações, Estado como
esfera existencial autônoma (da sociedade).
A justiça como a linguagem ("simbólico") dessa sociedade é realmente
prévia ao direito que se exerce por ela, mas não se institui pela violência,
inversamente, quando se abstrai a heterogeneidade dos sujeitos pela imposição
de uma casta identitária de uma máquina invasora imperial, casta que depois se
perpetua simbolicamente como fundamento da agregação territorial ou
"nobreza", não se tem o exercício de um direito, mas somente a
identidade "ordem-execução-justiça", como no ordálico
mágico-religioso.
Pode parecer que essa temática a ser desenvolvida desde a exposição de Willems
não tem muito a ver com o que gostaria de propor como pertinente à questão
do duplo literário no fantástico romântico, o problema de sua recepção de
época. Isso tange à estranheza, inverossimilhança e absurdo como categorias
próprias ao fantástico e à problemática do duplo, que no entanto, são de fato
noções historicamente muito variáveis. O que elas significam, naquilo que
poderíamos recuperar, à recepção daquela época?
Mas de fato, como estou conceituando o duplo romântico na irredutibilidade
cultural de pertença da literatura contemporânea, mas também
relacionando-o ao que se expressa na dialética de Hegel em termos de pensamento
sócio-histórico tanto quanto localizando exatamente nesse vínculo o surgimento
do conceito de Inconsciente, torna-se importante considerar aquela questão pelo
ângulo da alteridade.
Uma vez feito o percurso de apresentação dessas questões, será oportuno
retornar ao exame do texto lacaniano, posicionando assim a sofística em relação
à problemática do inconsciente e à crítica da psicanálise.
§§§§§
O pivô dessa profusão de temas que estamos relacionando é o liame entre a
linguagem e a subjetividade, o que estamos habituados a atribuir historicamente
à psicanálise ter situado por meio do inconsciente, como se tornou corrente
desde Lacan operando na chave antropológica de Levi-Strauss. Mas já tendo
assim posicionada a problemática, isto é, na circunstância histórica em que nos
encontramos hoje, os limites da tese desse nexo como a priori de gênero
postulável universal da linguagem ficam sempre mais demonstráveis paralelamente
à reorientação epistêmica que vem tendo lugar em humanities.
Isso nos permite, e é a que se tem sido induzido desde o
pós-estruturalismo, a rever a problemática histórica que se coloca pelo liame,
uma vez que "subjetividade" deixou de ser um universal no sentido do
referencial ocidental, mas por outro lado, quando a esse referencial, não se
pode mais abstrair da sua historicidade. Não se pensa o sujeito antes do
Romantismo, se antes não há a família nuclear burguesa, não há o sujeito da
moralidade e da constitucionalidade civil.
Como tenho repetido, o Romantismo é o limiar histórico em que o Sujeito vem à
referencialidade do pensamento, e o que se pode haurir numa releitura dessa
época, inversamente ao que os pós-estruturalistas objetivaram, é uma ampliação
da problemática do Inconsciente que se deslimita de todo a priori, mas já nessa
posição constitutiva da linguagem.
O "erotismo" dos românticos já demonstra que o motivo
conexo do situamento contemporâneo e político da subjetividade é a episteme,
enquanto ruptura com o quadro clássico anterior pelo transformismo ("evolucionismo")
que implica a emergência da biologia e a revolução da concepção do Real
que agora se torna orgânico, impossibilitando-se a abstração do devir e da
materialidade. Que Deus cria infinitos curvos, o conceito de
Schelling para o organismo enquanto sistemas que se retro-alimentam e por isso
dobram a causalidade que se torna intrínseca à sua estruturação, mostra o
quanto precisamos rever alguns dos preconceitos que ainda hoje se mantém a
propósito do pós-kantismo e do romantismo.
Esse processo da ciência do devir não se interrompe desde o
romantismo, não obstante o Realismo ter sido um retorno do reprimido no
sentido de que os determinismos da fase dos estudos biológicos que se seguiram
como interpretações precipitadas do darwinismo, implicaram retomar o
associacionismo, como se sofisticando as análises dos "ideólogos" do
aufklarung. Mas como já vimos, esse cenário muda aproximando-se a transição ao
século XX, quando qualquer afirmação desse tipo de automatismo à Destut de
Tracy ou Condilac se torna impossível pelas experiências da
percepção. São leis de percepção, que integram os sistemas orgânicos envolvidos
assim como os sistemas de composição de imagens, o que se compreende como o
atuante, não associações de ideias a partir de imagens constituídas pela
reunião dos dados sensíveis.
Podemos notar como essa transição do realismo-positivismo ao cenário que
designaremos da sociologia compreensiva - que é também o da emergência da
psicanálise e dos princípios que logo vão ser os do gestaltismo - é importante
para esclarecer muitos dos problemas que ainda hoje se apresentam, como
exemplarmente os levantados pela perplexidade de Derrida a propósito de
Benjamin.
Se pudermos tratar o Romantismo como a formação do ego geopolítico em termos do
Ocidente moderno-industrial, determinando para si uma margem como periferia
sobre a qual o capital se define "central" mas ao mesmo tempo
estruturando essa centralidade como ego histórico, processo universal de
modernização nacionalizante, mas não aceitando o a priori de gênero
psicanalítico que implica as fases pelas quais imaginário e simbólico
articulam por "odioenamoração" o Sujeito da linguagem
falocêntrica, por outro lado não se poderia deixar de notar que o que ocorre
historicamente desde o Romantismo é a trans-formação desse ego pelas mudanças
pelas quais o capitalismo recircula a sua "centralidade"
sócio-econômica como dominação cultural, isto é, articulando-se a prioris
formais de sua universalidade pressuposta.
Esses a prioris extrapolam o que seria a oralidade romântica onde o
sujeito pensável e a geopolítica internacionalizada pela hiância do mercado da
economia liberal ainda não colocam o avanço inglês sobre a América Latina, logo
seguido pela viragem monopolista neo-colonialista
europeia, isto é, essa oralidade não implica o sádico-anal positivista,
nem a dúvida fálica do cenário da sociologia compreensiva como de Dilthey e
Weber. Aqui definimos o ego psicanalítico como um efeito do capitalismo
ocidental, o que também se fez no Anti-Édipo, mas não pela mesma motivação,
isto é, sem supor que a estrutura edipiana tenha surgido do nada ou como uma
modificação do despotismo estatal bárbaro.
A contradição aí é máxima, pois o capitalismo não é ao mesmo tempo o Estado de
direitos, bem inversamente, os dois processos são historicamente paralelos, mas
sua convergência é problemática, não passível de redução a um só termo. O
que o Romantismo conceitua como Inconsciente é restrito ao liame de
sujeito e linguagem, como vínculo variável cultural e historicamente, o que se
torna extremamente interessante ao interesse pós-moderno
(pós-psicanalítico).
A redução do "erotismo", que conceitua a qualificação do sensível
pela experiência dos estímulos como os estéticos, à premissa da sexualidade
genital - o correlato do pecado adâmico, etc. - não passa de um dos
determinismos oriundos da cegueira ocidental articulada pela progressão de sua
egologia, expressão da sua impossibilidade de pensar a alteridade, correlato da
sua violência sobre a liberdade dos povos. Nós não devemos esperar coisa
diversa do que está ocorrendo, nos termos de um neofascismo, desde que se trate
da ingerência do capitalismo sobre a margem, posto que o inconsciente político
difundido como linguagem midiática é sádico-analmente articulado desde as
origens.
O objeto dessa origem sádica, que não é origem do desejo universal,
mas tão somente da perversão capitalista, é a alteridade em relação à
identidade ocidental. Que se torna insuportável "pensar" - visto que
pensar é problematizar a identidade - pela programação neoliberal tem ficado
cada vez mais nítido.
A violência, especialmente contra a mulher, na mídia -trucidam-se
mulheres nos filmes, à Volverine, como constante dessas produções comerciais
para crianças - por outro lado erigindo-se figuras de mulher-fálica,
supostamente objetos do desejo por serem estereótipos da dominação, é o pão
cotidiano de quem ainda se põe a consentir receber esse tipo de programação
destinada a perverter a consciência do liame social. Mas nós adultos podemos
escolher, as crianças não. Nenhuma criança pode ignorar o Volverine, se está
socializada, porquanto no Rio de Janeiro cada lançamento de filme
desse tipo de pacote é um acontecimento de grande magnitude, a cidade fica inundada
de imensos cartazes, toda escolinha de bairro orienta suas imagens ao
redor deles, etc. - o que se compreende, dado que o país está sucateado nos
termos da sua soberania pela subserviência ao neoliberalismo multinacional
desde a transição ao terceiro milênio, e cultura aqui se sabota se não for
portada por assinatura de estrangeiro, europeu ou norte-americano, ou pelos que
assumem estar copiando um deles. Isso após tantas lutas por autonomia cultural,
política, etc. O retrocesso político, acompanhado da regressão psíquica no
país é notória a qualquer estudo que seja feito como análise do discurso
neoliberal
Tanto que, quanto ao que vimos acima a propósito da perplexidade de
Derrida, podendo ser o pensamento de Benjamin inserido estruturalmente no
campo da ambiguidade fálica característica do assim chamado
"estrutural-funcionalismo" (décadas iniciais do século XX) torna-se
bem apreensível que as aporias a que conduz. Pois, nessa época, dois tópicos se
apresentam como historicamente incompatíveis com os prognósticos de Marx: por
um lado, a revolução soviética; mas principalmente, o fato de que a burguesia
não prosseguiu à marcha à frente do liberalismo consoante com a leitura
sócio-evolucionista do positivismo. Inversamente, ela retrocede para um
processo de nobilitação, aristocratização, cuja epítome poderia ser Nietzsche.
Emerge assim a sociologia compreensiva como a temática da gemeinschaft versus
geselschaft, de modo que a "dominação" que se trata de reconceituar
com base nesses novos parâmetros de sociedade, se torna sintomaticamente o
objeto ambíguo dessa teoria. Pois, se o poder é idealizado unificação
social da geminshaft à imagem das burocracias patrimoniais e/ou do
feudalismo, o que poderá ser definido de fato como
"dominação"?
O que isso diverge fundamentalmente da ideologia dos nazi-fascismos? A
aristocratização da burguesia após o positivismo, não é como na época clássica,
por casamentos com a nobreza para legitimar-se; mas pela fabricação da imagem
"tradicionalista" do seu papel social.
Mas vemos que o descentramento estruturalista após o predomínio desse
funcionalismo "compreensivo" , se não impede o
recentramento da "globalização" neofascista de hoje em dia,
também está preso da mesma ambiguidade, até porque a psicanálise de Freud é um
dos cenários teóricos que surgiram naquele período. Lacan define o
falogocentrismo como a priori do gênero na linguagem, pressupondo assim que uma
liberação é possível a partir desse conhecimento, mas que liberação podemos esperar,
se o conteúdo do conhecimento implica a alienação da heterogeneidade da
cultura, a imposição do a priori a extratos sociais nos quais a agressividade
anal que realmente existe como desejo de dominação sobre a cultura a
partir de a prioris dicotômicos de primitivo e civilizado, não pode
ser demonstrada em termos de desejo/neurose de domínio ocidental -
devendo ao invés ser assimilado como "ciência do desenvolvimento"?
Resta a classificação como "infantil", "édipo incompleto",
etc., ou seja, inferiorização etnocêntrica da alteridade. Não importa o quanto
a "miscigenação"/ ocidentalização já tenha progredido na
margem, a ponto de países como o Brasil não terem cidades com registros de
cultura não-ocidental.
A relação do subdesenvolvimento econômico e imperialismo, é assim
abstraída para definir-se o subdesenvolvimento como estado psicossocial
inerente ao primitivo. E a neurose vai ao ponto sintomático da abstração
da história efetiva das relações intrínsecas entre revolução industrial e imperialismo,
para fabricarem-se as teorias do capitalismo ou revolução industrial como a
modernidade ou evolução psicossocial eurocêntrica.
§§§§§
Em "Foucault", Deleuze desenvolve, por meio do tema dos duplos, a
questão da Subjetivação que surge, como uma rubrica temática, tardiamente na
obra foucaultiana, após os focos no Saber e Poder.
A
duplicação subjetivante seria historicamente o acontecimento hautocrático
grego. Com efeito, em "O Uso dos Prazeres" Foucault assim
enuncia o deslocamento, a partir daquelas duas rubricas, que implica analisar o
sujeito: "estudar os jogos de verdade na relação de si para si e a
constituição de si mesmo como sujeito"; "pesquisar quais são
as formas e as modalidades da relação consigo através das quais o indivíduo se
constitui e se reconhece como sujeito".
Conforme Deleuze, antes a obra de Foucault seria uma teoria da História como
Acontecimento do Poder e este já sempre implicando a subjetivação, implica ser
ele mesmo uma duplicação originária do dentro e do Fora, que aqui
conceituaremos em termos do codificado/subjetivo e do código/Instituicional que
implica um verdadeiro Fora (com maiúscula) como exterioridade, ainda que
apenas pensável, talvez não historicamente viável para alguém atingir como
realidade totalmente extrínseca a si, do sistema cultural-legal.
Essa duplicação originária se reduplicaria, na concepção de Foucault
ainda conforme Deleuze, pelo lado do dentro (sujeito) na
alternativa entre abolição ou memória: a abolição /morte como possibilidade da
criação absoluta de uma resistência frente ao poder. Essa seria a opção dos
"homens infames", os condenados dos autos de justiça que os
historiadores podem reconstituir do seu anonimato de séculos. Linha de
resistência puramente subjetiva, mas ao mesmo tempo linha do Fora, na
apresentação de Deleuze. O que permite situar a lei como algo que para alguém é
absolutamente extrínseco.
Já a alternativa da memória absoluta é como a condensação dessa
possibilidade num ethos singular (Poder sobre o Soi que não havia antes,
que o sujeito inventa como sua experiência subjetivante) e que
permitiria virtualmente ser teoria ("princípio de regulação
interna"), mas com novo sentido em relação ao "saber"
reinvestível pelo Universal (sistema). Essa é a alternativa, porém, pelo
lado de dentro criado pelo poder, posto que obviamente ela só existe para o
sujeito e por ele. Reflete-se ou duplica-se imediatamente como
História, ainda assim, posto que o código - se é historicamente feito universal
institucionalizado local - expressa necessariamente a sua relação com os pontos
de Resistência, e a codificação tem que expressar sua realização como Vontade
de Vigiar e Punir.
Isso não está muito distante da ética transcendental que Lacan conceituou como
tendo sido sua intenção produzir. O a priori totalizante fálico, que
desdobra o suplemento não-total "mulheres" barrando o "a"
mulher por que a totalização é exclusiva fálica, coloca mais um terceiro e um
quarto termos, a aprovação e a reprovação "moral". Mas assim, e esse
problema atinge também a armação foucaultiana, seria cinicamente a mesma coisa
a reprovação da alteridade pelo nazista, que só o faz para eliminar os
que não são os seus iguais, e a nossa reprovação do nazismo como uma perversão
de cuja eliminação depende a sobrevivência das pessoas honestas que seriam
virtualmente suas vítimas, como na Segunda Guerra. A qualificação possível
restaria somente nos termos do que pudesse ser diagnosticado
"perversão" a partir da normalidade do édipo, mas a história
evidentemente não se mantém num limite tão estreito.
Como vimos, o psicanalista, frente a isso, bitola-se ainda mais
declarando não querer saber do que choca o seu a priori, mas as consequências
sociais tampouco lhe interessam, pois o seu é o público pagante do divã, etc.
Típico de todos os a prioris deterministas do ego geocapitalístico, ele
supõe que o seu seria o ideal, se os outros se adaptassem, que no fundo todos
quereriam e desejariam adaptar-se, não havendo nada que o surpreenda mais, não
obstante ele saber muito bem que a realidade não se conforma à sua bitola, que
constatar que não o desejam, que não o admiram, que o consideram um objeto de
nojo. Nem talvez ele consiga atingir o dado dessa informação, persistindo
na versão de que são apenas "resistências", etc .
Em todo caso, retornando ao exame de Foucault por Deleuze, a eliminação do
que resiste pelo poder, ou a reapropriação sistematizante
do Saber, é um dilema contornado pelo heautocrático grego que
corresponde ao espaço respirável do Político na perspectiva de Foucault a
propósito da Grécia Antiga. Não se trata nesse espaço, propriamente,
porém, da questão do sujeito - o que surpreende, obviamente, dado o que
precede. Como pensar-se a si, como compreender-se em si, como apreendeer
psicologicamente o Self? Não são esses os objetos da indagação, pois o dentro é
codificação e diferença. Mas somente do fora (com minúscula): como mudar
realmente os códigos, constituir no Real não apenas uma variação, mas um
singular que não obstante, teria que ser linguagem?
Ao que parece, Deleuze não supõs que Foucault o tenha resolvido de fato, pois
entre o início dese trecho sobre o duplo em Foucault, e a nota 36 de
"alguns regimes de signos" (Mille Plateaux), subsiste a expressão
comum "pontos de resistência"/"fenômenos de resistência",
que em Foucault, para Deleuze, seria essencial à construção do diagrama
esquematizante da máquina do Poder em cada front historicamente conceituável.
Mas o correlato dessa expressão sendo o que Deleuze-Guattari tencionam deslocar
criticamente, para constituir o desejo como implicado no agenciamento que
reposiciona o que Foucault havia designado diagrama. A terminologia do
agenciamento implica que em vez de articular-se aos pontos de resistência, toda
máquina implica linhas de fuga (devires, diferença) inerentes aos seus
elementos, sendo essenciais a estes, em vez de suas derivas deverem ser
reduzidas a reações contra um poder previamente existente. Aqui, portanto,
reencontramos a questão que tange ao conceito nietzschiano de ativo.
Mas assim é todo o plano conceitual que teria que se transformar, pois torna-se
necessário aquilo que Foucault podia deixar intocado, a teoria do sujeito que
extrapola a dobradura do Poder (Soi). Guattari-Deleuze procedem
então pelo viés da heceidade como teorização do sujeito na implicatura do
inconsciente maquínico. Foucault o podia dispensar porque nessse lugar
tratava-se, inversamente, da História e os a prioris de sua descontinuiudade. O
Mille Plateaux, como já vimos, justamente desloca o a priori histórico pela
noção de a priori semiótico. Ora, se não dizem que "fazem história",
não dizem que um povo inventa o regime de signos, mas somente que efetua num
certo momento o agenciamento correspondente a esse regime, então esse
agenciamento assegura o domínio desse regime "em certas condições
históricas", mas também em demais condições, por exemplo: teológicas,
amorosas, literárias, etc., conforme a listagem do texto.
Creio que se pode mostrar assim que a sobreposição de mapas, do povo e do
regime de signo, tampouco resolve a aporia, já que a pergunta sobre o porque do
Capitalismo na modernidade, no Anti-Edipo, se define histórica, a "questão
eminentemente contingente que os historiadores sabem pôr" .
Aparentemente temos aqui a chave da constituição teórica, posto que trata-se da
mesma resposta que no Mille Plateaux. Ela esclarece da preminência do
desejo na armação do inconsciente maquínico que, aliás, se é pós-foucaultiano
em intenção, devemos notar que numa conferência no Brasil, Foucault declarou
não entender, talvez como quem subentende que não era uma teoria bem
construída. O pivô da resposta era que os brasileiros da platéia não aceitavam
o caráter pós-psicanalítico da esquizoanálise, e ao que me parece, também
Foucault não o havia suposto exequível.
Em
Deleuze-Guattari, a preminência do desejo vem de que ele não se
define pelo código, não sendo a criação do Poder. Ressoando a exemplificação da
questão posta historicamente com Braudel, a propósito da origem do capitalismo,
aquilo que este sugere como o "mérito do ocidente" a saber, a "necessidade
do mundo, necessidade de partir", dado o bloqueio do Mediterrâneo,
pérola do etnocentrismo pois esse "mérito" é o do genocídio
indígena, que Deleuze-Gauttari suplementam sem mediação: "não há
viagem que não seja esquizofrênica (...)".
Ora, se "houve sempre desejos descodificados, desejos de
descodificação", e se na verdade "a história está cheia deles",
esses "fluxos descodificados só formam um desejo (...) pelo seu
encontro num lugar, pela sua conjunção num espaço (...)".
Dois
usos do termo "desejo"? Sînônimo e não-sinônimo de "fluxo"?
Manifestamente sim, mas poderíamos pensar que o que está sendo efetivamente
afirmado é que a "vontade de partir" como fluxo
descodificado dependeria dos encontros da viagem para transformar-se numa
conjunção, num desejo cujo conceito não se sabe como não seria
"código". Não obstante, Deleuze-Guattari o nomeiam uma
"produção", uma "empresa" no sentido apenas de alguma
ação socialmente legitimada ou socialmente possível.
Contudo, a fórmula fluxo /"conjunção"/ desejo, vai logo ser alterada
em relação a essa localização gerativa, pela restrição da empresa capitalista
unicamente, irredutível assim a "conexão" (selvagem) e à
"disjunção" (bárbaros). Só o capitalismo opera a
"conjunção" como a forma pura do desejo ("produção pela
produção").
Que isso escapa à leitura costumeira da dialética hegeliana em termos da tese
(conexão), antítese (disjunção) e síntese (conexão com
restrição/propriedade) é a meu ver complicado demonstrar, se não apenas
deixando de pressupor que alguma necessidade (espírito) conduziu da tese
à síntese. Mas é precisamente do espírito - tradução de
"inconsciente" - aquilo de que se trata em Deleuze-Guattari, e
tais são as três formas dele que também não se sabe como se iria driblar como
historicamente sucessivas desde que se trata de capitalismo e
"ocidente".
E espírito ou inconsciente, como aquilo de cuja natureza se pode explicar
as três variações sociais que são ao mesmo tempo subjetivas, ténicas e
econômicas.
Isso, contudo, conduz ao já até aí abandonado Édipo dos inícios do Anti-Édipo,
uma vez que formalizado o capitalismo como tendencial puramente fluxiva do
desejo que é por definição, não obstante as variações, "conjugação"
de fluxos, o capitalismo vai ser interpretado como o Édipo em pessoa.
Seria interessante aprofundar a temática das relações Deleuze-Gauttari,
especialmente por meio do caso Schreber. Em todo caso, a noção de desejo não
deve ser ressituada sobre o eixo da pulsão freudo-psicanalítica como
"energia pulsional indiferenciada", apesar do que se disse (no livro
sobre Deleuze da "trans") sobre a diferença da esquizoanálise frente
a Lacan ter sido esse resituamento. Mas resta a questão do fluxo, que eles
definem expressamente como libido.
A positividade da posição do inconsciente em termos de uma "confrontação direta
da produção desejante com a produção social, das formações sintomatológicas com
as formações coletivas" parece-me restringir-se ao segundo termo, a
sintomatologia. A inaplicabilidade do termo "direta" quanto às formas
de "produção" seria bem importante sublinhar como um pressuposto
inexplicável, já que o motivo dos "encontros" e da "conjugação"
de fluxos é circularmente o que produz e o que é produzido. O que eu situei
como a prioris da geo-egologia imperial-capitalista, tem por mediação a
tópica da alteridade da margem que se ressitua conforme a pressão da
visibilidade da sua heterogeneidade atinge um limiar de precipitação que
implica novos meios de assujeitamento, rearticulando-se o discurso da
ego-egologia sobre si mesma.
Não há uma contradição no Anti-Édipo, pelo fato de que se afirma ao mesmo tempo
uma teoria anti-psicanalítica assim como anti-capitalística, apresentando-se
como teoria materialista do inconsciente/produção, e se essencializa o desejo
pela forma da produção capitalista. Guattari-Deleuze acrescentam uma fórmula da
tendência contrariada, que em vez do lucro atinge a tendencial descodificadora
do capitalismo, posto que se ela não fosse contrariada conduziria ao
desfazimento de toda sociedade. O capitalismo é descodificação, mas também
reterritorialização, por geração de códigos impermanentes e artificiais. Assim
ele é a verdade do desejo, esquizofrenia como criação livre de sistemas
culturais, porém ele contraria a tendência para não abolir-se como socius, atuando
repressivamente por meio de reterritorializações codificadoras.
O que implica que para Deleuze-Guattari, a verdade do selvagem e do
bárbaro - aquele suposto flexível e não autoritário ao contrário do despotismo
"estatal" instituído deste - é a repressão por meio do código
cultural, precisamente o que o capitalismo desfaz sempre que invade um novo
meio social em seu afã de lucro por todo o planeta. Como podemos lidar com uma
crítica que se afirma marxista, mas que explicitamente equipara o desejo e o
capitalismo? Porém nisso, como temos repetido aqui, Deleuze-Guattari
não inovam. Desde o positivismo e o próprio Marx, o desenvolvimento no rumo da
verdade do ser é o horizonte do capitalismo, ainda que por uma via dialética
que passa de modo supostamente necessário pela antítese. O capitalismo restrito
a uma inteligibilidade única, exclusivamente ocidental, não é
dominação sem ser também o progresso, o único meio da libertação.
Na verdade, creio que há sim uma contradição insuperável, que corresponde ao
enunciado subjacente a toda a teoria deleuze-guattariana do inconsciente
maquínico, enunciado idêntico a todo princípio etnocentrado da teoria
moderno-ocidental: sua geo-egologia é natureza da mente, do homem, da evolução
e da história, ou seja, do desejo mesmo enquanto não se concebe que o
ocidente não seja o objeto do desejo da margem, ainda que de fato não o seja
necessariamente. E uma vez que a geo-egologia se estrutura pela redução da
história à peripécia do sujeito ocidental
(civilização-racionalização-modernização-cientifização-industrialização) a
qual fundaria a repetição virtual de toda história de margens, até
aqui (colonização, modernização) e por vir (desenvolvimento,
revolução). A contradição é pois a de um sujeito da história, como de
toda história possível, da humanidade universal, que protagoniza porém apenas a
sua história ocidental desde a Grécia antiga, unificada como um trajeto de
inteligibilidade intrínseca, autônoma.
Esse
esquema teve a vantagem de toda a modernidade como status
indeslocável da ciência moderno-ocidental como um critério evolutivo
psicossocial. Mas hoje sabemos que o desenvolvimentismo é
impossível globalmente devido ao limite ecológico; que a ciência-indústria
não é racionalidade, mas inviabilização progressiva das condições de vida pela
deterioração do meio ambiente; que a civilização ocidental não é o
liberalismo político mas a subsunção da margem à dominação do capitalismo
central; que essa dominação não se faz apenas por via da dependência
financeira/tecnológica como algo superável com o tempo mas por meio de uma
dominação cultural que implica senão o aliciamento que confirma a premissa do
ocidente ser o objeto do desejo da margem, a repressão do desejo que não o
confirma.
O
exame deleuziano da questão dos duplos em Foucault não chega a tematizar
explicitamente o duplo literário do romantismo, mas implicitamente parece que o
que se almeja é fornecer o que teria sido o pensamento foucaultiano a propósito
de toda temática relativa, como se houvesse unificação possível do antigo e do
moderno quanto a isso.
Assim, conforme Deleuze, no estudo sobre Foucault: "não é nunca o outro
que é um duplo, na reduplicação, sou eu que me vejo como o duplo do
outro...".
O que me
parece mais chamar a atenção na literatura do duplo romântica é que nunca vemos
pelos olhos do duplo, e sim sempre "com" o sujeito duplicado para
quem o fato da duplicação não acarreta qualquer correlato de ser explicável -
pode ser que ele o tenha para si como algo já explícito, ou não. Habitualmente
se trata isso como se sempre o duplo implicasse o horror do sujeito, mas quando
vemos o texto de Dostoiévski, pelo contrário, a princípio a vinda do duplo é um
lenitivo para o estado de absoluta alienação social do sujeito, e depois quando
o duplo se torna um problema porque relações de rivalidade se estabelecem, o assunto
estar duplicado - que é manifesto a todos, porque o duplo compartilha o seu
cotidiano do escritório como também funcionário - é ventilado com um outro
colega que não vê nisso nenhuma novidade: sua mãe também o fôra. Todo o texto
de Dostoiévski tem o ar de ser uma reificação do gênero, uma paródia dos duplos
que já existiam na literatura romântica como uma voga.
Em todo caso, o sujeito nunca se sente, ao menos nos textos que conheço, como
se ele fosse o duplo do outro, mas sempre ser duplicado ocorre inopinadamente,
e o outro que surge é que é o duplo do sujeito, por exemplo podendo ser o
reflexo do espelho que repentinamente se autonomiza - fugindo com a amante do
duplicado, que se faz inexplicavelmente fascinada pelo outro. Também pode
ser a sombra que se autonomiza, etc.
A
meu ver a complementaridade é que se torna assim inalienável para uma teoria do
Real refletido (espelhado) na História que é a do Romantismo, lembrando que
Lacan recusou essa palavra "complementar" para definir o estatuto das
mulheres - e do gozo feminino - como suplementar do gozo fálico, aqui
retomando o texto de que Cassin havia destacado as citações que vimos acima a
propósito desse tema. O Encore - aqui traduzido como "mais, ainda",
me parece bem conveniente a uma leitura de forma alguma sofística, mas
aristotélica de Lacan. Nesse texto efetivamente ele define por meio do motor
imóvel aristotélico, a sua concepção de gozo fálico e de suplemento (gozo
feminino, entretanto, que não pode ser dado como de A mulher, mas da função que
as mulheres preenchem parcial e sempre particularmente, em relação à única
Realidade do gozo fálico ou universal de O homem). O suplemento é o motor
imóvel da física aristotélica, como ele enuncia explicitamente. Tampouco uma
ética transcendental poderia ser, ao que me parece, atribuída como intenção á
sofística.
A física moderna,segundo Lacan, é um descentramento premido pelo Real, um
desfazimento da idealidade em que se movia a física aristotélica - não pelo
heliocentrismo, mas quando se descobre que as órbitas planetárias não são
círculos perfeitos, e sim elipses; mas essa ambiguidade permanece sempre na sua
teoria, pelo que por maior que seja a descentragem, a economia do gênero se
conserva. A manha anti-falogocêntrica é apenas um rodeio do espírito. Como já
assinalei, Lacan entende mal Hegel, supondo que para este todos são, sempre
serão, escravos.
Ora,
o que estou afirmando é que a complementaridade, já presente como
inteligibilidade dos duplos, é pensável, e corresponde ao conceito de
inconsciente romântico. A realização política é intersubjetividade, geração da
outridade possível como realização ética de nós mesmos, isto é, como nós
geramos a nossa recepção outrada, a nossa recepção pelos outros e na história.
Essa recepção não é imediatamente nós mesmos enquanto o sujeito das nossas
sensações. Somos exitosos quando nossa duplicidade não se afasta demais do que
realizamos, não nos distorce porquanto o que queríamos realizar não
correspondia à aceitação de nós por nós mesmos.
Tornou-se usual na atualidade,
opor narrativa e sistema. Mas na verdade, uma narrativa não é apenas a sucessão de fatos, mas algo
sistematizado como pressuposto de que a sucessão não é fortuita. A história
como ciência social no Romantismo ainda não está sistematizada como vai estar pelos a prioris sucessivos ou determinismos, narrativizantes
e assim não de fato científicos, desde o materialista sociológico do Realismo. Mas
todos os discursos deterministas manifestam como seu princípio a
consciência de que estão deslocando a história efetiva como pensável em si. Ela se
torna o efeito de uma "causalidade" estrutural.
Pensar historicamente sem a causalidade a priorística, como no
Romantismo em que a cultura em que a história se faz é ela mesma efetiva como intercessão estético-factual, implica a suposição revolucionária de que podemos pensar o
circunstancial, o que não é necessário, e que se manifesta ao menos a necessidade
de sua atualidade, então uma universalidade de outro Real está atuante, que não
a universalidade da atualização de um virtual previamente já aí. Esse modo de
pensar a história tem a ver com o fato de que a história que se estava tendo
que pensar era a das miscigenações e misturas culturais, não a de um sujeito
determinado "mesmo" a priori.
Por exemplo, é comum dizer-se que um dilema da dominação cultural na margem é
que a cultura da nação realmente vem da sua colonização, não se poderia
reduzi-la como se por um lado houvesse o verniz ocidental, por outro a
substância indígena, porquanto se trata de nações que nascem da colonização.
Mas o fato é que isso não implica que não haja dominação cultural no a priori
da ocidentalização, porque se esse nascimento é o da miscigenação, não o da
pureza racial, o encontro das culturas não precisava por qualquer necessidade
demonstrável ter sido feito como foi, pela dominação colonial.
O fato dos duplos corresponderem ao pensamento do Real romântico, não elide a
inverossimilhança como fator de construção do gênero literário dos duplos.
Pois, geralmente o que há aí é que o duplo não se apresenta como a realização
que foi querida pelo sujeito, e que ele endereça à história como o
hieróglifo da ideia construída por ele de si mesmo. Mas a que o
surpreende como a verdade do que ele realmente não é, ainda que seja a verdade
de tudo o que ele acreditou ter sido e estar sendo (rico, adúltero, soberbo,
etc.). Ora, ainda assim a ex-centricidade que é a desse sujeito
auto-enganado, "falhado", desviante ou faltoso, não ocorre
jamais ao duplo. Bem inversamente, o ex-centramento, a posição do ex-cêntrico é
o que efetua a duplicação sobre o duplicado.
Mas se a duplicação subentende o político, aquilo que queremos que a História
seja a partir de nós mesmos, na literatura dos duplos o político está mais
próximo da infâmia que da glória pública. O ex-cêntrico duplicado é inadequado
ao seu desejo, mas este é inadequado à história que o reverte como podendo
pertencer ao sujeito - é o desejo, não tanto o objeto,
que torna-se do outro que o
performatiza.
Assim também, podemos supor que a aporia do duplicado soasse não estranha,
apesar de ser inverossímil assim como encenada literariamente, à recepção da
época, e a inverossimilhança no Romantismo, não é evidentemente, que
fosse para ser recebida como o verossímil ou o normal, mas como uma
necessidade de verdade quando esta acarreta não mais qualquer acomodação
possível com o discurso do poder para esse "nós que nos chocamos contra
ele nas mais ínfimas verdades", conforme a expressão de Deleuze.
Como podemos lembrar, ainda que Deleuze não o demarque como fenômeno do
Romantismo, está havendo nessa época a revolução das premissas do antigo
regime, a pressão da surgência de uma experiência de si próprio como unicamente
sujeito de sua própria experiência,
não mais o correlato do grupo social ou do
estamento.
E o nacionalismo como projeto interno a toda reacomodação do político nessa
circunscrição "moderna", é uma posição do ex-cêntrico frente ao
classicismo dos impérios - lembrando também o processo contra Hoffman, movido
pelo oficial imperial, que podia certamente provar ter sido caricaturado num
dos textos dele. Hoffman inclusive utilizou documentação confidencial a que teve
acesso quando do seu serviço público prestado já como castigo por ter feito
caricaturas, desta vez pictórias, de pessoas da sociedade. Mas o caso desse
funcionário pelo que se sabe, corresponde ao horror de Hoffman a propósito da
perseguições políticas e das repressões que o império estava movendo contra os
movimentos nacionalistas. A situação beirava à guerra civil, pelo grau de ódio
e pelas atitudes radicais de parte a parte, dos dois lados da contenda.
Essa estranheza ou ex-centramento do sujeito e da nacionalidade é pois, ao
mesmo tempo o mais real e verdadeiro situamento histórico. E tal dialética
podemos reencontrar no melodrama romântico que estará influenciando a
vanguarda. Não obstante todas as extravagâncias e o mirabolante dos quadros,
sabe-se que tudo é marcado, que todas as situações se desenrolarão exatamente
como ordenado pelo gênero e esquematizado pela recepção que não perdoaria o
afastamento de um milímetro dessa pre-ordenação da estranheza: o culpado
punido, o par romântico realizado.
Tonando ao texto deleuziano, sendo construído em torno da alternativa que
vimos, entre abolição e memória, focalizando a abolição como alternativa dos
homens infames, toda a temática da obra foucaultiana se torna agora imbricada
por Deleuze a uma convergência de infâmia, estranheza e inverossimilhança.
E ao próprio Foucault, por alusão à introdução do Uso dos Prazeres, onde se
trata, para este, da sua pesquisa como filosofia, ou seja, "o
trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento", um "separar-se
de si mesmo" ou pensar de outro modo, o que Deleuze considerou uma "proposta
dilacerante", portanto beirando a infâmia, perigosamente aproximado à
opção pela abolição.
Apesar desse trecho de Foucault não aparentar qualquer conexão à infâmia ou
laceração, mas pelo contrário, ele expressar apenas estar concentrando nessa
proposta toda a aposta positiva do seu trabalho teórico, aqui é oportuno
focalizar o desenvolvimento deleuziano. O trecho ilustraria o que seria segundo
Deleuze uma trajetória, ou seja, ilustra sintomaticamente um limite
interno a Foucault que é o que Deleuze está se propondo demonstrar ter havido.
Em todo caso, nesse ponto Deleuze insere uma nota em que trata das teorias da
infâmia, expressamente teorias da inverossimilhança pelo modo como no texto as
duas coisas são tratadas como o mesmo: "Estranhamento,
inverossimilhança; é essa 'infâmia' que ele próprio [Foucault] reinvindicava
..." .
Deleuze apresenta três teorias.
A de Bataille é da infâmia notória. Tema corrente na psicanálise, como aqui
podemos notar pelo eco de Marcuse, citando Freud a propósito dos grandes
perversos que se tornam ídolos pela enormidade da sua monstruosidade: "como
se exercessem uma influência sedutora; como se, no fundo, uma secreta inveja
dos que as desfrutam [das perversões moralmente detestáveis] tivesse de ser
estrangulada". Mais reprimida do que inexistente, pois, essa inveja,
mas que isso seja assim universal é do que podemos duvidar. Em todo caso,
Deleluze o exemplifica com Gilles de Rais, e o classifica como "falsa infâmia".
O grande monstro perverso, afinal, está de certo modo glorificado pela sua
fama.
A de Borges é a teoria da infâmia esquemática. "Uma vida se torna
legendária porque a complexidade de sua trama, seus desvios e suas
descontinuidades só podem alcançar inteligibilidade mediante um relato capaz de
esgotar o possível...". A isso, contudo, Deleuze define como infâmia
barroca. Como se sabe, é corrente nos livros de Deleuze a identidade
Borges-Leibniz, assim como por outro lado, Nietzsche-Spinoza.
Então Deleuze define a teoria de Foucault. Não aparentada com as precedentes,
seria uma infâmia "de raridade ou escassez", a de homens obscuros,
simples, anônimos, que foram registrados como réus nos relatórios policiais.
Aqui me parece interessante dois movimentos a proceder. Por um deles, há a
minha crítica da identidade barroco-romantismo, sendo Borges aproximável a meu
ver à influência do segundo, não do primeiro. Cumpre, portanto, examinar a
teoria de Leibniz a propósito dos mundos possíveis. Por outro lado, devemos
examinar o texto de Vigiar e Punir onde se trata especificamente do trabalho
historiador cujo objeto são aqueles documentos - não apenas os relatórios sobre
os processos de infâmia, mas os registros da letra da legislação através de
períodos temporais longos, justamente o que poderia demonstrar, segundo
Foucault, a irredutibilidade das mentalidades da época do barroco ("época
clássica") e a contemporaneidade que se inicia com o Romantismo ("modernidade"),
sintomaticamente expressa na mudança notória da mentalidade penal.
6)
Porque Kant não desenvolve um pensamento histórico? Por que, ao tematizar a
história, e já num âmbito de novidade, pois até aí essa terminologia, a
história como objeto, não era filosófica, ele na verdade a elide enquanto locus
de qualquer inteligibilidade em si mesma? Que isso é assim pode-se afirmar
referenciando o "ponto obscuro" que Zingano, em seu estudo a
propósito da história em Kant, detectou como incontornável a apreender na
argumentação deste, quanto a essa temática que imbrica a história, a razão
prática e o problema do mal.
A história, mera contingência empírica em que se defrontam o mal radical dos
egoísmos, que significa nada mais que a ignorância de si como vontade
legisladora e autônoma. Portanto, contingência a ser suprassumida na própria
decorrência, quando toda a ignorância estiver removida pelo esgotamento das
possibilidades do mal, isto é, quanto o cosmopolitismo de uma constituição
universal for o correlato efetivo do alcance da maturidade da Razão pelo
homem.
A história, pois, não existe. Não é conceituável em si, o que é conceituável é
a razão prática. Ora, porque a razão prática não é ao mesmo tempo aquilo que
ela é? O mal tampouco existe em si. Não obstante, a razão prática, suposta
autônoma absolutamente, está sendo explicada na sua eficácia mesma através
daquilo que está fora dela, aquilo que não existe. Ponto obscuro, pois.
Assim procedendo o elidir da história, devemos notar, Kant se impede aceder à
contemporaneidade - ao contrário da opinião corrente desde Foucault, pelo que
ao definir o Aufklarung como relação de si ao presente, Kant teria definido o a
priori da "modernidade", ainda que já conforme o texto de As palavras
e as Coisas, para o mesmo Foucault o pensamento transcendental kantiano
não tivesse chegado à "reduplicação" que só se explicita
autenticamente com Hegel. Kant nesse texto, é explicitamente um limiar, um limite,
uma fronteira entre dois mundos historicamente irredutíveis.
Mas devemos lembrar que nesse texto ora produzido, de que o presente trecho é
integrante, já instalamos o problema da contemporaneidade. Ao mesmo tempo bem
delimitável conceitualmente como ruptura genética do Romantismo, o recalcamento
deste a partir do Realismo implica ou sua desinterpretação como subsumível a
Kant - as ambiguidades de Foucault quanto a isso podem ser rastreadas até mesmo
no próprio conteúdo de As palavras e as coisas - ou sua distorção
"compreensiva"/"fenomenológica". Com o pós-estruturalismo
não se poderia dizer que ainda não estamos nisso.
Não obstante, as linhas da ruptura se perpetuam provocando o deslizamento dos
fundamentos - os pressupostos teóricos - das negações e/ou distorções. Porque?
É que a conceituação da ruptura implica também um seu critério, a estruturação
geopolítica que não define o capitalismo sem que este deixe de ser
relativo, como discurso de centralidade, ao seu Outro que não é Outro senão
na vigencia torpe daquele discurso. Ou discursos, todos tendo por objetivo
a redução desse objeto, Outridade, ao caráter necessário - pelo ser assim das
palavras e/ou das coisas - de um suplemento. Ao mesmo tempo o que explica, por
ser origem e anterioridade; e o que é explicado por ser a pré-condição de
seu póprio ultrapassamento nesse discurso da centralidade do
Sujeito da discursividade no Centro.
Então o que define a ruptura como o posto ao pensamento pela transformação
geopolítica do espaço humano, a saber, a História como ciência social cujo
elemento não reduzido e como vemos hoje de fato não redutível, é a
heterogeneidade da cultura em que vem à ação os agentes (sujeitos humanos). Todas as reduções subsequentes ao Romantismo, movidas pelas mudanças
intrínsecas àquilo que o capitalismo é, a assimetria internacional como
dominação sócio/econômica/cultural das "margens" (terceiro mundo)
estão presas desse laço da insuficiência, da pequenez do discurso sobre a
vastidão do que se arvora ter reduzido. Sintomático que cada vez mais
levianamente, como Lacan postulando a apoditicidade da dicotomia mais
estereotipada de gênero, na base de alguns trocadilhos de sílabas como no
L'Etourdit - d, i, t, o - o que nem teve desenvolvimento: "Que
se diga fica esquecido detrás do que se diz no que se ouve"; d'eux/deux;
âme/aime; etc.
Mas não era já sob um princípio da razão fútil - sob o mito prontamente
inventado que ainda assim pretendia estar zombando da retórica de Progágoras
porque em vez de mero recurso, era a verdade disponibilizada - que Platão
instituía a Metafísica?
Porque se trata da razão fútil quando é para instrumentalizar um classicismo,
um ser assim de toda alteridade que alguém sentado numa cadeira servido por um
punhado de fórmulas se arroga, sem precisar ter visto ou ouvido, para enunciar,
se o tal é o Sujeito privilegiado da natureza que a fórmula enuncia. A Razão
c'est moi.
A razão fútil que nem pode dar-se o ver e o ouvir.
Mas basta cada vez menos.
Os deslizamentos: as vanguardas (Jarry, poeta hugoano; Artaud, vulgo Usher;
Baudelaire, Rimbaud; dos nacionalismos aos primitivismos, etc.); os problemas
(as humanities; a alteridade; a história; a cultura; o sujeito; o inconsciente;
a imaginação; a inverossimilhança; os códigos e os sistemas; a linguagem; a
ficcionalidade; etc.). Nada disso está viabilizado apreender na sua
problemática, pelos a prioris deterministas/reducionistas que se seguiram como
recalcamento do Romantismo.
Todo classicismo impede o desenvolvimento dessas questões, mas como vigentes
relativamente à contemporaneidade, quando a alteridade não pode mais ser
abstraída ou subsumida a um nome, um estereótipo, uma fantasia - perversão - do
Centro, elas enxameiam.
E isso como expressão das margens (terceiro mundo) e marginalizados
(ex-cêntricos).
A polêmica que vimos interna ao pós-estruturalismo, como modos de interpretação
de Nietzsche enquanto resituado nessa atualidade, por recalcamento do
Romantismo, em termos de pioneiro pensador da "potência", a ação
não-aristotelicamente redutível à Noesis (intelecção), é um exemplo de questão
efetivamente histórica. Reativo ou Ativo, que é o ex-cêntrico? Que é o agente
da movência histórico-política?
Mas me parece bem óbvio que a alternativa restou centrada, ou seja, cega como
uma dicotomia. Pensar uma real interlocução implica que a ação na história é
entreimplicação do heterogêneo, não apenas ação ou apenas reação. O preso
e o perseguido políticos - como costuma ser o intelectual da margem sob os
sórdidos regimes de força testas de ferro do Imperialismo - o é por sua ação,
sua criação conceitual, mas é evidente que a temática de sua biografia e
estratégias de resistência se tornará integrante de sua produção. Nem começou
ele a pensar do nada.
Se o que produz é ou não premido pela letra dos gêneros "pensamento
ocidental", não elide estar na linguagem. Em todo caso, aqui não procedo a
condenção objetificadora sumária dos intelectuais do "centro", assim
como se tudo o que fizessem eles fosse a condenação sumária do cidadão de
margens. Procedo a análise do discurso da cultura pelo que dela sou afetada, sem
pressupor que "discurso" seja sinônimo de inteligência, ou o
correlato de uma consciência universal na totalidade e a priori
auto-esclarecida para si e de suas intenções. Assim, quanto à linguagem, sofro
do mesmo problema do rodeio interminável que Lacan afirmou ter sido o seu. Aqui
estou tentando desenvolver os tópicos: da imbricação de Leibniz e Kant à
emergência do sujeito e história na chave romântica dos duplos e do problema do
mal, como propedêutica ao exame dos temas já propostos
encaminhados. Mas, como se vê...
Retomando a questão da história em Kant, a abstração do histórico quando já é
conceituável este, assinala o limite estrutural do classicismo. Essa questão do
limite, de como ele pode ser estruturante, é uma das expressões de que a contemporaneidade
está implicada em todos os seus recalcamentos deterministas-reducionistas, de
forma que estes já não seriam correlatos de uma "theory", mas as
variações de uma Prosa Aporética - que poderia ser o título deste escrito.
Vejamos como esse problema do limite estruturante está bem delimitável em
Wittgenstein, na corrência das proposições do trecho 5 do Tratactus:
"O sujeito não pertence ao mundo porque é um limite do mundo".
A
proposição está assim articulando orações independentes como se fossem
interligáveis:
a) O sujeito não pertence ao mundo;
b) O
sujeito é um (o ? ) limite do mundo.
Como e em que elas o seriam (interligáveis)? Tudo o que podemos obter é uma
conclusão a partir delas, se já nos demos a ambas como partes de um
pretenso raciocínio assinalado como tal pela conjunção (porque):
c) O limite do mundo não pertence ao mundo.
Não creio que se possa tratar a conclusão ou o raciocínio como objetos de uma
pretensão de serem, estes tal como expressos assim, verdadeiros. O que vem
antes é a construção do gênero "raciocínio". Se desfizermos sua
propriedade, descontruímos o seu critério, mas não a sua construção genérica.
Para si, trata-se de um raciocínio, não de uma pretensão de sê-lo, ainda que
seu critério seja pretenso, ou seja, não sinônimo de "pretendido",
mas sim de "falso" ou "hipotético".
Ora, pretender que seu enunciado seja verdadeiro como a priori de linguagem,
todos sabem ser um conceito habbermasiano não equivalente a estar sustentando a
hipótese de o ser. Inversamente, implica estar-se afirmando que é, ainda que os
outros sejam os destinatários dessa afirmação, portanto, nem necessariamente os
que o pretendem, nem seus fiadores.
A oposição do próprio Wittgensteins das Investigações Filosóficas (664), entre
as gramáticas profunda e superficial de uma palavra, e sua indução a
constrastarmos o que captamos pelo ouvido como a palavra
"intencionar", como a sua aplicação "na construção da
frase", com o que sua gramática profunda induziria a conjeturar,
implicaria em achar-se "difícil saber-se onde se está".
Intencionar, pretender, podemos ajuntar, eis os termos cuja profundidade
consiste numa vagueza bem contrastante com a concretude e nitidez do signo.
O limite de algo está fora desse algo implica, porém, naquele contexto do
Tratactus, que o limite não existe. Trecho em que se nega, como artigo de
metafísica, o Sujeito.
Juntando-se os parágrafos, temos o trecho:
" O sujeito pensante não existe. Se eu escrevesse um livro 'O mundo como
eu o encontrei' então teria que relatar também o meu corpo e dizer quais dos
membros se submetem à minha vontade e quais não se submetem, etc; isto é um
método de isolar o sujeito ou antes de mostrar que num sentido importante o
sujeito não existe; só dele é que não se podia falar neste livro. O sujeito não
pertence ao mundo mas é um limite do mundo. Onde encontrar no mundo um sujeito
metafísico? Tu dirás que se passa aqui o mesmo do que se passa com o olho e o
campo visual. Mas o olho não o vês de fato. E nada no campo visual permite
inferir que é visto por um olho."
Em seguida temos o desenho de um olho ao lado do qual, como se estivesse à sua
frente ou a ele correspondesse, uma forma elipsóide, isso para demonstrar-se
que não se segue que o campo visual corresponda ao olho como essa forma
elipsóide. O mundo nada se parece com o olho que o vê.
Aqui interessa constrastar esse trecho, cuja construção articula a nitidez de
uma informação evidente, mas cuja leitura só cede um enigma crescente, pois se
o olho/sujeito não existe, ele existe como o limite que não existe de um mundo
somente visto, com a proposição de Kant a propósito do Sujeito,
assim como citada em Abbagnano (Dicionário de Filosofia; verbete
"Sujeito").
" Para o eu ou o ele ou o aquilo (a coisa) que pensa, não nos
representamos senão um Sujeito transcendental dos pensamentos, = se que não é
conhecido senão através dos pensamentos que são seus predicados e de que, fora
destes, não podemos ter o menor conceito".
Para Abbagnano, as definições
de Sujeito desses dois pensadores, estão na mesma partição de não
significarem apenas o sujeito linguístico ou a que se atribui as qualidade ou
determinações de que se fala. Estão, pois, sob a rubrica do segundo significado
do termo, como "eu" ou consciência ou capacidade de inciativa em geral. Esse
segundo significado foi introduzido com o criticismo kantiano. Mas
obviamente, é o que está sendo negado por Wittgenstein. Entre Kant e
Wittgenstein, Abbagnano posicionou o pós-kantismo, que aqui estou tratando
como "romanticismo" em filosofia,
Fichte, Schelling e Hegel , Schopenhauer e o idealismo
italiano (Gentile, Croce).
Todo esse interregno é reduzido a nada mais que "pesada mitologia"
de que há "poucos sinais no resto da filosofia contemporânea",
do neocriticismo ao empirismo de Mach, às proposição de Wittgenstein, Santayana
e N. Hartman, onde o Sujeito ficou negado por ter sido funcionalizado por sua
correlação ao objeto, uma função de "imagem, representação do
conhecimento do objeto", na expressão deste último. Chega-se, dessa
alternância ambígua - inexistente e/ou (como) apenas função - a Husserl e
Heidegger, que permanecem subsumindo-o funcionalmente, mas tematizando as leis
que o tornam funcional objetivamente.
O que está sendo negado, portanto, ficou também ambíguo no verbete.
Nominalmente, ser uma função significa "não ser uma substância ou uma
força criadora". O pivô aqui é a história. Pois a
"mitologia" romanticista implicava ser o sujeito exatamente essa criação agente
historicamente. O ápice da negação se atinge em Husserl, portanto, quando ele
afirma que "o ego se constitui por si mesmo na unidade de uma
história", onde serão contidos todos os objetos que existem para o ego,
mas ressaltando-se que " o sistema das constituições, em virtude das quais
tais objetos existem para o ego, não são possíveis senão no quadro de leis
genéticas".
A
ambiguidade do verbete se enuncia, pois não sabemos se o fato de que "a
tradição pós-kantiana prende-se exclusivamente a este segundo significado"
que foi o especificado pelo criticismo kantiano, para Abbagnano implica a este
na mitologia do sujeito a negar-se posteriormente, ou não, isto é, o negado é
só o pós-kantismo. Mas em todo caso, o importante é notar como de sujeito
agente da história, este veio a ser reduzido à função enquanto produzido de uma
história (a sua enquanto correlação aos seus objetos). A psicanálise fica
nisso, do mesmo modo.
O que ocorre aí? É que subsumir o sentido da subjetividade agente na história,
nas várias e na verdade irredutíveis acepções em que essa agência foi
interpretada depois de Kant e antes da viragem funcionalista, ao próprio Kant
onde nada da definição do sujeito (que é feita na crítica da Razão
Pura ) é tratada em conexão com a história, esta que se
tangencia somente no exame da Razão Prática, implica abstrair toda
problemática inerente à questão do Sujeito no pós-kantismo, onde não se pode
abstrair a conexão com o problema da história, no desenvolvimento do
conceito.
A meu ver, não há diferença essencial entre as proposições de Kant e de
Wittgenstein, exceto que para Kant tratava-se de enunciar o que está construído
como evidência pura - não só no sentido conceitual, mas como seria o
senso-comum em que a proposição parece enraizar-se; enquanto Wittgenstein
acrescenta algo mais, o corpo e a oposição de voluntário e involuntário
importante às relações eu/mundo ou a que se reduziria a categoria do
"encontro" do mundo pelo eu. Essa categoria com seus constituintes
ressoa, ainda que não para um mesmo a priori noético, com as generalidades
apodíticas de Husserl, que implicam a pura funcionalidade objetiva como
situamento egológico.
O curioso aqui é que essa oposição de voluntário e
involuntário inerente à posição pioneira do organismo como não
descartável ao pensamento do Real, é justamente o que no Romantismo, como
explicitamente na psicologia de Biran, torna o Sujeito demonstrável
como agente, como sujeito da ação.
O sujeito é o que age para lá da oposição, mas não do que ela implica ao
seu agir. Ora, nesse ínterim tudo o que era por outro lado, inerente à
história, cultura e sociedade, foi também funcionalizado/estruturado em regiões
autônomas do Saber (sociologia, antropologia) a que doravante, a história como
ciência social foi subsumida como efeito. É a agência, portanto, o que ficou
impensável desde o Realismo, e se o pós-positivismo implicou, como assinalamos,
a impossibilidade de meramente lançar mão dos antigo sensualismo condillaciano
(aufklarung), reformulando-o pelo associacionismo empirista, de um forma ou de
outra, para positivistas ou pós-positivistas, a conexão estava perdida. Foi dada
como refutada. Mas na verdade a refutação nunca pode ser demonstrada, porquanto
o a priori epistêmico é outro.
Um
tanto inopinadamente estamos no coração dos tópicos de que se trata na
condução do nosso assunto. Vejamos a definição do Sujeito hegeliano:
" A substância viva é o ser o qual é na verdade Sujeito ou, o que
dá na mesma, é o ser que na verdade é efetual, mas somente na medida em que é a
mediação do vir a ser outro de si consigo mesma."
Então,
do nada apreensível para si, mas que suporta a identidade de toda
objetividade para lá do em si, como no kantismo, o sujeito veio à
alteridade de si. Que não podemos subsumir os pós-kantianos àquela
proposição da Crítica da Razão Pura, vemos por isso que esta enuncia uma
experiência em que só o idêntico é, ainda que sua novidade tenha sido que a
experiência é o idêntico ele mesmo, não o que se precisa explicar como se
torna identificável. Mas os pós-kantianos enunciaram uma experiência de
outro teor, como na "doutrina da ciência" de Fichte, a saber, a
experiência de pensar-se a si mesmo. Quando pensamos que somos nós que
estamos pensando seja lá qual for o objeto outro do nosso pensamento,
o eu pensado é ou não o mesmo que o eu pensante, se quanto a este, já está
transcendentalmente instituído como toda faculdade de pensar?
Aproximando agora, as coisas nesse ponto quanto ao sujeito, o problema da
história nascente como ciência social, vemos que ela coloca com os Românticos
e sua temática dos duplos, uma questão estritamente homóloga.
Isso podemos demonstrar, justamente, elegendo Leibniz, que introduziu na
história da filosofia, segundo Deleuze, a "noção individual"
definindo pioneiramente, enquanto uma essência pensável, o sujeito, ainda que
somente enquanto portando um atributo de sua ação na História (César
atravessou o Rubicão; Adão pecou), isto é, para Leibniz como para todo
classicismo, na contingência absoluta, como
referência. Pois, seu desenvolvimento conceitual em torno do possível
e do com-possível, é de forma semelhante ao kantismo, uma explicação da
razão na história. Mas Leibniz não diz "história" e sim
"mundo". Não se discerne, para as questões de contingência e
necessidade, liberdade e determinismo, mal e providência divina, nada
dentro de uma mesma aparência do "dado".
Como alguém já sugeriu inversamente a Deleuze, o pós-modernismo e sua
"poética" seriam uma proposta irredutível a Leibniz porque nela,
basta que algum mundo seja possível para que todos os outros também o sejam
univocamente, isto é, não subsiste o critério do melhor entre os possíveis,
sendo o melhor aquele cuja compossibilidade intrínseca assegura o máximo de bem
e o mínimo de mal que, conforme o argumento de Leibniz, implica o esperável do
sujeito dessa escolha dos mundos, a saber, Deus, racionalidade absoluta e que
só poderia querer o nosso bem.
É notória a ambiguidade desses argumentos leibnizianos, que almejam nada menos
que, em sendo assim, justificar do mesmo modo a liberdade do ser humano.
A meu ver, em todo caso, não compreendemos a contemporaneidade se não visarmos
sua profunda - mas não vaga - crítica à clássica unidade do ideal e do real, ou
seja, entre necessidade lógica e necessidade moral. Aqui é preciso deter-se com
um certo vagar, pois de fato Leibniz não procede sem ter construído conceitualmente
a questão, em função da qual ele instala a sua assim
pressuposta justificável unidade.
Conforme Leibniz, na apresentação de Vergez/Huisman ("História dos
filósofos"), "nada é necesário quando seu oposto é possível".
Portanto, não se poderia discernir entre todos os mundos possíveis, definidos
como contextos de ações em função dos agentes, ou seja, não se poderia
discernir entre um mundo em que Adão peca e um mundo em que ele não peca,
nenhum critério do melhor ou do necessário, já que os acontecimentos que povoam
o mundo, como a ditadura de Cesar, são tais que seu oposto não implica a
contradição, sendo perfeitamente pensável Cesar não-ditador.
Isso é o que não se verifica para uma verdade lógica ou geométrica, cujo
oposto é contraditório nesse sentido de impensável. Não podemos pensar um
quadrado que não tenha quatro lados iguais.
Assim, no caso dos mundos, que hoje chamaríamos históricos, possíveis, suas
verdades são contingentes. E no caso da lógica ou da geometria, inversamente,
suas verdades são necessárias.
Então Leibniz constroi sua questão, que a meu ver podemos enunciar do seguinte
modo: se é tão certo que dois mais três são cinco, quanto que Cesar foi
ditador, como solver o problema da contingência, de modo também a
não considerar que os atos humanos são pre-determinados, mas sim continuando a
pensar como normalmente se faz, que eles são deliberados?
Leibniz deduz que o certo é atribuível à vontade de Deus como causa, mas não de
modo voluntarista, e sim essa vontade sendo regida pelo seu próprio decreto que
é fazer o mais perfeito - assim como mais tarde, a razão kantiana é
conceituada autônoma, e não heterônoma, isto é, para kant, que ela é livre
e não determinada pelo alheio, por ser regida por seu próprio princípio
interno.
É a noção de "mundo" que limita o pensamento clásico, assim como
podemos notar que se Kant tematiza a história, é o mundo aquilo a que ele chega
como o que está todo o tempo subjacente à aparência da movência que é a
história como contingência.
Se o mundo não seria já necessário como a forma ideal platônico-aristotélica,
que abstrai o devir ou o reduz à potência dessa idealidade do ser, nos
classicismos dos séculos XVII e XVIII, ele permanece certo e por isso único,
não obstante a infinitização do possível.
Ora, na contemporaneidade, é essa noção de mundo como unidade que se
problematiza. É interessante que tenha sido Kant quem tenha destituído o
conceito de mundo genérico como dotado de sentido. Seria uma confusão, não um
"cosmos". Mas na verdade, a objetividade fenomênica guarda a proporção
da comensurabilidade totalizante da experiência, justamente possível. Isto é,
não obstante Kant já estar num problemático limiar, como vimos, a sua filosofia
ainda é emblemática da pertinência de um problema que a contemporaneidade não
pode mais colocar do mesmo modo, o da subsunção dos possíveis ao a priori.
Mesmo quando se tratar do positivismo ou do funcionalismo, o a priori não deve
mais impedir que se postule a alteridade, o outro possível, mas sim permitir
que se o encadeie evolutivamente. Recursivamente, a história narrativizada
pelos esquematismos deterministas/evolutivos, não é a renormalização ideal, e
sim justamente histórica. O ocidente não é o telos por uma teleo-logia, mas
porque historicamente, ele é a evolução do Saber, etc.
A demonstração de Leibniz é que se torna interessante nesse ponto. Sexto
Tarquínio é o personagem mau. Sexto não tem uma natureza, ele é pensável
a-subjetivamente na sua forma física, meramente o devir, por um lado, ou a
determinação cega da matéria, por outro lado. Por isso, não se fala ainda aí de
organismo, no sentido biológico que se tornou referencial à
contemporaneidade desde a época do Romantismo, como por exemplo, o que não se pode abstrair de certos
processos antes supostos puramente intelectivos. Mas quando se
trata de Sexto como o sujeito do seu ato (violentar a mulher do amigo), não é
mais Sexto o pensável, e sim o critério que o levou a cometê-lo.
A paixão de Sexto é uma possibilidade desse real heterogêneo, do político, o
qual está sendo abstraído no momento mesmo em que é figurado na forma dos
quadros sucessivos que povoam, cada um deles, um dos apartamentos integrantes
do imenso e esplendoroso "palácio dos destinos", em que Teodoro é
introduzido pela deusa Atená, cuja aparência majestosa ele só pode suportar ver
pelo dom da deusa ela mesma. Esse palácio é uma possibilidade geométrica, como
a linha a que os geômetras chamam "lugar", linha onde vão cair uma
infinidade de pontos cujas condições exigidas não são
suficientemente determinantes deles. Eis cada mundo, um ponto em que
um só acontecimento (condição) difere daquele que integra os
acontecimentos do que então se torna um outro mundo.
Em cada imagem, Teodoro vê um Sexto diferente. Um Sexto feliz, um Sexto
realizado, um Sexto inocente, etc. Mas ao contemplar o mundo em que Sexto
comete o seu pecado, aquele onde Sexto é mal, Teodoro já está necessitado de
novo auxílio da deusa para manter suas faculdades perceptivas, dado o grau
superlativo, em relação a tudo já visto, do esplendor e majestade do visível.
Não há como negar, assim, nem há qualquer papel para argumentar: este
mundo em que Sexto é mal, é o melhor e mais perfeito mundo
possível. Ordenados em pirâmide, os apartamentos vem a esse ápice, e "tornavam-se
sempre mais belos" aproximando-se o vértice em que se
posiciona "o mais belo dos mundos", este nosso, o Real.
O
mundo, criação/escolha de Deus, é eterno, como tudo o que nele está
contido. Atená explica então, o liame da liberdade entre a contingência e
a necessidade: "Vede que meu pai não fez Sexto mau; ele o era
desde a eternidade, ele o era livremente".
Deus criou o mundo, mas o mundo são as regras dos com-possíveis nele, sua
harmonia pré-estabelecida. Podemos interpretar a
"liberdade" como a real contingência do particular. Mas o
notável em Leibniz é que a "noção individual" de fato nos permite
pensar somente o que não é o particular. Trata-se apenas da inerência certa,
do ato ao indivíduo. Como o ato aristotélico, a agência é abstraída, é o
caráter do impensável que significa apenas o que não tem a forma do conceito, o
que é apenas potência do vir a ser, o devir. Nesse caráter, está o particular
na sua deliberação - faço, ou não faço? Faço isto, ou aquilo? Ele é posto ao
pensamento, mas permanece sem inerência a este. O pensável é o ato que inere ao
indivíduo uma vez feito, encadeável na ordem da certitude dos fatos reportáveis
ao mundo dado.
Ao mesmo tempo, o ato é o feito de uma liberdade que deverá fazê-lo.
Então, o caráter pensável do ato se comunica ao caráter atribuível do indivíduo
(mau; bom). Mas esse caráter não é do indivíduo sem ser a regra da
compossibilidade do mundo. A infinitização do possível reinserida na
hesitação verossímil do particular nunca afeta a economia do universal, nunca o
particular é o problematizável no ambito da questão do universal.Não
importa o que ocorre aos elefantes dependendo do que se fale deles - como
expressará Lacan. Só se pensa o que se fala.
Em contraste a esse belo trecho leibniziano do "palácio dos
destinos", o estudo de Foucault sobre as transformações históricas da
mentalidade penal pode ser muito oportunamente referenciado.
Foucault
trata, a meu ver, um dilema entre o castigo e o controle como alternativas
historicamente viabilizadas entre o período clássico e o contemporâneo. Assim,
já o período clássico, a mentalidade do castigo, não deve ser suposta como algo
generalizável de toda anterioridade ao contemporâneo, mas há aí uma
ambiguidade, como se pode notar ao aproximar Vigiar e Punir do que se volta a
falar sobre esse assunto na História da Sexualidade ("A vontade de Saber)".
Mais ainda na "História da Loucura" e em "As palavras e as
coisas" tratou-se de acentuar a irredutibilidade do período clássico em
relação a toda precedência e à contemporaneidade ("modernidade") que
lhe é imediatamente posterior do ponto de vista cronológico. Mas há sempre uma
comunicação do clássico à sua precedência, quando se trata de visar a
irredutibilidade da contemporaneidade, onde a sociedade capitalista acresce
todo pormenor de originalidade postulável. Então o clássico, ainda que
conceituável como um domínio próprio, ressoa todo o pensamento antigo em
contraste exemplar com todo o pensamento "moderno" (contemporâneo,
século XIX até a atualidade).
Nesse trecho que estamos visando agora (Vigiar e Punir, "ilegalidade e
delinqüência") trata-se da transição do clássico ao contemporâneo, da
mentalidade do castigo para a do controle. Na verdade, o texto se resolveu ao
longo do percurso como uma "história do encarceramento" ou da
integração da detenção aos esquemas punitivos anteriores, aqueles que são o típico do clássico
definido, em termos de a priori histórico como o período da "grande
internação" ou "sociedade de exclusão". O encarceramento(prisão) é o meio de ocultamento daquilo que se apresenta (à
mentalidade da época clássica) já Fora da racionalidade, do pensável e do
previsível intra-mundano.
Mas nesse ponto está ocorrendo a crítica da prisão na acepção clássica de expulsão radical da sociedade, sua denunciação
"como o grande fracasso da justiça penal", o que é coerente com a
transição geral à mentalidade da modernidade que é disciplinar, onde o
controle se faz pelo princípio interno aos comportamentos, e a regra é portanto
manter tudo à vista todo o tempo. O termo "prisão" nesse sentido do "internamento" clássico, se opõe a "penitenciária", esta que só começa a existir na modernidade.
Nessa altura estamos em pleno Romantismo, precisamente entre 1820 e 1845 na referência de Foucault ao momento em que se inicia a crítica da internação, exclusão ou encarceramento como princípio punitivo. As prisões, raciocina-se agora, eram "quartéis do crime" (Faucher), nelas prolifera a delinquência, inversamente a eliminá-la, e principalmente elas favorecem a reincidência.
Nessa altura estamos em pleno Romantismo, precisamente entre 1820 e 1845 na referência de Foucault ao momento em que se inicia a crítica da internação, exclusão ou encarceramento como princípio punitivo. As prisões, raciocina-se agora, eram "quartéis do crime" (Faucher), nelas prolifera a delinquência, inversamente a eliminá-la, e principalmente elas favorecem a reincidência.
Há vários itens que integram a crítica à prisão e à mentalidade do banimento
por reclusão punitiva, que não seriam interessantes examinar aqui, mas sim que
uma forma transicional adotada nessa época, segundo Foucault, entre portanto a
prisão da época clássica e a organização penitenciária disciplinar cujo
princípio não é punitivo, mas corretivo (educativo/reintegrativo), é a
"última corrente" - traduzo por esse termo o sentido antigo de "cadeia", quando os presos ficavam efetivamente acorrentados. Trata-se nessa referência de Foucault, de uma forma ambulante de prisão, onde os
condenados eram acorrentados a veículos que cruzavam os territórios provinciais.
Aparentemente, apenas finalizando o antigo regime, epitomizando assim o que o havia
demarcado, quando o rigor das penas induzia, antes de resultarem na reclusão,
ao espetáculo público do suplício pelo que a externalidade ao normal
correlato da ocultação atrás dos muros do encarceramento, começava na exibição
do infame ao seu castigo físico.
Também ao percorrer os limites de uma cidadezinha, na carruagem
dos condenados "há um pouco dos ritos do bode expiatório que é surrado
ao ser banido, um pouco da festa dos loucos onde se pratica a inversão dos
papeis, uma parte das velhas cerimônias de cadafalso onde a verdade deve
brilhar em plena luz do dia, uma parte também daqueles espetáculos populares,
onde se vêm reconhecer os personagens famosos ou os tipos tradicionais: jogo da
verdade e da infâmia, desfile da notoriedade e da vergonha, invectivas contra
os culpados que se desmascaram, e, por outro lado, alegre confissão dos
crimes".
Mas há aí uma participação mútua, da sociedade que invectiva os passantes que,
inversamente, festejam o seu trânsito. Não há dúvida, a meu ver, que Foucault
reserva uma tópica para a injustiça penal. O marginal e o (injustamente)
marginalizado estão lado a lado, sob o mesmo regime, sob o mesmo pretexto, sob
a mesma condenação. O clássico é a impossibilidade da triagem, do que é apenas
anormal e do que é verdadeiramente ameaçador. Além disso, é a desmesura do peso
dos castigos, em relação a todo delito pensável: "o teatro piedoso
imaginado pelas folhas volantes, e onde o condenado exortava a multidão a nunca
imitá-lo", mas em coro, coletivamente, cantava a sua afirmação de
vaidade em que diziam "acorrentemos os prazeres com o tempo. Sob
os ferrolhos nascerão dias de festa... Os prazeres são fugitivos. Fugirão do
carrasco, seguirão as canções", esse teatro "está se tornando
uma cena ameaçadoraa onde a multidão é obrigada a escoher entre a barbárie dos
carrascos, a injustiça dos juízes ...".
Em
todo caso, os condenados se enfeitam, se enguirlandam com ervas colhidas no
caminho, se mostram orgulhosos de suas cadeias, se exibem decisivamente, à
platéia que os vê passar. A infâmia misturada à glória: os jornais enunciam os
nomes previstos no cortejo a vir, panfletos contam as histórias do que fizeram,
o povo vem contemplar, vem reconhecer.
Os condenados exibem suas tatuagens, orgulham-se a altos brados, "representam
em gestos a cena de seu crime, debocham dos juízes ou da polícia, gabam-se de
malfeitos que não foram descobertos. " Como se pode imaginar, "a
grande feira ambulante do crime... o sabá dos condenados... tinha seus truões e suas máscaras, onde a afirmação cômica da
verdade respondia à curiosidade e às invectivas"
O trecho interessante, por seu contraste a Leibniz e sua
pertinência ao tema dos duplos, é o destaque de Foucault para um desses
condenados, o padre Delacollonge, a quem "ao seu crime (ele cortara em
pedaços a amante grávida) sua qualidade de sacerdote dera muita ostentação;
permitira-lhe escapar do cadafalso. Parece que foi perseguido por um grande
ódio popular."
Como a multidão, especialmente
as mulheres em alguns lugares, mostravam-se incontroláveis, presas de fúria ao
seu trânsito, mandaram que trocasse de roupa. "Alguns espectadores
enganados pensam reconhecê-lo em François que, de brincadeira, aceita o papel"
que há pouco Foucault explicava ser um dos condenados que mais se vangloriavam perante a
multidão.
Com efeito, François se diverte com ser o duplo do padre Delacollonge:
"mas à comédia do crime que não cometeu, ele acrescenta a do padre que não
é; ao relato de 'seu' crime, mistura orações e grandes gestos de benção
dirigidos à multidão que o invectiva e ri". Tudo isso é recontado por
Foucault, da Gazette de tribunaux (19/20 jul. 1836).
Ora, prossegue
Foucault, "a alguns passos de lá, o verdadeiro Delacollonge, 'que
parecia um mártir', sofria a dupla afronta dos insultos que não recebia mas que
lhe eram dirigidos, e do ridículo que fazia reaparecer, sob a forma de outro
criminoso, o padre que ele era e que quisera esconder. Sua paixão era
representada, sob seus olhos, por um bufão assassino a que estava
acorrentado."
Não mais se julga o mundo a partir da sina do outro. O julgamento deve agora
portar sobre si mesmo, sobre a própria sorte. Assim como vimos, também
o pensamento não pode mais ser abstraído naquilo que ele põe, ao ser agora
solicitado a tornar-se esse pensamento do seu por (-se).
É do mesmo modo que todos os atos cometidos num mundo possível leibniziano, ou
seja, todas as possibilidades pensáveis de um mundo, não comportam a
possibilidade de serem presenciados pelos próprios actantes, que o Cogito (eu
penso) de todo pensamento clássico ou a priorístico não comporta a
possibilidade de pensar-Se. O sujeito empírico pensa a identidade do
transcendental que é objetividade, sua experiência dos objetos do mundo. Ele
apreende-se como objeto na temporalidade da sua experiência objetiva (antes e
depois), como cognoscente, não como pensante. Mas não é esse o caso da
"reflexão" problematizada pelos pós-kantianos. Portanto,
inversamente ao que Deleuze postulou nas "quatro fórmulas poéticas"
que esclareceriam a filosofia de Kant, o je est un autre de Rimbaud não está
nesta implicado.
É nessa contextualização que podemos, com mais base, retomar a problemática de
Borges, como um motivo de constraste de barroco e romantismo, de modo a
examinar a sua proximidade ao que seria o pensamento de Foucault sobre os
"homens infames".
7 )
Em contraste com a classificação de Deleuze, não suponho que Foucault tivesse
uma única teoria da infâmia, mas sim duas.
Se
bem apreendo o pensamento foucaultiano da "modernidade", nós devemos
posicioná-lo numa sequência histórica formada por Marx e Durkheim a propósito
do que estes designaram nos termos da "divisão do trabalho" como
critério da sociedade industrial ou contemporânea.
O que Foucault acrescenta implica, por um lado, que esse critério não pode ser
mais utilizado como ferramenta para o sócio-darwinismo. Nos termos de Marx
e Durkheim, a divisão do trabalho é universal da sociedade, mas atingindo sua
máxima caracterização, temos a sociedade moderna, ainda que somente o primeiro
tenha equacionado essa maximização em termos de uma teoria do conflito (de
classes). Para Foucault, a metodologia estrutural por meio da qual Althusser
entendeu Marx, na verdade deve se descartar de qualquer constante na forma de
elementos invariáveis tais como os que integram a teoria do conflito marxista
(meios de produção, trabalhadores, formas de apropriação, etc.). As
estruturas históricas descontínuas informam seus próprios elementos.
Por outro lado, a divisão do trabalho é um dos elementos interpretáveis como
relevantes para a modernidade exclusivamente, reinterpretada por Foucault como
princípio de especialização do Poder e do Saber. Isso ressoa de algum modo com
as posições de Marx e Durkheim a propósito da divisão de trabalho ante-moderna
como não maximizada uma vez que, e isso bem mais explícito em Durkheim, nas
sociedades assim classificáveis, o princípio da divisão não é puramente a
especialização do profissional, há confusão da identidade privada com o
trabalho social que se desempenha.
Mas em Foucault é que as consequências desse conceito se mostram tais que suportam
a superação do sócio-darwinismo, a interpretação da modernidade como estágio
superior numa série qualitativamente definível. A especialização do trabalho na
sociedade industrial é mediada pela qualificação científica dessa sociedade, é
o Saber que não mais permite a representação de uma generalidade de
"mundo". Os saberes são autônomos, não condizem com a
expectativa de que forneçam cada um deles uma peça para formar o desenho do
todo. "As palavras e as coisas" podem induzir a indagar: que
"coisas"? Nessa expressão, as coisas são realmente efeito das
palavras, mas não por que é assim em todo caso, e sim porque essas
"coisas" que antes eram supostas referências independentes das
palavras, na modernidade se tornam os objetos
"quase-transcendentais" das ciências autonomizadas. Objeto não
redutível a ideia geral única, mas correlatos de práticas e teorias, disciplinas e
controle extremamente restritos e especializados ("vida"/biologia;
"linguagem"/linguística; "trabalho"/economia).
A expectativa da generalidade possível à apreensão da experiência humana
não foi abandonada, mas conceituada ilusória, de modo cada vez mais
incontornável desde Nietzsche a Foucault. Mesmo essa crítica da
"representação" procede em termos de objeto. As ciências
humanas seriam pseudo-ciências porque não produzem, nem podem produzir
estruturalmente, o seu objeto. Ele está pressuposto a elas como a
generalidade que seria independente e imutável, em relação a todo
produzido: o Homem, o produtor.
Mas desde As palavras e as coisas a uma panorâmica da obra de Foucault, vemos
que essa posição epistemologicamente precária e ambígua das ciências humanas -
porque se elas, conforme Foucault, lidam geneticamente com o que precisam
pressupor pré-existente a elas e universal, então por definição não podem ser
classificadas ciências no a priori "quase-transcendental" do objeto
científico que é o da modernidade - se desdobra numa posição politicamente
estruturante da mesma modernidade. É nesse desdobramento que vamos localizar a
impossibilidade de atribuir uma única teoria da infâmia a Foucault.
A função das ciências humanas é politicamente a dotação identitária do sujeito
privado que antes da contemporaneidade - a "modernidade" - não era
pensável pelo Saber. Agora ele é o pensável de todo Saber "humano
como um dos elemento de composição do espaço dupla-face
do poder, pois desde que se trata do direito moderno e do sujeito privado
como seu referencial, o poder se articula por outro lado como instância pública
legislando acima de qualquer identidade privada (de pessoa ou de grupo).
O poder público legisla sobre o espaço esquadrinhável do privado - eis os dois
níveis de uma articulação até aqui desconhecida, porque nos referenciais
ante-"modernos" o privado nesses termos do sujeito era impensável,
era o limite dado ao pensar. Uma vez pensado o pensável, automaticamente
se havia já equacionado toda pertinência do dado a pensar e o privado, como
devir, ao mesmo tempo era o circunstancial que se desenrolava por si e o já
todo pensado desde o universal. Mas o pensável, enquanto o pensamento do Poder,
atribuía ele mesmo a identidade do seu objeto - não os sujeitos, mas os
estamentos e sua hierarquia.
Nesse espaço ante-moderno, em que não há o split público-privado da
"modernidade", a infâmia, não obstante o que poderia parecer, não
coage o pensamento a pensar o homem infame como o sujeito que
comete particularmente um ato que extrapola o verossímil dos
comportamentos e porta o mistério dessa transgressão. Ele continua a ser
pensado somente como caso do universal, e como Foucault estabeleceu, para
a época clássica o universal da infâmia é ser ela o contrário da
Sociedade que é uma harmonia pré-estabelecida, um sistema de lugares
estabelecido desde a eternidade como racionalidade (a razão em si).
Na
contemporaneidade, inversamente, não há o fora da sociedade, posto que como
vimos, o sujeito pensável só o é enquanto o correlato identitário do Homem. A
infâmia seria o fonema zero aposto ao termo "sociedade" desde o
projeto benthaniano do panoptico: o comportamento marginal se tornará um
comportamento socializado ao saber-se socialmente partilhado pelos
vigias, etc. Ao longo do século XIX, só se verá crescer o envolvimento das
ciências humanas com o problema do comportamento marginal enquanto não mais
algo redutível a um contrário em geral da racionalidade ou probidade em geral.
Como todo comportamento privado (subjetivo), ele é identificável, retificável, tratável, rotulável,
pesquisável.
A bem considerar, não há, portanto, possibilidade de infâmia clássica na
contemporaneidade, nessa concepção de Foucault. O termo infâmia pode agora traduzir apenas o caráter da marginalidade, não sendo muito usado nessa nova acepção. Paralelamente ao assujeitamento
do privado como processo identitário, há ainda o que Foucault estudou como o
desenvolvimento do direito que no Estado moderno por vezes é interpretado como
tendo sido impulsionado por uma retomada do direito romano. A posição
foucaultiana quanto a isso é que tratou-se de uma retomada, mas enquanto o
direito romano apresenta como originalidade o fato de ser formal. Não se
retomou o conteúdo das leis, que são organizadas sob um princípio inteiramente
contemporâneo, o Saber técnico-científico subjacente ao que se considera o
objeto.
Grosso modo poderíamos constatar dois parâmetros da modernidade, hauridos da
obra de Foucault, sendo que esta tem por crucial o equacionamento da infâmia
(marginalidade/marginalização) como fonema zero da Sociedade, lembrando que em
linguística o fonema zero é o espaço lacunar que junto à palavra, é preenchido
por sua flexão, como se faz o plural.
Como lacuna da variação identitária, portanto, tratando-se do enunciado
contemporâneo "sociedade", a infâmia não pode ser conceituada
existente assim como dela temos a forma clássica, a atribuição generalizada que
porta positivamente sobre o exteriorizado, isto é, o que se
provou destituído de posição identitária ou integração num grupo hierarquizável
componente da sociedade. Formalmente, o transgressor da lei, como o
que seria o infamável, é na modernidade atributo equivalente
à variação estruturante de qualquer processo identitário.
Esses dois parâmetros seriam o direito formal, que agora está mediado
pelos saberes do Homem e demais ciências; e a identidade
psico-social que esses saberes permitem pensar e atribuir. Relacionando-as a
essa concepção de Foucault, é que devemos interpelar o tema da infâmia na obra
de Borges.
Ora, quando se trata dessa obra, vemos que o pivô que reune a infâmia e a
duplicidade é a história numa relação do seu pensável com a repetição. Isso já
estava, aliás, expresso em Jarry (O Amor Absoluto), onde o protagonista, o encarcerado
Emanuel, ao ser informado de que sua mãe era virgem, compreende ser Deus, o Cristo. Mas
inversamente a todo situamento teórico geo-egológico, exceto o do Romantismo em
que se trata também desse vínculo, a repetição é a instância da alteridade, não
da identidade - assim a relação entre o eu e o não-eu é complementar, não
"suplementar" ou de modo tal que há anulação de um pelo outro, excetuando-se a ambição identitária de Fichte que acabou num recuo ao neoplatonismo.
O a priori histórico-epistemológico de Foucault impede pensar a alteridade no
âmbito de sua vigência. A alteridade é outro a priori ou ambiência histórica.
Isso porque cada a priori é conceituável pela redução da instância do poder
e/ou do saber, respectivamente a uma ideia e a algumas premissas das quais se
pode delimitar toda problemática possível. Por exemplo, na Roma antiga o
império pode ser norteado ora pela imagem do imperador como condutor de um
rebanho, ora como pai de crianças. Num caso ou no outro, os problemas concretos
que surgem à administração só serão compreensíveis e enunciáveis como problemas
relativos à condução de um rebanho ou ao cuidado de uma prole. Eliminaram-se os
combates de gladiadores porque não convinha o espetáculo a um povo-criança -
não por que o cristianismo implicava uma política mais humanitária.
As premissas históricas que implicavam uma sociedade de exclusão na idade
clássica (séc. XVII e XVIII) não são as que para Foucault, encontramos vigentes
na sociedade disciplinar da contemporaneidade. Quanto a esta, se o parâmetro é
subjetivo-identitário, vemos que não era menos determinado socialmente o espaço
da exterioridade pressuposta pelas premissas da era clássica. Mas esse espaço
havia, enquanto na sociedade contemporânea, não. A heterogeneidade de premissas é
impensável nessa concepção a priorística foucaultiana para um período
histórico, se ele é assinalável validamente. A heterogeneidade subsiste apenas
como opções que restam para as questões postas à prática, por
uma só premissa, aquela que define o a priori. Mas de modo que
especificamente na "modernidade", o não haver o fora da sociedade em
termos subjetivos-identitários, implica não haver alteridade pensável
nesses termos. Aqui poderíamos supor estarmos frente a um problema de
interpretação posto pelo pensamento de Foucault.
Podemos enquadrá-lo na tendência ocidentalizante que recobre as
descobertas empíricas das ciências humanas, as quais são descobertas da
alteridade cultural, da irredutibilidade da cultura?
Essa tendência se traduz pelas sistematizações teóricas que compactam os dados
da alteridade em interpretações tais que elas são reduzidas ao passado daquilo
que, prolongando-se, resulta na instituição ocidental. Assim, por exemplo, toda
a variedade de relações sociais, quando são visadas na sua implicação de
acasalamento e procriação, se traduz como "tipos de família". Então
todos os variados tipos inerentes a inúmeras sociedades, são conceituados como primitivos em relação ao que
seria o ocidental civilizado - monogâmico e nuclear - contemporâneo da classificação
ela mesma, científica-ocidental. Isso é feito na base do pressuposto essencialista/teleológico mas expresso como "objetivo", de que
acasalamento de um homem e uma mulher mutuamente interessados, e procriação dos seus filhos, vem a ser o objetivo real e único da família, e é a
isso que se resume o que entendemos por esse nome no ocidente moderno. O casal
está finalmente livre das complicações da família extensa, da tribo, do
clã, etc.
Mas era para que pudesse ser somente isso, o casal, que havia todo esse
aparato. Esse argumento é encontrado tanto na psicanálise e em Lacan, quanto em horizontes da sociologia como o "manual" de Cuvillier. Evidentemente o raciocínio está viciado desde o início, pois que
as relações sociais de uma tribo compreendem esses aspectos nessa redução tal
que os conceitos de parentesco seriam universais é o que está em questão, não o
que sabemos a priori. E se os dados mostram uma variedade sempre maior de teias
de relações, em vez de uma uniformidade, seria pelo menos razoável questionar a
validez dos procedimentos teleológicos.
Conservando o paralelo com Foucault, a complicação jaz no fato de que ele
cauciona Freud como não uma "ciência humana" definida como disposição
de paradigmas totalizantes, mas como já um procedimento estrutural, e assim,
como na psicanálise tampouco existe a alteridade pensável, somente a
identificação subjetivante, de modo que a alteridade é efeito na consciência ao invés de ser originária ao inconsciente, pode ser que Foucault não tenha dito que a
sociedade moderno-ocidental era algo de que se pudesse fazer uma crítica
profunda, mas sim algo que corresponde profundamente ao enunciado da
problemática do desejo (real).
A sua crítica às ciências humanas já se endereça de um modo que a muitos soaria
estranha, já que desde o início do século XX, quando essa expressão
"ciências humanas" se afirmou epistemologicamente no cenário
pós-positivista, ela correspondeu a uma senha de afirmação da necessidade de
parâmetros autônomos de inteligibilidade por que o seu objeto era justamente a
alteridade cultural. Creio que não deveríamos proceder como habitualmente se
faz, sem inserir essa viragem na sua proximidade histórica, o cenário das
Vanguardas estéticas, tanto de onde está vindo a predominar uma anti-arte que é
expressamente conceituada como antecedência do "pop", como a movimentação dos
primitivismos. Ou seja, um cenário em ruptura com as
premissas objetivistas de universalidade que haviam sido o fiat
condutor dos Realismos mesmo nas humanities. Essa ruptura baseava-se não num irrealismo
inconsequente, mas num decentramento na base de que os sistemas e códigos
culturais são heterogêneos.
Mas desde as exigências weber-diltheyanas do "compreender"
humanístico - versus o "explicar" naturalista-objetivista que
pode ser lido em termos do "saber ocidental" naquele momento
alvo das mais severas críticas devido às suas duas ilusões maiores, tanto de
resumir toda heterogeneidade da cultura quanto de ser verdadeiramente uma
pós-metafísica - até as realizações que entraram para a história das
ciências humanas a partir desse projeto do "verstehen", há um longo
hiato que não foi preenchido senão por teorias que desde o cenário
"pop" dos sixties tem sido alvo da crítica que justamente interroga
sobre os limites dos seus poderes de enunciação da alteridade.
Assim, e não havendo meios de contornar essas críticas, Foucault permanece no
parâmetro ocidental da geo-egologia, se ele as integra. Pois, como temos visto,
mesmo podendo ser que elas nem sempre tenham sido manejadas como numa base
psicanalítica que viria etiquetar o projeto do "verstehen" como utópico
e inadequado pela inexistência daquilo que o impulsionava, a heterogeneidade da
cultura, admitindo-se que por vezes, naquele cenário, elas foram feitas pelos
que estavam interessados em verdadeiramente conceituar o heterogêneo, repete-se
a aporia. O hiato entre as pretensões e os resultados teóricos não foi
preenchido de forma que se possa afirmar que os objetivos
propostos foram servidos.
Por outro lado, o que o pós-modernismo tem evidenciado é que esses objetivos já
estão servidos desde há muito nas margens, não como a coisa em si a ser
transposta na forma do dado para novamente haurir-se a ciência, mas
porque uma vez a margem sendo esse Alter da ego-logia do Centro, sua
interlocução deste bifurca-se: ora na mímica da centralidade a que se reduz a
discursividade dos "pontos de contato" que fazem, na teoria e na
prática - ambas as vias de importação, de ideias e de produtos - o
efeito-demonstração do Centro para a sua hinterlândia; ora na problematização
alterizante das premissas da geo-egologia discursivizadas na teoria e nas
práticas políticas da dominação cultural.
A alteridade em Borges, por exemplo, não poderia ser pensada como numa
anterioridade da totalização subjetivo-identitária da contemporaneidade, mas
implica a disjunção do termo como oponível à exterioridade. A alteridade se
opõe à identidade assim como o inverossímil ao verossímil; não se opõe
ao fora/exterioridade, cuja oposição é ao dentro/interioridade.
Muito do questionamento ao pensamento deleuziano, feito por Michael Hardt, na
base de que o ocidente não dispõe de fato nenhum "outro da cultura",
pois não pensa a alteridade e sim somente atribui identidade, poderia ser assim
relativizado, pois ao que de fato intenta conduzir é à negação de que exista um
"fora" do sistema moderno-ocidental tanto mais este se transforma no
cenário atual do capital imperialismo pós-soviético. A mesma ambiguidade que
vimos na obra de Foucault repercute aqui, pois o que isso implica? Não seria
que chegou-se assim a um ponto fulcral na história humana, na qual ela, como o
analisando lacaniano, defrontou-se com seu verdadeiro limite, em relação ao
qual, sendo assim, está agora podendo pensar a superação possível?
É interessante inserir aqui a objeção movida a Foucault por Clement Rosset
("Anti-natureza"). Conforme Rosset, concepções do real
"naturalistas" e "artificialistas" - como poderíamos
designar a oposição dos a prioris foucaultianos respectivos à época clássica e
à modernidade - na verdade rivalizam por toda a história da filosofia, desde os
pré-socráticos. Rosset constroi assim uma imagem da época clássica extremamente
artificialista, onde para Foucault estava vigente o paradigma da
Natureza como unidade inteligível tal que toda produção do saber deve apenas
inserir uma parte cuja validez conceitual está demonstrada se pode
declinar sua pertença inteligível ao todo, ou seja, sua concatenação às demais.
Golens e bonecos mecânicos, artes de engenho como em Gracian, tudo
subentende-se nos antípodas da "mathesis universalis" que, aliás,
deveria, como cálculo, ser tudo, menos "natureza".
Não obstante, o que nenhum desses dois modelos apreende é a solidariedade da
noção de natureza efetivamente expressa como importante na época clássica, à
revolução na visão de mundo implicada na descoberta do outro continente.
"Estado de natureza", noção capital à teoria política que nessa
época se erige em total oposição ao pensamento medieval da "civitas
dei" que caucionava o império mundial do papado romano, é o correlato
dessa descoberta premindo o pensamento de uma sociedade cujo regime não mudou
tão radicalmente senão por ela.
Inútil argumentar que economicamente a exploração escravista do Novo
Mundo não foi determinante à emergência do capitalismo. Enquanto uma empresa
monopolista, ela reordenou o mapa das potências europeias, e a consistência da
soberania. Procede-se habitualmente, quando se trata dessa questão do
surgimento do capitalismo, focalizando o modelo inglês, não tão aparentemente
ligado à exploração colonial-escravista como as soberanias absolutistas
ibéricas. Mas contraditoriamente, não se deixa de afirmar que o capitalismo não
é definível dessa época de "acumulação" pecuniária, e sim somente na
decorrência da Revolução Industrial, na "modernidade".
Tão logo se esteja na Revolução Industrial, centraliza-se o
conflito de classes, mas assim procedendo, narrativiza-se linearmente a
"história", de modo que o determinante da "economia
política" - ter emergido como "liberalismo" - não pode ser
equacionado. O liberalismo, nessa narrativa, fica implicado apenas como a
ilusão do burguês que se impõe como classe, mas que se enuncia como sujeito da
iniciativa ("privada"). No entanto, o liberalismo ou smithianismo é a fórmula e a
prática histórica do imperialismo, pois como se demonstra pelos fatos, a
Inglaterra na vanguarda da Revolução Industrial capitalista foi determinante na
independência das colônias americanas. Porque a fórmula da economia liberal
implica a necessidade de mercados de consumação de mercadorias, para uma
economia ou concepção de riqueza definida como produção e circulação de bens, não simples
posse.
Ora, retornando ao contraste evidenciável entre uma cartografia que implica ou
que não implica o continente americano povoado pela absoluta estranheza do indígena,
como contraste dos cenários de saber "ocidentais" pós-feudal e
vigente até o feudalismo; e àquele que se pode agora tematizar, entre uma
cartografia desse continente como pura natureza e depois como cultura,
instalando-se portanto entre a época clássica-colonial e a
contemporaneidade capitalista, alguns dos temas importantes normalmente
associados a essas rubricas históricas ganham em coerência.
A inserção do novo mundo implica não mais poder ser abstraída a Natureza como
apenas cópia da ideia ou forma. Entre Rosset e Foucault, podemos notar que não
subsiste um desacordo total se a natureza de que se trata tão exaustivamente na
época clássica é absolutamente mecanicista.
É interessante que Foucault não tenha equacionado a teoria política quando se
tratou do clássico no âmbito do Saber, mas quando se tratou dele na
circunscrição da "governamentalidade", Foucault se limitou a
interpretá-la como a inserção do Estado de direitos, ou seja, ele pensou o que
na teoria política clássica foi disposto como o oposto do Estado de Natureza, a
saber, o Estado de Sociedade que corresponderia às nações constituídas da
Europa em contraste com a selvageria - leia-se ausência total de cultura - do
selvagem. À medida que essa noção de selvageria perdia a credibilidade como
caução das atrocidades dos invasores brancos, mesmo na Europa, como de Hobbes a
Locke, a Natureza não deixava de ser o compartimento do Novo Mundo em relação à
cultura do Velho Mundo. Apenas ela ia sendo valorizada no decorrer da evolução
de um empirismo que nela hauria a fonte da experiência, mas sem deixar de
conservar o dualismo pelo qual nunca essa fonte era ela mesma a experiência,
pelo contrário. A fonte era o atributo oposto da "extensão", a saber, o "pensamento" ou razão. A história social seria impensável como ciência. Ela era o fortuito, a extensão sem pensamento, justamente porque já não era "natureza", a extensão reduzida ao mecanismo.
A modernidade vem a ser como contemporaneidade quando à Natureza tiver que ser
atribuída a imanência da ação, juntamente com a transformação da margem em
alteridade de cultura. Essa alteridade, no Romantismo, implica que como a
cultura é definida em termos de formação, os componentes da formação na margem
não são os mesmos que aqueles que se miscigenam ao longo da Idade Média no
"centro" (Europa).
Mas como já ficou delineado, a alteridade se torna pensável no
"centro" como ruptura genética de uma contemporaneidade que é o tempo
do capital imperialismo e assim, após esse interregno em que a linha
centro-margem é ainda apenas um pre-texto do Saber da duplicidade que articula
a geo-egologia, o Realismo já está concomitante ao cenário de plena expansão imperialista
sobre a América Latina, e a linha torna-se estruturante expresso do texto, por
onde já não se trata da duplicidade, mas da Identidade, o indivíduo psicofísico. As ciências humanas
desdobram um aparato teórico como imperativo da expressão a priorística do
idêntico que estrutura o discurso geo-político no Centro e na
Margem.
Ora, não se segue daí a premissa etnocêntrica pelo que em todo caso, a
alteridade, se for pensável, é devido ao a priori geo-egológico que forma o
Ocidente como Centro, para uma centralidade que nem é mais a ideia, nem a
transcendência divina, mas está por toda parte onde está a Identidade (centro =
"eu"/ego-Logia). Inversamente, o pós-modernismo teórico se instala
quando as categorias pretensamente universais da Razão ocidental se desfazem
como aptos a homogeneizar todos os jogos de linguagem. Porém minha concepção não implica, ao contrário de Lyotard, que a teoria dos jogos de linguagem wittgensteiniana seja o ponto de mutação, posto ser uma teoria que não considera a subjetividade.
Em todo caso essa inviabilização pode se redarguir que vem sendo gradualmente atingida desde
os esforços empiristas que objetaram contra o seu
nexo metafísico ao Real em si, ou seja, que é um processo intrínseco ao
Saber moderno-ocidental. Mas o que estamos postulando aqui é que a estruturação
da linguagem desse saber só pode ser pensado na sua transformação
pós-metafísica assim como historicamente ela se configura, ou seja, na
decorrência da transformação geopolítica que descentra o mundo
fechado (todo-idealizável) antigo/medieval. Mas isso não implica que na
exterioridade do ocidente, antes da implicação capital-imperialística da
interlocução cultural planetária, esse fechamento mítico seja universal das
culturas que assim poderiam ser reduzidas a uma classificação de
ante-científicas.
As estruturações dos mitos e da "oralidade" de algumas culturas
não-ocidentais, assim como se tem sempre mais tencionado mostrar
para o que é ex-cêntrico no próprio "Centro", pode
extrapolar a premissa estruturalista que as reduz a oposições universalizáveis.
Um pensamento da complementaridade que não demonstra a universalidade
lógica da disjunção, pode ser exemplificado, como tenho afirmado ser o
caso da cultura Terena, do postulado romântico do "homem duplo", de
alguma formas de orientalismo como o taoísmo, mas isso em geral é
o que tem sido a temática do pós-modernismo literário, teórico e
político, porque descartando-se da importação dos determinismos ("grandes
narrativas") gerados pelo imperativo geo-egológico de expressar pelo Saber
a centralidade do Centro do Poder, o que as assim chamadas impropriamente
"minorias" descobrem é que qualquer parâmetro identitário lhe seria
reducionista, ainda que procedesse por inversão para considerar bom o que era
dado como mau. Não há um conceito único de qualquer "minoria", mas heterogeneidade - não obstante as utilizações neofascistas ou dirigidas por aparatos teóricos comprometidos, de grupos que figuram impropriamente como exemplares de etnias, mulheres, etc., na verdade para servirem de "currais eleitorais" ou estereótipos propagandísticos.
A interpelação da cultura torna a ser a de sua heterogeneidade, tanto para,
como uma rubrica em si, pôr entre parêntesis a sua unidade identitária
dada pelo centro marginalizante de si; quanto para descobrir que linguagens
efetivas pré-existem nessa sua inserção especificável para si,
e que relações inteligíveis elas põem, num âmbito de interlocução com
esse outro heterogêneo que vem às práticas envolvidas com a dominação cultural
que se expande em nível planetário e com a resistência a essa dominação.
Como podemos ver na "história da infâmia" de Borges, que poderia ser
complementar do que o centro conta como sua "história da conquista". Ou seja, a história da América Latina. A
heterogeneidade não pode ter sido deixada de ser pensada na margem, quando se
trata já dos gêneros praticados como interlocução do Centro, o que
habitualmente se reduz a sua "cópia", uma vez que se a
hiância da cultura na margem torna-se a linguagem da dominação cultural do
Centro, o que ela dispõe é a infâmia como anulação da heterogeneidade da
margem. Pois, as instituições do Saber e do Poder atuam a sua ocupação pelo
Alter que só diz de si a suplência do Centro e a sua dependência dele. Aqui o
que ocorre é a guerra civil permanente, como exclusão do sujeito que pudesse
enunciar-se como o de margem em vez de cópia (alter) do centro, e é esse
sujeito ex-cêntrico que protagoniza o drama da infâmia,
paradoxalmente, porque em todo caso e forçosamente, é ele o infamado no
discurso oficial da História da Conquista que estrutura toda a hiância da
cultura oficial.
Uma teoria da infâmia alternativa às que vimos, por exemplo, se encontra em
Werneck Sodré, que por esse termo classificou a operação moral da ditadura dos
sixties. Consistiu naquilo que se desdobrou do fato da ditadura instituir indivíduos perseguidos da cultura - literalmente,
os possuidores de livros, especialmente marxistas, consideráveis subversivos, que podiam ter suas casas
invadidas pelos oficiais da ditadura a fim de erradicar tais livros e prender os possuidores para eliminar barbaramente ou meramente processar , conforme o caso. O que se desdobrou assim foi que os sujeitos potenciais da perseguição ditatorial, vieram a se tornar eles mesmos censores,
destruindo de suas estantes aqueles que poderiam ser objetos da invectiva dos
oficiais da ditadura.
Não se pode dizer que a infâmia está "fora", mas na margem essa todo-interioridade tem um sentido diferente que pudesse ter no Centro em termos de "modernidade". A supressão pura e simples, ou a anulação na prática, são formas de maginalização institucional que funcionam de um modo complementar ao Centro, mas não idêntico ao que nele se propaga como seus conflitos sociais.
Não se pode dizer que a infâmia está "fora", mas na margem essa todo-interioridade tem um sentido diferente que pudesse ter no Centro em termos de "modernidade". A supressão pura e simples, ou a anulação na prática, são formas de maginalização institucional que funcionam de um modo complementar ao Centro, mas não idêntico ao que nele se propaga como seus conflitos sociais.
Pode ser que na atualidade, com a "globalização" e os novos termos da
censura - que se tornaram " midiáticos" - a linha de demarcação
quanto ao problema da repressão pudesse ser interpretada como
relativizável. Mas na realidade o incremento da desigualdade a nível de
"apartheid social" só tornou a questão do terceiro mundo o pivô que deslocou
a luta de classes como parâmetro do político.
Aqui seria preciso notar que "mundo" se conserva como termo
inteligível desde que não signifique a totalidade - contraditória portanto,
porque ao mesmo tempo que significaria "tudo", também implicaria ser
ordenado, o que é impossível. Mas sim denotando um princípio de ordenação como
"mundo do Renascimento", ou "mundo do trabalho".
O "terceiro mundo" contém mais inteligibilidade do que o termo que os seus
objetores utilizam - dizem eles, de forma inadequada portanto, que
só há um mundo. A especificidade da expressão terceiro mundo é geopolítica,
correspondendo apenas ao conjunto de nações que emergem como pós-colonizadas,
integradas forçosamente como dependentes na estrutura internacional do
capitalismo tecnológico. O que estamos constatando aqui é que se a problemática
política derivou de modo a não mais poder abstrair a questão cultural como
heterogeneidade, a implicação da questão da alteridade ao pensamento humano
corresponde à problemática intrínseca ao terceiro mundo e sua produção cultural
que se evidencia expressão política, mas não de forma que isso implique
retrocesso ou anterioridade em relação à emergência das questões relativas
à subjetividade no Centro. Pois, essas questões estiveram no
Ocidente, até o pós-modernismo e desde o Realismo, reduzidas à forma da
subjetividade disposta pela geo-egologia, significativamente como já
evidenciamos, elas nem existiam até aí, mas de fato elas podem não ser
assim redutíveis.
O inconsciente no Romantismo, por exemplo, porque ele é uma
interlocução da heterogeneidade da cultura, implica a linguagem como alteridade
cuja variação - assim como na Gramatologia (Derrida) - resulta na variação da
sua inteligibilidade, os tipos de relações alterizantes que uma linguagem ou
uma escritura implica (não-"universais"). Isso, inversamente à
psicanálise onde a disjunção dos gêneros sexuais ocidentalmente interpretados
(homem/mulher) preside toda identidade pensável onde a alteridade é apenas
suplemento, portanto não uma alteridade real.
A
história da margem teria que ser uma "pós-história" porque ela não
poderia contar o Mesmo que a história da conquista do Centro, não poderia ser
uma narrativa, e teria que corresponder à liberação das práticas de linguagem,
com sua inteligibilidade imanente, correlatas às práticas políticas efetivas
das relações sociais e do desejo heterogêneos ao imperativo
"histórico" do Centro. Essa história não poderia ser totalizável como
"de margem", mas não porque a margem é pré-conceitual, e sim porque
fora da especificação geopolítica, só há as linguagens heterogêneas que se
praticam em âmbitos culturais discerníveis, não qualquer totalidade
universalizável somente na dependência da qual tudo mais seria pensável.
É
por esse viés que se torna interessante aproximar, como não se faz
habitualmente, o estudo das sociedades igualitárias e o da democracia
grega. A classificação, talvez, mais representativa do padrão habitual
quanto a isso, é a que John Scotson ("Introdução à
sociedade") empresta daquela que Bottomore sintetizou justamente como
o geralmente encontrável na literatura sociológica. Ele discerne entre
"Sociedades primitivas" e as representativas do "Estado-nação".
Para as primeiras supõe uma diferenciação entre as que não apresentam estrutura
política, e as que as apresentam mas essas estruturas sempre fortemente
influenciadas pelo parentesco e a religião. Para as segundas distingue entre os
Estados democráticos e os totalitários, ambos "modernos".
Assim, a crítica a essas premissas, visando ao interesse da conceituação
do Estado como integrante da noção de Sociedade, como apresentada em
E. Willems ("Antropologia social") teria que começar por
questionar a aplicação, como variável biunívoca de
pertença, do "político".
Qualquer problematização que se mantenha como interlocução desse nível a que
podemos designar, grosso modo, atualidade deve destacar-se contra o
discurso do recentramento neofascista assim designado "globalização" no qual o que se verifica se resume a regressão ao
sádico-anal positivista, no entanto como retrocesso mantendo a
ficção sócio-darwinista da racionalidade tecnológica sob o fundo
tradicionalista dos projetos "small town" dos anos trinta
(Jameson/Subirats). Esse nível teórico que se preserva como atual, não
regredido, é o que pode se estabelecer em torno das questões relacionadas
às humanities que, desde os sixties, se reposicionaram numa
imbricação essencial de poder, saber e desejo (inconsciente). Manifesta-se,
como se pode apreender, como uma problematização cujo objeto pode ser
especificado justamente em torno do "político", noção em que estão
imbricadas as notas de alteridade e sociedade.
Não obstante utilizar-se de muitos simplismos e até informações bem falseáveis
como a que define a monogamia como a forma majoritária de canalização da
"sexualidade procriadora" dentre as conhecidas civilizadas, Marcuse
permite definir bem o aspecto crucial dessa imbricação: "Se a sexualidade
é, em sua própria essência, anti-social e associal, e se a destrutividade é a
manifestação de um instinto primário, então a ideia de um princípio de
realidade não-repressivo não passaria de especulação ociosa".
Escusado
lembrar que é esse princípio de realidade não-repressivo que o seu Eros e
Civilização está construindo, contra o que designou o "princípio do
desempenho" norteador da civilização ocidental e que teria sido somente ao
que se limitaram as observações de Freud, isto é, basicamente uma orientação
dessexualizante, competitiva, porque voltada ao imperativo do trabalho.
Mas já vimos que Marcuse, tentando situar um plano pós-psicanalítico pela
estratégia de evidenciar as ambiguidades de Freud a fim de ultrapassar os limites
que a determinaram, não chega a escapar ele mesmo dessas ambiguidades, posto
que ainda aceita como verdades o que já se sabe não poder ser afirmado.
Assim, quando a amostragem aumenta drasticamente, o procedimento já nem pode contar apenas com o que habitualmente designamos pelo termo "comparação", isto é, a estipulação, desde características comuns, de uma progressão na depuração de traços ou no sentido de maior proximidade ao que devem conduzir como termo lógico de sua posição, desde o inverso disso como o termo originário. O tratamento precisa agora ser estatístico, como no estudo de Murdock, cujo objeto reúne 250 sociedades, citado no "Antropologia social" de Emílio Willems.
Nesse caso, fica bem óbvia a inviabilidade de se estabelecer progressões, por
exemplo, quanto ao traço da liberdade sexual permitida: em pouco mais de
cinquenta
sociedades, pessoas solteiras, mas não aparentadas, podem manter relações sexuais irrestritas; em 20 sociedades, essa liberdade é até certo ponto limitada; em 54, tais atividades são proibidas ou reprovadas; há ainda casos em que há restrição se houver flagrante, mas "os casos clandestinos são um tema de gabolice" nas conversas dos homens.
sociedades, pessoas solteiras, mas não aparentadas, podem manter relações sexuais irrestritas; em 20 sociedades, essa liberdade é até certo ponto limitada; em 54, tais atividades são proibidas ou reprovadas; há ainda casos em que há restrição se houver flagrante, mas "os casos clandestinos são um tema de gabolice" nas conversas dos homens.
E Beattie registra o exemplo de certas sociedades africanas "em que a relação sexual é
lícita com pessoas com as quais não se permite casar". Que dado
poderia ser apontado no sentido de garantir que é a proibição ou a irrestrição
o termo originário no que seria um progresso histórico quanto à liberação
sexual? O que se pode constatar é apenas que não há qualquer padrão que se pode
apontar como constante social de forma a permitir extrapolar da
natureza do sujeito humano, alguma definição universal de
"sociedade".
Não considero Freud particularmente profundo. Pelo contrário, alguém que tenha
precisado confrontar uma imensa crise devido a ter sido impossível contornar as
objeções válidas às premissas teóricas iniciais, para que chegasse a alcançar a
postulação de que no sujeito humano há tendências destrutivas como novo patamar
de ideias, deve ter tido condicionamentos culturais ou psicológicos que seria
interessante considerar. Mas em todo caso o que devemos lembrar é que como algo
tão determinante, essas tendências destrutivas foram manejadas apenas para
tapar o buraco da formulação inicial. É o modo como aquela já estava
condicionada por oposições geradas num tipo de informação antropológico hoje
inaceitável, que seria preciso esclarecer, apenas para acentuar a necessidade
de um cenário efetivamente pós (não "neo") - psicanalítico.
A ambiguidade de Marcuse se mostra porque esse não foi um objetivo que
ele tenha situado, e assim vemos que a oposição freudiana básica sexualidade/trabalho
foi por ele considerada indeslocável como universal de "sociedade", e
tudo o que se poderia fazer seria deliberadamente, uma vez que se conheça a
psicanálise, reduzir o trabalho no horizonte dos valores, a fim de que a destrutividade
que se potencializa pela dessexualização, seja do mesmo modo, automaticamente,
reduzida porque foi acrescido espaço para a tendência oposta, a do Eros ou
libido.
Mas isso permanece ambíguo porque "libido" é informe até que esteja
informada pelos valores concretos que são os societários, isto é, histórica e
localmente efetivos. A sociedade de consumação e automação pode muito bem ser
uma em que "idleness" seja um valor, e onde há intenso investimento
"libidinal", mas sem por isso ser menos repressiva naquele sentido
que podemos aproximar a Foucault: não se trata do imperativo de não fazer, mas
sim do imperativo do fazer dentro de certos parâmetros que excluem outros como
anormais e sobretudo que se acoplam a critérios identitários.
Lacan se torna assim o verdadeiro ponto de mutação, porque ele eliminou a
ambiguidade freudiana, no passo mesmo em que a tornou inerente à linguagem - um
pouco ao modo como Freud, ao ser confrontado com o fato de que as lembranças
dos seus pacientes eram falsas, prosseguiu quando sacou a desculpa de que o que
importava era o que eles diziam, não se era verdade. Mas Lacan fez um pouco
mais que isso, e é no sentido de entender como a viragem pós-estrutural pode
estar relacionada com o retrocesso ou recentramento que se seguiu tão
estranhamente ao ex-centramento dos sixties constatável ao menos no
cenário teórico, que me parece incontornável a necessidade de evidenciar o nexo
que ele mesmo estabeleceu de sua interpretação psicanalítica como o que
chamaremos aqui um neo-aristotelismo.
Ora, nada se poderá fazer no desconhecimento de informações que impeçam
universalizar aquelas oposições que tem servido, mesmo nos quadros de radical
superação do sócio-darwinismo. Muito está por ser elaborado, a propósito.
Por exemplo, tudo o que podemos empregar com o intuito de mudar a imagem do
político em relação às sociedades consideradas mais simples e primitivas, está
sob a limitação de que quando se trata do "político" em Antropologia,
é somente sob uma rubrica específica, o "poder", a
"organização política" no sentido de organização da soberania e da
autoridade civil. Mas evidentemente todas as instituições estudadas implicam
ser um nível social, isto é, oposto ao estudo do que se processa em nível
unicamente subjetivo.
Quero assim evidenciar duas coisas, ora que todas as instituições,
não só as que formalizam um exercício de soberania, necessitam ser
pensadas desempenhando-se por várias pessoas e por todas as pessoas numa
sociedade, cada uma com papeis e tarefas diferentes; ora que elas implicam o
sujeito pensar além de sua própria unidade individual, porquanto não são apenas
os estudiosos que, ao desejarem reconstituir as instituições, precisam mapear
os vários papeis e tarefas, e sim o sujeito dessa sociedade - o que os
antropólogos chamam o "ego" - é que precisa realizar um nível de
realidade articulado pela heterogeneidade, pela pluralidade de outros egos que
não são pensáveis precisamente sob o mesmo papel e tarefas que as dele, ou de
qualquer "alter"- (ego) individualizado pensável. Além disso, esse
"pensar" só pode ser realizado como desempenho semiótico, porquanto
as instituições são "escritura", implicam ser legíveis a partir dos
signos que as media intersubjetivamente.
Deleuze e Guattari foram os que mais acentuaram o forcing de pensar uma libido neutra,
isto é, que coloca o problema somente ulterior de ter que ser
"modificada" pelos imperativos sociais. Entre W. Reich e H. Marcuse,
vemos que o problema ainda é o mesmo, não reduzir a sociedade ao indivíduo, mas
apenas porque a sociedade é a objetividade dos processos de classse, não
obstante serem os padrões objetivos dela que "modificam" a libido
tornando-se imprescindível ao analista entender a variação histórica dessas
modificações. Ou seja, em todo caso é inevitável a redução, como objetaram os
seus críticos, especialmente os de Reich. Assim, quando se chega a Lacan, não
há mais o problema: a cultura não existe, a sociedade é o desempenho simbólico.
Em vez disso, já que o problema da cultura persistiu, o que devemos
pensar é a formação semiótica do desejo, o fato de que como seres pensantes o
que temos que realizar basicamente é a alteridade do signo em relação a
que nos tornamos capazes do desempenho da linguagem, mas o signo já
é histórico e cultural. Ora, Deleuze e Guattari não formularam
esse caminho, pelo contrário, tendo evidenciado a impossibilidade de
pensar a libido neutra, forçaram do mesmo modo um nível a-histórico
de acoplamentos físicos, ações automáticas onde Freud conceituara pulsões instintivas e Lacan já a destinação social e familiar delas, restando assim presos num automatismo que a
observação médica impede aceitar. Como informa Wallon, a formação de reflexos,
como o circuito do ouvir um estímulo e voltar o rosto como que
institivamente à sua fonte , é um processo lento no bebê, porquanto antes
dos reflexos estarem formados, o bebê só exibe automatismos, isto
é, o que não implica a atitude do sujeito concatenada ao exterior. Um exemplo
de automatismo seria o susto. Ora, tais automatismos proliferam até os
reflexos, como relações verdadeiras com o exterior, os substituírem.
Como tais os automatismos
curiosamente variam de bebê para bebê: foi observado num deles a associação
automática entre o sono e a manipulação da orelha. Todos os automatismos tem
que ser removidos uma vez formando-se os reflexos. Subsistem sim mas como
inconscientes, folhetos ou camadas da evolução da personalidade, mas se tornam
a aparecer - como um susto - são regressões, O susto não é obviamente uma
regressão prejudicial, mas outros tipos de automatismos, seriam. Se não há
substituição pelos reflexos, o sujeito é idiota. Toda regressão é desse teor.
Ora, vemos que a descrição da síntese de produção deleuze-guattariana
implica que os acoplamentos - desde a sucção do leite
materno até a justaposição de brinquedos que permitem ao sujeito
"buzinar" em seu carrinho - são automatismos, posto que
"libido" pura, síntese em ato; de forma que o que estudamos em
Wallon como o reflexo implicando a emergência da atenção subjetivada,
cisão do que se volta ao estímulo que provoca a atitude, verdadeira relação com o
exterior ( relação que implica haver algo, como sujeito, que se
relaciona) na esquizoanálise dependeria de uma síntese diversa, a do
registro ou memória, que permite repetir o circuito ativo de algum modo
valorado (mapeado ou significado). Mas o reflexo é a junção do estímulo com o reconhecimento do dado. Não há separação de sínteses da ação física e da subjetivação semiótica na natureza do reflexo como o reconhecimento perceptivo do som desde a associação com o lugar da fonte. A cabeça do bebê se volta, o estímulo é mais que o som. O behaviorismo de Watson, cuja origem é pavloviana, por sua ambição de coincidência total das psicologias humana e animal não apreende a composição do estímulo a partir da percepção enquanto fenômeno subjetivado.
Mas uma relação real não poderia ser assim compartimentada, porque o que
ela explica é a emergência do que se relaciona ao estímulo, isto é, a
relação coloca a alteridade relacional a um sujeito da experiência - que não precisa porém coincidir com o conceito de ego desenvolvido conforme o acúmulo necessário de estruturas psíquicas. O "se" da percepção primária não é "fantasma", não
implica primariamente um significado, sem deixar de ser mediado pelo signo
(estímulo). Também a descrição das fases de formação do sujeito epistêmico, o "ego" formado da psicologia em geral, em
Piaget, que no entanto incide apenas sobre as formas de
constatação objetiva, demonstra que, contra as premissas
fenomenológicas, a auto-percepção ou egoidade não é originária, não sendo
constatável na fase mais inicial da vida do bebê. Mas desde que começa a haver
a sua percepção de objetos no exterior, a auto-percepção deve decorrer da sua
relação ou interação na alteridade da experiência - especificamente a
experiência da locomoção que depende da capacidade de calcular as variáveis de
localização ("grupo de deslocamentos").
Já desde a capacidade inicial - Piaget descreve acuradamente como o bebê começa a ter percepção de um objeto posto a sua frente - a relação construída da constância do objeto é com o lugar. O bebê começa a perceber o objeto que contudo se move - um brinquedo colorido é colocado à sua frente, e a mão que o segura o faz mover-se. Assim que o bebê nota que se moveu, procura-o do lado onde o objeto estava - não começa por acompanhar o rumo do movimento do objeto.
O bebê que nasce parece que só tem de inato o instinto de sugar. Até mesmo o movimento da pupila necessita algum tempo para se estabelecer. O que estou objetivando afirmar é pois que as capacidades construídas não o são de modo aristotélico, isto é, a partir de uma categoria única, como a substância, quid ou essência, ao modo de um signo isolado a partir do qual as categorias "acidentais" que são relações como tempo, modo e lugar, viriam a ser acrescentadas. Mas inversamente, a referência do "que é" só é construída como capacidade psíquica a partir das relações complexas.
Ora, todas as teorias do inconsciente até agora tem sido prejudicadas pela concepção aristotélica "lógica" da preminência categorial da substância sobre todas as demais como circunstâncias por serem categorias de relações. E mesmo onde a terminologia da "categoria" deveu ceder ao conceito de "existencial", como em Heidegger, onde não se trata diretamente de teoria do inconsciente mas sim da "pre-compreensão", a preminência denegada da lógica aristotélica continua a ser o referencial do pensamento. Porque o "ser" como constante atributiva de qualquer variação conteudísca das culturas, é precisamente a posição de algo "como um" ente.
Já desde a capacidade inicial - Piaget descreve acuradamente como o bebê começa a ter percepção de um objeto posto a sua frente - a relação construída da constância do objeto é com o lugar. O bebê começa a perceber o objeto que contudo se move - um brinquedo colorido é colocado à sua frente, e a mão que o segura o faz mover-se. Assim que o bebê nota que se moveu, procura-o do lado onde o objeto estava - não começa por acompanhar o rumo do movimento do objeto.
O bebê que nasce parece que só tem de inato o instinto de sugar. Até mesmo o movimento da pupila necessita algum tempo para se estabelecer. O que estou objetivando afirmar é pois que as capacidades construídas não o são de modo aristotélico, isto é, a partir de uma categoria única, como a substância, quid ou essência, ao modo de um signo isolado a partir do qual as categorias "acidentais" que são relações como tempo, modo e lugar, viriam a ser acrescentadas. Mas inversamente, a referência do "que é" só é construída como capacidade psíquica a partir das relações complexas.
Ora, todas as teorias do inconsciente até agora tem sido prejudicadas pela concepção aristotélica "lógica" da preminência categorial da substância sobre todas as demais como circunstâncias por serem categorias de relações. E mesmo onde a terminologia da "categoria" deveu ceder ao conceito de "existencial", como em Heidegger, onde não se trata diretamente de teoria do inconsciente mas sim da "pre-compreensão", a preminência denegada da lógica aristotélica continua a ser o referencial do pensamento. Porque o "ser" como constante atributiva de qualquer variação conteudísca das culturas, é precisamente a posição de algo "como um" ente.
Retornando
ao tema antropológico, se a questão do político é objeto de classificação
porquanto se estuda unicamente em função do desempenho da soberania, aqui
estamos estendendo como nível público todas as instituições estudadas, desde
magia, ritual e religião, até as formas de casamento e parentesco, mais as de
produção de bens e as relações associadas que inclusive podem o ser muito
longinquamente à produção material. Como o mostra a
instituição de troca de presentes estudada por Malinowski nas tribos do
Pacífico, que ao mesmo tempo que se mostra fundamental à socialização não
se conceitua relevante como produção econômica ainda que paralelamente se
estabeleçam formas de troca de mercadorias. Todos esses traços são obviamente
implicaturas de um nível público a ser realizado pelos sujeitos como
heterogeneidade.
Ou seja, se todas elas colocam um nível público, o que está
implicado no próprio sistema da linguagem, o que estamos notando é que o
sistema, formalmente reduzido, para nada serve à ciência social e à teoria do
inconsciente. Ou seja, o que o sistema da linguagem põe de relevante a essas
problemáticas é a variação do seu uso que implica a variação da apreensão
da própria alteridade do signo geradora da fala de qualquer alteridade pensável.
Que algumas sociedades correspondam a usos em que a identidade mais reificada é
somente o dizível e o pensável, onde o outro só pode ser pensado por
identificação ao ego ou a uma característica pressuposta pelo ego, caso
contrário deve ser eliminado ou subordinado, não se está negando, mas sim que
elas sejam maioria ou que sejam determinantes para a compreensão do que ocorre
em termos de inconsciente. Tais são as sociedades imperiais, aristocráticas ou
que implicam dominação identitária de grupos sobre outros grupos.
No entanto, a imbricação dessa reificação com a metafísica desde Platão - que
era um inimigo declarado da democracia, um pensador integrante
da reação aristocrática - é o que historicamente se
imbrica à constituição das formas constitutivas da dominação no espaço europeu
até a sua transformação geopolítica devido ao trânsito colonial-imperialista. O
signo na sua materialidade não pode ser "visto", é o contingente, e
não o necessário. A redução da linguagem ao significado (ideia) implica a
impossibilidade de que haja alteridade no "ser". O papel social é
imediatamente "natureza", a identidade social é significado do
sujeito.
Inversamente, onde não há essa identificação imperial ou oligárquica, todas as
vezes em que a materialidade (alteridade) do signo é
"visível", o correlato da fala mede apenas o estado presente da
heterogeneidade dos motivos, sua negociação. O papel social é pensável do nível
supra-pessoal, como na sofística ("Nomos").
Ora, quando Lacan distingue entre imaginário e simbólico, no seminário a
propósito do "eu na teoria de Freud...", ele fornece um exemplo onde
instala expressamente o "sofisma" - tendo o sentido aristotélico
de raciocínio falso - a saber, no imaginário. O simbólico é o lugar
do silogismo, porque sendo o espaço do ato do sujeito, esse
ato entredestina o ego e os outros como um resíduo
significado ou ordem.
Sem precisar descrever de todo o exemplo, temos três sujeitos postos numa
situação tal que a libertação de um deles da prisão depende de
deduzir, conforme o que vê nas costas dos dois outros, o sinal que o distingue
às próprias costas, que ele obviamente não pode ver. A situação é tal
que o raciocínio do sujeito a partir do que vê nos outros só pode ser imaginário,
um sofisma, porque não comporta uma dedução real, dadas as premissas
insuficientes postas aos sujeitos.
Mas supondo que um dos sujeito se tenha a partir desse raciocínio
falso, como portando um sinal que lhe permite ser solto e ele se encaminha
efetivamente, antes dos outros, para fora da prisão, então o ato pensante da
sua deliberação está instituído não mais como sofisma ou imaginário, mas
dotado de validez na ordem simbólica. O que ocorre é que o sujeito avança a partir do que ele vê os outros fazerem, o que revela a solução do enigma posto pelo enunciado sofístico a princípio (falso).
Na interação com os outros mas a partir de algo dado como lógico ao invés de totalmente amorfo, ele realiza a identidade do ato à sua premissa de forma tal que implica não só a posição revelada para si do sujeito pensante, mas a partir desta, a posição que vai ser imperativamente (verdadeiramente) a dos outros. O raciocínio tornou-se efetivo (silogismo) porque o sujeito equacionou o pensamento dos outros a partir da atitude deles em relação a si, e assim interpretou o que eles deveriam estar vendo às suas costas como também cada um às costas do terceiro restante.
Na interação com os outros mas a partir de algo dado como lógico ao invés de totalmente amorfo, ele realiza a identidade do ato à sua premissa de forma tal que implica não só a posição revelada para si do sujeito pensante, mas a partir desta, a posição que vai ser imperativamente (verdadeiramente) a dos outros. O raciocínio tornou-se efetivo (silogismo) porque o sujeito equacionou o pensamento dos outros a partir da atitude deles em relação a si, e assim interpretou o que eles deveriam estar vendo às suas costas como também cada um às costas do terceiro restante.
Assim como vimos em Foucault, só se pode pensar a heterogeneidade, a
multiplicidade de papeis, a partir de uma ordem única, a linguagem é redução de
um significado ordenador originário, premissa rigorosamente aristotélica: seja
o que for que se diga, seja qual for a intenção mentirosa com que se o diga,
pensa-se x quando se diz x. É exatamente com essa determinação do
pensamento que o sujeito do exemplo lacaniano conta.
Há um substrato (ser) que se mantém rigorosamente o mesmo entre o ser, o
pensar e a linguagem, de forma que se o substrato corresponder a uma mentira, é
com relação ao ser que isso se dá ou não se dá. Aristóteles acreditou
assim ter revertido todos os posicionamentos sofísticos e no mesmo lance ter
garantido a subsunção da linguagem ao crivo da realidade extra-linguística, à
realidade em si. Poderíamos redarguir que não obstante a sinonímia que atribui
a metafísica, entre paradoxo e sofisma (falso raciocínio), na verdade o
paradoxo não é aquilo que põe uma afirmação falsa como se fosse
verdadeira, mas uma formulação na linguagem que não tem nem pode ter um
correlato no pensamento. Inversamente, na teoria aristotélica um
juízo de valor está embutido em todo uso linguístico, porquanto trata-se de
desonestidade intelectual negar o que necessariamente se pensa no que se
diz. Obviamente, nessa formulação a linguagem e o signo são suplementares
em relação ao que se pensa (enunciado).
Se o Aristotelismo original não possui janelas para a questão do sujeito, mas
sendo o que aproxima Freud e Aristóteles é o fato deles serem pensadores do
movimento, a evolução no conceito deste (Kepler) e a subsequente conquista da
física termodinâmica, o aparelho psíquico freudiano pode ser convertido num
neoaristotelismo por fornecer como supõe Lacan, a garantia da determinação do
substrato na linguagem.
Conforme Lacan: "O discurso universal, concreto, que vai prosseguindo
desde a origem dos tempos, é aquilo que foi verdadeiramente dito, ou melhor,
realmente dito - pode-se ir até aí para fixar as ideias. É em relação a isso
que o sujeito como tal, se situa, ele está inscrito aí, é por isso que ele já está
determinado, com uma determinação que é de um registro totalmente diferente do
das determinações do real, dos metabolismos materiais que fizeram-no surgir
nessa aparência de existência que é a vida. Sua função, na medida em que ele
continua esse discurso, é a de se orientar quanto ao seu próprio lugar, não
apenas como orador, mas, desde já, como inteiramente determinado por ele".
Lacan institui assim a noção de "escanção" como o momento da inserção
efetiva da fala do sujeito que é ao mesmo tempo determinante do seu lugar (para
si) e determinada por esse lugar (em si). A escanção demarca a decalagem da
fala à linguagem, como a inserção da fala de um sujeito entre as demais
falas, toda a seriação sendo por sua vez dependente da linearidade do
significante como premissa universal da linguagem.
Podemos aqui apreender o determinismo do "nome do pai", porque esse
lugar determinante/determinado é o de um sujeito nessa "sociedade"
suposta como o discurso dos seus lugares marcados identitariamente. Mas a
sociedade não precisa por isso não ser a moderno-ocidental, bem inversamente, é
quase determinista a evolução social que deve igualar as premissas identitárias
exclusivamente ao simbólico, dependendo cada vez menos do imaginário dos aparatos
do "poder". O papel da psicanálise é explicar como a premissa
identitária inscrita na linguagem como a função do falante é realizada desde o
inconsciente na formação subjetiva. Essa premissa, portanto, é o que estamos
demonstrando aristotélica. O que não se poderia pensar é que a própria ordem
significada (ou dos lugares) é o resultado sempre infixável da negociação em
nível supra-subjetivo. Essa é, por outro lado, a teoria que estamos atribuindo
aos sofistas. Nesse sentido ela também é anti-foucaultiana.
Mas
por esse viés, Lacan igualmente se distingue nesse texto sobre o
"eu na teoria de Freud... ", de Platão, o que ele não faz de
Aristóteles - inversamente, o Encore desenvolve a aproximação explícita
de Aristóteles e Freud.
Creio assim
que podemos notar nesse texto a propósito do "eu na teoria de
Freud...", um material lacaniano muito oportuno ao cenário atual porque no
ponto em que podemos situá-lo, como também no Encore, como um
neoraristotelismo, ele aqui libera a sua crítica do que a meu ver anda
funcionando como um neoplatonismo, como seria exemplificável o
"bersonismo" deleuziano. Trata-se, aliás, do que enuncia O.
Mannoni, posto que nesse seminário os participantes intervém com bastante
frequência, e posições alternativas ao que está sustentando Lacan são
expressas.
Especialmente a linguagem - como oponível à fala - é um tema aí polêmico. Para
Mannoni, trata-se de que na linguagem "não há eu nenhum", ao
que Lacan se opõe: "E por que será que o senhor diz que dentro disto
aí, o sistema dos eus não existe? Pelo contrário, ele está perfeitamente
incluído aí".
A opinião de Mannoni é o que me parece um bergonismo, se substituirmos
"linguagem" por "tempo" ou "evolução" como todo
de significações possíveis, já que para Mannoni "a linguagem é uma
realidade geometral" sem perspectiva, onde cada fala vai instalar-se
como uma perspectiva "cujo centro é um eu".
Assim também para Bergson na interpretação de Deleuze,
especialmente como tratado em Proust e os signos. O
virtual, o que instala a síntese da memória ou registro além da libido, é
exatamente um ponto de vista no tempo puro como passado puro em relação a
que o sujeito instala a sua temporalidade como imagem (ideia) de mundo - do seu
mundo possível. Assim, conforme o estado de sua memória, o que ela
institui como possível ou bloqueia, mesmo que do ponto de vista da libido o
sujeito pudesse executar certos atos, tais atos seriam
impossibilitados como incompatíveis com a imagem virtual de mundo que
implica não um "sujeito" (constante "eu"), mas a
função (variável) prescrita como vidente desse mundo. Como o
comum moderno-ocidental são os que aprendem uma ideia aproximada de mundo, o
habitual é a variável ser preenchida por um "eu" (identidade eu=eu),
mas o artista, como Proust, o que ele persegue é a "essência artista", a ideia
virtual que é sua perspectiva singular, não comum, ponto virtual
(estético) a partir do qual se desencadeia toda linguagem singular da
obra.
Para Lacan, o platonismo é isso porque o correlato da perspectiva é uma
imagem, e é nesse limite que Platão circunscreve a ideia ou identidade, em
vez dela ser o correlato da articulação silogística. Se a ideia fosse um quid
por si, não um que resulta da articulação do sujeito na situação da sua
alteridade (em relação aos outros), tudo restaria imagem, e imaginário. O
platonismo teria que ser ultrapassado para chegar-se à ordem simbólica. Creio
que de fato esse é um problema não resolvido na teoria esquizoanalítica.
Por outro lado, se não podemos evitar a limitação que evidenciamos a propósito
da própria forma como a antropologia social circunscreve a questão do político
- que aqui lemos como a da alteridade - ao traço de organização da soberania,
ainda assim podemos constatar que a reação metafísica não implica qualquer
necessidade inscrita na formação das relações sociais, mas tampouco a unicidade
silogística.
§§§§§
Willems observa a propósito o que nos permite situar desde já, da mais sucinta
forma possível, nossa crítica da analítica lacaniana. Não se trata de recuar da
asserção do nexo intrínseco do Saber com o gozo, assim entendendo-se a tópica
desse gozo de que aquilo que se produz é Saber, práticas inteligíveis de
"mundo" nesse parâmetro da interatividade produtiva e interpessoal.
Mas se tudo isso se tornou, para o próprio Lacan, "político" num
sentido, porém, crítico dessa palavra, ou seja, como sinônimo de
"dominação", porque assim deveio a história do Saber
(Ocidente/capitalismo), o que estamos objetando é sua dedução de que esse tenha
sido um efeito não só necessário porque decorrente do modo mesmo de ser do
Saber na sua relação essencial com o gozo, relação prévia estruturalmente a
todas as suas variações estruturáveis; como também que dessa necessidade é que
advém qualquer possibilidade de liberdade, isso não devido à circunstância ou
efeito histórico do capitalismo ter se planetarizado - ou como diria Deleuze,
ser planetarizante - mas porque a anterioridade da dominação para si
desse Saber não era outro dele Mesmo. É a essa dedução que classifiquei como
neoaristotélica. O aristotélico nisso é essa mesmidade do Saber e de que ela é
dada, a unidade significante. A novidade é que essa unidade Lacan está
postulando, assim como estou entendendo por ora, do Sujeito (Je), não como
possivelmente Aristoteles a teria postulado, do "conhecimento" (Physis/Noema).
Não evitaremos a complicação que me parece ter sido muito bem percebida por
Lacan, pelo que pode ser que esse "conhecimento", por estar
relacionado ao estatuto do noemático, nada guardasse do que não permitisse o
trânsito à sua novidade.
Mas essa é uma complicação um pouquinho maior do que se poderia prever, já que
estamos afirmando, inversamente, que a unidade que Lacan obteve,
prodigiosamente lógico-histórica, do Saber ocidental desde Aristóteles, na
verdade não existe, o que implica imperativamente uma releitura de Hegel. Esse
imperativo já desde aqui podemos evidenciar qual seja a sua motivação.
Não obstante toda a utilidade e qualidade do Dicionário de Abbagnano,
não podemos concordar com sua afirmação de que "todas as discussões que
a definição hegeliana do Devir fez nascer entre os hegelianos (e também entre
os não hegelianos) aparecem hoje como completamente ociosas", porque
segundo o que explana no verbete correspondente, o Devir em Hegel seria
conceito "não muito diferente" daquele já postulado por Aristóteles.
O interessante aqui é que Abbagnano não tenha reduzido essa concepção
Aristotélica a uma definição seca, de modo que podemos apreciar o humor de que
tal como o Ser, para o Estagirista, conforme a citação da Física (I, 7, 190 a
30) também "o Devir se considera em muitos sentidos".
O que precisamos, e o que espero demonstrar que alcançamos - e que talvez hoje
em dia, só alcançamos - pela crítica à psicanálise na sua enformação
lacaniana, é afirmar que Lacan realmente posicionou o que se devia superar. O dilema entre a inteligência prática de Marx/Piaget e a objeção válida de que
o cognitivo puro resta presa da abstração de um sujeito puro, sem relação com o
gozo. Se hoje já estamos mais conscientes do que implica a inteligência prática em termos de superação real da metafísica como divisão categorial de substância e relação, então encetamos o rumo proveitoso da integração do gozo à questão do sujeito. Porém não devemos esquecer que Lacan mesmo definiu "sujeito" em termos de "sujeito epistêmico".
Assim, Cassin não estava numa trilha incerta ao relacionar a questão da
sofística com a do gozo, nesse sentido pelo que podemos lê-la como tendo
operado uma "análise" da sofística, levantado da sua fala o que ela
diz do gozo em que ela se produz. Mas como lacaniana, ela permanece na miragem
aristotélica do gozo único de que se faz a medida do distanciamento da fala ao
que ela produz. Por isso, o que seria mais importante a reconstituir da
sofística, sendo o que a sofística não cessa nunca de afirmar de si, o estatuto
positivo do político, não se possibilitou pela análise de Cassin.
Nesse encaminhamento freudo-neoaristotélico, "político" é o oposto de
"psicanalítico" assim como opomos o falso ao verdadeiro, o que seria
a ilusão da democracia e dos direitos humanos ou mesmo da concepção da liberdade
na abrangência da sociedade, e o que seria o enfrentamento consequente
do que se pode demonstrar com toda segurança ser a psique humana, suas
exigências, suas paixões. O heterogêneo, não é que não existe para Cassin, mas sim que é apenas o lugar da equivocidade. Como não existe para o gozo, o que a sofística produz "sabiamente" é a ilusão do consenso. A crítica à Aristóteles se limita a que ultrapassar esse limite por uma exigência identitária é negar a alteridade. Não considero que esse seja o limite do político. Para ser assim não haveria justamente o que a oposição de physis e nomos sofística permitiu pensar na Antiguidade, a saber, a oposição de público e privado. O consenso público é realmente decisão da heterogeneidade em termos de leis da coexistência - assim essas leis não são ditadas por um déspota ou grupo suposto superior aos outros, nem variam ao sabor do que cada um supõe que devessem ser. Por outro lado, o consenso público em termos das leis instituídas por aparatos de representação efetiva da população, não é apenas fantasia ou verdade de um "significado" comum acerca dos valores relativos ao costume privado que pelo contrário, na democracia deve ser suposto heterogêneo sem necessitar de "consenso" algum. Esse plano dos costumes é pois tanto o da pluralidade dos indivíduos como o da cultura em devir.
Não devemos tampouco recuar frente ao entendimento da magnitude da crítica que Lacan está assim procedendo: o ocidente normal é a subalternidade das margens, o que se designa liberdades políticas e democracia na verdade corresponde a uma dominação, portanto, não seria pelos discursos liberais que construíram essa mera aparência que poderíamos alcançar a liberdade, se a almejamos. Não obstante, o que devemos notar nesse ponto é que aquilo que Lacan está posicionado como "uno", ao mesmo tempo o liberalismo que se concebe como oposto do poder totalitário e a realidade da dominação ocidental, pode não proceder da mesma fonte.
Não devemos tampouco recuar frente ao entendimento da magnitude da crítica que Lacan está assim procedendo: o ocidente normal é a subalternidade das margens, o que se designa liberdades políticas e democracia na verdade corresponde a uma dominação, portanto, não seria pelos discursos liberais que construíram essa mera aparência que poderíamos alcançar a liberdade, se a almejamos. Não obstante, o que devemos notar nesse ponto é que aquilo que Lacan está posicionado como "uno", ao mesmo tempo o liberalismo que se concebe como oposto do poder totalitário e a realidade da dominação ocidental, pode não proceder da mesma fonte.
Se explorarmos devidamente o que a própria Cassin descobre como importante à
palavra sofística, o "prazer de falar" - que no entanto é o que
Aristóteles tanto lhe critica - podemos mostrar em que esse estudo deve ser
posicionado frente ao de Foucault sobre o desejo grego em O uso dos prazeres. Posto que para Foucault
não haveria nele bem um prazer, isso a se evitar a seu ver, na mentalidade dos gregos que o temiam como o excessivo, mas um fruir, isso a se
selecionar. Nada de palavras e tão somente o fruir das coisas (bebida, comida =
sexo). Foucault não falou, pois, sobre o prazer de falar.
Aqui é que se mostra o nexo que estou construindo com o estudo de Willems - isto é, com a antropologia social. Esse prazer de falar da sofística greco-antiga, em
vez de o instalar no consultório psicanalítico, como faz Cassin ao
conceituar o empreendimento terapêutico da antiga Retórica como a antecipação do divã freudiano em plena Antiguidade, me parece que ele é
decorrente da prática; que então poderemos contra as aparências designar
política nesse sentido de societária, como nível outro que o interpessoal ou
privado, atribuível às sociedades igualitárias.
A dificuldade desse assunto - do estatuto do político nessas sociedades - é
enfrentada por Willems de modo a deliberadamente posicionar-se em meio às
"chicanas terminológicas", ambiguamente atribuídas na construção
desse trecho ("Organização política", cap. 4: "Estruturas
políticas centralizadas"), seja aos "ismos" das escolas
antropológicas (funcionais ou estruturais), seja ao que impede os
estruturalistas de enfrentarem com maior largueza de vistas essa questão. O
fato de lidarem com rótulos fixados para distinguir aparelhos especializados
como condição necessária à classificação de uma sociedade como dotada de
Estado, isto é, "política".
Ora, que não se trata apenas de estar invectivando os estruturalistas, e
reduzindo os fatos de estrutura a mera terminologia, quando se aduz que não é
isso, mas sim que são "as funções políticas, em suas relações com a diferenciação
estrutural, que põem um dos problemas básicos no estudo da organização
política", é o que se nota mais à frente, quando Willems resenha os
posicionamentos a propósito. É contra Radcliffe-Brown, não imediatamente contra
o estruturalismo, que ele tem assim que se colocar, se for o caso de concordar
com Adanson Hoebel, a propósito dos Yurok como exemplo de sociedades consideradas as mais simples, que eles tem, sim, uma
"autoridade judiciária" que pode chegar a ser designada
"tribunal"; enquanto Radcliffe-Brown, inversamente, asseverava que "entre
os Yurok, que são apanhadores de alimentos e caçadores da Califórnia
Setentrional, onde vivem em pequenas aldeias sem organização política, não há
um processo regular para tratar das ofensas contra a comunidade e portanto não
há lei de delitos públicos".
Mas a posição de Willems é ainda ulterior à de Adanson, posto que para ele o problema reside no fato de que "para os que não podem conceber
uma organização política sem governo, o mecanismo legal dos Yurok deve
permanecer um mistério impenetrável". Esse mecanismo foi mais
minuciosamente descrito por Kroeber, que concordou com Radcliffe-Brown quanto à
ausência de autoridade política na acepção de cargo governamental atribuído, mas não pôde ir até à ausência de leis. Havia,
inclusive, o papel social dos "atravessadores", contratados pelo
Yurok que julgasse ter "uma pretensão legítima" contra um ofensor. Em
geral deviam ser dois não parentes de uma comunidade diferente da sua, e também
o querelado devia fazer o mesmo, pois os litigantes não se enfrentavam face a face na
disputa.
Os "atravessadores" são assim designados porque deviam
"atravessar" de um lado ao outro, entre ambos, ouvindo ambas as
partes, e depois de ouvir tudo o que havia para ser dito de cada lado como
prova e argumentação, eram os "atravessadores" que exprimiam um julgamento sobre
os fatos. Mas essa simplicidade não deixava de comportar verdadeira arte de
negociação, pois cada litigante "tira tudo o que pode" de um
argumento ou provável evidência, "exerce pressão e resiste
vigorosamente", sobretudo quando o julgamento não lhe parece
aceitável.
O processo geralmente conduz a um julgamento aceitável a ambos os litigantes,
que é uma concessão mútua em graus variados. Aqui, no entanto,
menciona-se também que negocia-se frequentemente com "o
poder, a resolução e riqueza", que "dão grandes vantagens"
na decorrência do processo e por isso "nem sempre se faz
justiça". Em todo caso, os "atravessadores" deviam ser pagos
com uma moeda de concha, denominada "moccasin". Mais uma vez,
o que se observa tem as características de um "tribunal" na
concepção de Adanson.
Obviamente se observa a contradição entre a classificação de "sociedades
igualitárias" e os traços mencionados de desigualdade. Mas essa é a
espécie de questão com que se confrontou o marxismo a partir do acúmulo da
evidência antropológica no decorrer do século XX. É que o corte marxista de
classe não funciona adequadamente quando se trata de sociedades em que a
desigualdade não se descreve a partir de um radical inacesso a bens.
Inversamente, ela decorre de um acesso comunal prévio, não discutível.
Além disso, com os Yurok estamos em meio ao exame de um tipo de sociedade já
intermediária entre as que podem ser designadas "igualitárias" sem
qualquer restrição, e as que se designam também desse modo inequívoco como
"Estruturas políticas centralizadas". Mas já entre os Chagga,
agrupados na mesma espécie de sociedade, há preceitos tradicionais que
expressam a limitação do poder dos chefes, ligados a essa questão. Ao chefe
eles se endereçam, a sociedade expressando sua renúncia à posse da terra que se
torna da sua responsabilidade, conquanto "não desprezardes o conselho
dos vossos homens", dentre os quais a injunção "protegei os
pobres contra os ricos", pois "se contemporizares com essa gente
trareis miséria ao vosso povo".
Convém especificar os parâmetros estudados. Nas sociedades igualitárias,
Willems agrupou os Povos Marginais da América do Sul, os Ona e Yahgan da Terra
do Fogo, os índios dos rios Pilcomayo e Bermejo.
Entre as intermediárias, onde há uma concentração do poder mas ela é
chamada "instituicional" e não uma verdadeira centralização, ele
estuda nesse volume também, junto aos Yurok, os Kai da Nova Guiné, e na
região do Pacífico, ainda os Tikopia (Ilhas Salomão) e os Kalinga do
Luzon, mar das Filipinas; os guianeses Makusi, Akawai e
Oyana; os araucanos do Chile; tribos da Planície entre os quais
os Cheyenne e os Kiowa de Oklahoma; na África, os Oromo; sociedades
secretas tais os Egbo, Purah, Billi e Jahre; e os já citados Chagga do
Quilimanjaro, em Tanganica. As instituições de cada povo são peculiares
o bastante para não dispensarem o seu estudo pormenorizado, mas aqui o que está
nos interessando é apenas a especificação da questão do Poder de um modo mais
generalizado.
Entre as sociedades centralizadas politicamente, Willems examina os Zulus da
África do Sul; e o reino de Ankole na Uganda Ocidental, formado da
conquista do povo Bairu de língua Banto pelo povo camítico Bahima.
O que se precisa considerar é o tipo de mudança que conduz à necessidade
da centralização, e geralmente um critério de "conquista e incorporação
de comunidades culturalmente diferentes" está presente, mas - aqui
obviamente algo contra o suposto por Clastres, assim como por Deleuze-Guattari
- isso não é absolutamente necessário. Pelo contrário, se é relativamente comum
que uma organização imposta a povos que tem modos diversos de ganhar a vida
estabeleça hierarquias e centralização da autoridade, povos culturalmente
homogêneos não são incapazes desse tipo de centralização, e o mais importante é
que uma vez havendo a centralização, as diferenças culturais marcadas tendem a
ser suprimidas. "A homogeneidade cultural não é incompatível com o
governo centralizado e a diferenciação administrativa, mas a persistência de
diferenças culturais marcadas o é". Assim, os Zulus são um povo não
"marcadamente estratificado", mas apresentam unidade política sob uma
autoridade centralizada.
O que estamos considerando refuta cabalmente, portanto, a divisão positivista-oitoscentista de Morgan entre selvagens, bárbaros e civilizados, assim como a reutilizou Deleuze e Guattari no Anti-Édipo. Ou seja, propondo eles que as sociedades selvagens não possuem centralização do poder, mas que quando há Estado como essa centralização, configurando-se sociedades bárbaras, então houve a unidade transcendente de um déspota como polo do poder, o qual se realizou por dominação das comunidades distintas até aí selvagens. O que estamos constatando com Willems é que polos centralizados de poder - só o que Deleuze e Guattari assim como Clastres atribuem como Estado - ocorrem em sociedades simples caracterizadas como selvagens, em termos de dominação sobre grupos intraétnicos, ainda que não seja esta uma condição generalizada mas a circunstância de sociedades determinadas.
O que estamos considerando refuta cabalmente, portanto, a divisão positivista-oitoscentista de Morgan entre selvagens, bárbaros e civilizados, assim como a reutilizou Deleuze e Guattari no Anti-Édipo. Ou seja, propondo eles que as sociedades selvagens não possuem centralização do poder, mas que quando há Estado como essa centralização, configurando-se sociedades bárbaras, então houve a unidade transcendente de um déspota como polo do poder, o qual se realizou por dominação das comunidades distintas até aí selvagens. O que estamos constatando com Willems é que polos centralizados de poder - só o que Deleuze e Guattari assim como Clastres atribuem como Estado - ocorrem em sociedades simples caracterizadas como selvagens, em termos de dominação sobre grupos intraétnicos, ainda que não seja esta uma condição generalizada mas a circunstância de sociedades determinadas.
O acontecimento decisivo à centralização Zulu parece ter sido o
treinamento militar, a formação de um exército organizado. Estudando os
Zulu, demonstra-se que isso que garantiu a autoridade do rei sobre
toda a região cultural das tribos Zulu. Em contraste, "os Chagga nunca
reconheceram uma autoridade supertribal".
Mas é o mesmo para Ankole, que inversamente aos Zulus, é um reino culturalmente
heterogêneo e altamente estratificado. Os Bairu são feitos subalternos, não só
do ponto de vista da produção onde eles são tributados em cerveja e milho
miúdo, mas do ponto de vista cultural, sendo estigmatizados por serem menos
altos e menos claros que os Bahima. Entre os dois extratos, não podia haver
casamento, por exemplo, mas havia concubinato. O filho dessa união ilegítima de
pai Bahima e mãe Bairu só poderia herdar como Bahima se não houvesse outros
filhos de união legítima, e de um modo geral ele é um Bairu.
Até aqui, Willems condescendeu com o aparecimento da forma intermediária
ser conceituada como resultado de um acréscimo de funções: as
sociedades rigorosamente igualitárias são geralmente de economia de
subsistência. Por isso elas não são levadas ao desenvolvimento de técnicas -
como o recrutamento de uma força policial ou militar - de consolidação do
poder. Não há excedente para isso. Contudo, a existência de leis implica a existência informal da força de tipo policial e militar, como Willems demonstra ser exemplificado pela aplicação de penalidades na decorrência de transgressão à ordem da assembleia deliberativa ou em caso de guerra.
Nesse sentido, ele está mais próximo de Hume que pensava o poder governante (central) como algo relativo, dependente na realidade não da anuência do povo, mas sim da força de sua côrte, sua casta de armas.
Nesse sentido, ele está mais próximo de Hume que pensava o poder governante (central) como algo relativo, dependente na realidade não da anuência do povo, mas sim da força de sua côrte, sua casta de armas.
Sendo assim, se o povo deixa de anuir, pouco importa à realeza desde
que sua casta esteja suficientemente armada para enfrentar a sublevação.
Uma vez contornado o pico da revolta pela força, o povo volta a
"anuir". Na verdade a história mostra que não é assim tão
simples. A imperatriz Teodora na antiga Bizâncio ilustraria suficientemente o ponto de vista de
Hume, ao triunfar sobre a gigantesca revolta popular de Nika, e de
fato pela magnitude da revolta a mera decisão de enfrentá-la pareceu singular;
mas o quadro revolucionário que marca a transição ao Estado
contemporâneo, obviamente não serviria de apoio a essa tese. Por outro
lado, como me parece demonstrável, Lacan sustenta a perspectiva inversa,
pelo que toda política, sendo dominação, trata-se de uma tirania como fato
estrutural decorrente como desejo, do fascínio do significante.
O inconsciente é "histérico", ele quer um
"mestre", quer um Senhor, e se for preciso chegar a pensar
as sociedades não-edipianas, se elas não tem o discurso do mestre elas não
deixam de ter o significante-mestre, ou então os seus sujeitos não poderiam
pensar, ou seja, realizar o sujeito universal da predicação =
"todo x". Isso é o que estou designando a fórmula aristotélica do
pensar, mas também Lacan o designou assim (em "de um discurso que não fosse
semblante"). Inversamente à crítica de Deleuze, porém, essa fórmula não
implica apenas um postulado da representação (recognição).
Pois, também Lacan sublinha que a histérica - de cujo discurso dependeu evolutivamente a
produção da psicanálise inscrita no lugar do discurso do mestre (do
Saber) - não é escravo. O que demarcaria a entrada do Saber ocidental,
com a psicanálise, no seu avesso, é a decalagem entre o querer da
histérica e o mestre do discurso, tal que aquilo que deste ela quer é
estruturalmente encadeado pelo fato de ser o mestre e o pai o agente da
castração. O mestre é castrado, vejam só! - como se expressou Lacan- talvez querendo fazer ver que o mestre se opõe ao gozo instintivo. Mas o desejo dela consiste em
ter o mestre a palavra de que ela seria o silenciar posto que abrindo
para ele a dimensão do gozo - ser o gozo dele, a joia na caixa; portanto, no
sonho da histérica que Lacan reporta, o objeto do seu desejo é a caixa em vez da joia. Esta já é
ela mesma, a caixa é o que ela quer (o mestre).
O discurso da histérica fala assim - é induzida a chegar a falar - o seu ser
(mulher). Se ela chega a isso, à fala do ser, ela se cura nesse sentido de cura
que consiste em eliminar-se o "sintoma". O analista,
conforme Lacan, induz o analisando à posição da histérica, e o que o analisando
vai realizar ao longo da análise é a fala suplementar do seu ser como desejante
do falo, seja na posição do homem cuja cisão é com o ter
(mesmo) do falo, seja na posição da mulher cuja cisão é o ter
(outro) do falo. Em todo caso, a duplicidade entre o Je e o que Lacan afirma
não ter um nome, chama o mais-de-gozar, mas creio que podemos designar o Moi, é
uma cisão interposta pelo falo entre o "homem" e a "mulher".
Inversamente, a relação senhor/escravo se instala pela ocultação
do parentesco do gozo com a verdade, ainda que a mola propulsora seja a
mesma que a instalação do discurso da histérica, o fato de que o discurso,
sendo do significante mestre, é fantasiado a partir do que é
verdadeiramente como ato do ser falante, que assim se torna o objeto de
um desejo de identificação do ser e da fixação do objeto a, definido significante
infixado/mais valia do signo/sujeito percorrente da linearidade do signo,
sujeito da "leitura" do real (sobre isso, expressamente a
"introdução" do seminário "de um outro ao outro")
Mas a ambiguidade do texto intitulado "o avesso da
psicanálise" é que tratando-se de um apanhado de críticas, inclusive as de
Lacan ao próprio Freud, há uma intenção expressa de clarificar o
"campo lacaniano" como crítica da sociedade e da contemporaneidade: "
... o ponto em que estamos da eclosão, do paroxismo do discurso do mestre numa
sociedade que encontra aí o seu fundamento"; mas há também, no outro
plano crítico que se dirige aos movimentos contra-psicanalíticos
pós-estruturalistas, a demarcação expressa da intenção de evidenciar que tudo encontra
aí o seu fundamento, e que esse fundamento é uma espécie de necessidade.
Ora, segundo Lacan isso implica o escravo, pois não há senhor sem subordinados.
Resta que se o senhor rouba o escravo, ele não o faz pela força, mas pela
renúncia do escravo perante ele. O escravo renuncia a quê? Não à luta
somente, inversamente à proposição de Hegel, mas à prova. Ele tem o saber que o senhor rouba, mas ele se
deixa roubar porque ele renuncia a ter que provar o seu saber que resta assim
apenas um
saber-fazer.
Necessidade, portanto, do Saber autonomizado do fazer, da história do Saber. Onde não há a
castração (Édipo), não há o discurso do mestre, mas aí o Saber é
impossível, e eis o escravo potencial da geo-ego-logia lacaniana. Saber (estrutura) de que Lacan faz
desse modo a gênese que fica no lugar do antigo senso-comum do homem animal
racional, agora bifurcado entre o primitivo e o epistêmico, história que se põe paralelamente a reconstituir e nesse
mister ele está sempre roçando o problema do Homem: essa história é da
"humanidade"? Não é a linguagem que depende do inconsciente e o
funda, e sim o inconsciente que depende da linguagem e é efeito dela, ele
afirma para contornar o inconveniente dessa generalização. A
"humanidade", não há uma história contínua dela, etc. Mas não cessa
Lacan de falar do "homem" e do inconsciente como o seu correlato. Em
todo caso, o discurso do analista é o termo consequente, mas ulterior, ao
discurso do mestre. Ele se instala no lugar do discurso do mestre, para
reverter a fixação do desejo. Ao que parece, podemos resumir a posição de Lacan do seguinte modo. Não há o político senão como instância do poder a partir do modo mesmo de ser fascinado que é o do desejo. Porém essa fascinação é apenas o móvel da história ou percurso evolutivo do significante até a autonomia da consciência. Então a saúde será realizada pela ciência como organização dos problemas específicos, não por instâncias políticas totalizantes. Essa perspectiva, ao contrário do que Eagleton pareceu supor ao afirmar que Althuser não entendeu Lacan, é a mesma de Althusser.
Não creio que Foucault, ao tratar criticamente a ciência como poder nesse mesmo sentido de organização dos problemas definindo o "governo" moderno-ocidental, tenha realmente pretendido uma solução diversa da de Lacan. Mas sim mostrar que o transformado é o desejo, não a instituição científica por si - assim, se há uma crítica do saber, uma arqueologia do saber e uma denunciação do poder-saber, etc., ela está do lado do desejo já emancipado, etc. A essa altura, Althusser também já realizara a crítica da "escola" como aparelho ideológico de Estado, ou destinação hierárquico-social expressiva da luta ou domínio de classe.
Não creio que Foucault, ao tratar criticamente a ciência como poder nesse mesmo sentido de organização dos problemas definindo o "governo" moderno-ocidental, tenha realmente pretendido uma solução diversa da de Lacan. Mas sim mostrar que o transformado é o desejo, não a instituição científica por si - assim, se há uma crítica do saber, uma arqueologia do saber e uma denunciação do poder-saber, etc., ela está do lado do desejo já emancipado, etc. A essa altura, Althusser também já realizara a crítica da "escola" como aparelho ideológico de Estado, ou destinação hierárquico-social expressiva da luta ou domínio de classe.
O seminário em que essa problemática "política" do Saber se esclarece
é de 1970 ("o avesso da psicanálise") continuado pelo que está
intitulado "de um discurso que não fosse semblante". Creio que
"o avesso da psicanálise" deveria ser lido em contraste com
mais dois outros livros, a Lógica do Sentido (Deleuze) e a
Gramatologia (Derrida).
Aí
estão as três posições da filosofia antiga, respectivamente aristotélica,
estoica e cética/sofística pois ainda que Derrida critique o ceticismo, na redução à Escritura o que ele desfaz é o "logocentrismo" como cientificidade da denotação possível. Ao contrário da denotação, teríamos os n contextos. Mas significativamente, Lacan não considera a
posição cética - disso ele expressamente se esquiva; mas
quanto à estoica, ele realmente parece estar em diálogo com a crítica à
psicanálise feita por parte desses "jovens", menores de cinquenta
anos, mínimo exigido para ser-se psicanalítica segundo Lacan - ele está sob a
censura de Vincennes.
Ele realiza assim, a meu ver, uma refutação que considero válida, da
suposta independência do estoicismo frente à antiga metafísica.
Confrontando a obra deleuziana dos inícios e mais tardia, parece nítido que
Deleuze não pôde sustentar o radicalismo inicial. Assim, enquanto na Lógica
do Sentido o estoicismo é equiparado ao Zen, em O que é a filosofia
há páginas inteiras dedicadas a mostrar porque o "pensamento chinês"
permanece na transcendência e só a filosofia grega é uma imanência do
pensamento ou real filosofia, e assim como o capitalismo no Anti-Édipo, agora "só o ocidente estende e propaga seus
focos de imanência", etc.
Ora, não obstante poder-se objetar que a explicação do domínio pelo
uso da força é extrínseca ao desejo, não explicando a "anuência" além da guerra civil, o ponto teórico de Willems é
que os dois pontos de vista, funcional e estrutural precisam ser interligados. E isso é o que se evidencia ao antropólogo desde os problemas postos pela
heterogeneidade de formas de organização política, desde que superado o
preconceito pelo qual "política" significa uma forma centralizada do
poder: " Se adotarmos um ponto de vista funcional em vez de formal ou
estrutural, muitos mecanismos de controle social encontrados entre sociedades
primitivas entrarão na categoria de controle legal, contanto que se possam
diagnosticar elementos específicos de força física, autoridade e regularidade.
Por outro lado, uma indiferença total pelos critérios formais conduziria
facilmente a uma hiperextensão do conceito funcional de lei. " Assim,
qualquer instituição social equivalente a uma sanção legal "deve
ocorrer necessariamente dentro de uma dada estrutura, ou criar algum tipo de
dispositivo estrutural".
É esse elemento da criação que devemos destacar. Que a estrutura é
pré-determinada depende de um parâmetro de linguagem que talvez não possamos
mais sustentar. No entanto, transigir da linguística da frase - em que já se
situa Lacan, não só da palavra - para a linguística do texto como a que temos já iniciada hoje, implica mais do
que apenas elevar a multiplicidade a uma categorização serial com vistas a
reduzir seu efeito à emergência de uma "superfície", como na
esquizoanálise de Guattari-Deleuze, ou como na Lógica do Sentido. Torna-se
sempre mais importante o estudo minucioso das sociedades igualitárias. Assim podemos questionar o princípio geo-ego-lógico ocidentalista de que a evolução do saber científico moderno-ocidental é realmente o requisito de um desejo irredutível ao fascínio da dominação.
A questão é se a multiplicidade que a crítica estrutural escava além do
que a estrutura mesma suscita como sua totalização significante, é mesmo
impensável ou impossível ao inconsciente realizar sem a catharse psicanalítica
ou o progresso do Saber (ocidental). Essa questão é posta pela esquizoanálise, por exemplo, mas de fato como vimos ela mesma não sustenta a solidariedade do desejo livre, não fascinado pelo signo, senão com o sistema social do capitalismo.
O interessante é que para contornar o problema, o estruturalismo lacaniano lida
com essas sociedades igualitárias adotando um argumento redutível ao
"funcionalista", como ao pressuposto de que elas são de pequena escala e economias de subsistência, criando vínculos de ajuda mútua que não devem ser quebrados para efeitos de sobrevivência do grupo. Assim também, conforme o estruturalismo, é porque elas são simples, é porque elas
não tem o "discurso". Mas então é preciso ser sustentável, como vimos
em Lacan, que elas tenham o significante mestre (a unidade do
desejo, o desejo do pai = que o gozo seja do pai) ou que elas não
pensam na acepção rigorosamente aristotélica de não lograrem obter a caracterização universal da substância ("todo" x).
Ora, a Lógica do Sentido baliza o caminho deleuziano que vai dar na
esquizoanálise, pois o principal é que, se esta embasa uma antropologia da
heterogeneidade no inconsciente, postulando um inconsciente selvagem que nem é
edipiano, nem está conceituado pela pressão de um Saber cuja problemática é
posta por outro inconsciente, o bárbaro-despótico ("imperial"), ela
resta na premissa estrutural que nesse campo da antropologia é lá enunciada em
função da disjunção gerada pela estrutura em si, como seu efeito; que só é
assim gerativa porque constitutiva da estrutura mesma.
A saber, a disjunção das duas séries significante e significado, aqui o objeto
"a" lacaniano sendo ao invés designado o "ponto aleatório" que percorre as duas
séries ramificando-as ou de algum modo conjugando-as. Continua Deleuze em pleno
"campo lacaniano", a meu ver, posto que não se renuncia ao seguinte
postulado expresso na Lógica do Sentido: "A série
significante organiza uma totalidade prévia, enquanto que a significada ordena
totalidades produzidas". Vem assim o "paradoxo de
Levi-Strauss" que consiste no fato de que, como Robinson em sua ilha,
alguém que começasse do nada uma sociedade não iria contruí-la pouco a
pouco ou gradualmente. Teria que se dar todas as regras de uma vez, posto
que o grau zero da sociedade é "a" lei - em Freud, a lei do pai, a lei da linguagem, etc. "O
universo significa bem antes de se saber o que ele significa...",
conforme Strauss é aqui citado.
Ou seja, conforme Deleuze esclarece (Lógica do sentido; "oitava série: da
estrutura"), uma sociedade qualquer tem desde a sua gênese, e essa é
sua gênese, todas as regras ao mesmo tempo, prescritas para todos os
seus campos - jurídicos e religiosos, políticos e econômicos, de amor e de
trabalho, etc. Mas a "conquista da natureza" se faz
progressivamente, seja das fontes de energia ou de objeto. A lei é dada toda,
ela pesa com todo o seu peso ("pèse de tout son poids")
"antes mesmo que se saiba qual é seu objeto, e sem que se possa
jamais sabê-lo exatamente". A disjunção capital de "o
avesso da psicanálise" está assim, a meu ver, obviamente
enunciada, portando entre o Saber e o know-how, intelecto e prática. Seria isso menos que platonismo?
Ora, por esse meio impossibilita-se a pesquisa da "inteligência
prática", posto que seria incoativa a tal disjunção, restando
assim puramente cognitiva por um lado, fora da concepção estrutural, por
outro.
Além disso, e esse é o ponto mais importante à minha argumentação, houve assim
de súbito uma redução do conceito de "lei" ao conceito de
"ordem", que se faz nesses estruturalismos, sem tematizar-se ou
justificar sua necessidade. Mas isso impediria
completamente que se discernisse uma lei obtida por representação
parlamentar democrática e uma lei outorgada por uma autoridade absoluta. Ambos
os problemas são reunidos quando se trata da questão social porque a obtenção
de uma fusão dos parâmetros funcional e estrutural implica que as práticas,
digamos, objetivas, de que uma sociedade é capaz estão numa relação
estruturante, ainda que não predeterminável, com o seu estatuto político
que aqui estamos designando as relações de alteridade que a sua linguagem
discrimina.
Lacan nos diz que não há "relação" no inconsciente, mas a estrutura
qualquer é posição de alteridade, e o inconsciente lacaniano se define, sim, em
termos de determinadas relações de inteligibilidade postas pela linguagem
"ocidental", ou seja, nesse caso a identidade e o princípio de
contradição. Deleuze-Guattari cuidam flexibilizar essas relações de
inteligibilidade e pluralizar as estruturas, mas eles conservam essa
"lei" da totalidade da estrutura como o que gera um inconsciente de sua
inteligibilidade.
Assim, do "registro" que na Lógica do Sentido supre o lugar da
história chega-se no Anti-Édipo à "memória" como corpo duplo daquele
corpo que age, um corpo feito totalidade (unidade) para si de modo tal que
o corpo que age na dispersão da prática não pode ser. A
história é reduzida, como havia sido a lei. Deleuze, no trecho que estamos
examinando da Lógica do Sentido, supõe que quanto a isso, não há o
problema da história versus a estrutura, inversamente, a estrutura solve a
aporia da história: "Eis porque é inexato opor a estrutura e o
acontecimento: a estrutura comporta um registro de acontecimentos ideais, isto
é, toda uma história que lhe é interior". Encontramos aqui esse
conceito de "registro" que vai ser capital na
esquizoanálise onde é sinônimo de "memória" naquele
sentido do corpo duplo (não orgânico/inconsciente/superfície
desejante de registro-signo). Quanto a "superfície", essa
a noção central da Lógica do Sentido como o referencial maior do estoicismo.
A superfície dos estoicos é em que os atos se efetuam. Eles deslocam assim a
substância (o "que", o ser do objeto) como objeto da proposição
lógica, ou como objeto do pensamento lógico que se diferencia do pensamento
representativo e da memória nesse sentido apenas de rememoração.
Os corpos estão sempre se misturando, na unidade da Natureza que é
Ser/Razão de suas misturas. Mas o que se diz dos corpos, para lá do ser
constituído puramente linguistico das proposições, não é uma realidade
corpórea, e sim o efeito do ato de um corpo (o verdejar da árvore; o engravidar
da mulher). Esse efeito é não-ser, mas num sentido que me parece oposto ao
não-ser sofístico, porque como vimos, em Gorgias o não-ser se deduz do não-pensável
do ser, enquanto para os estoicos, inversamente, não-ser significa ser apenas
pensável, não coisa ou corpo.
Formalmente, portanto, os estoicos seriam críticos da substância, por aí
críticos de Aristóteles, mas na verdade, se notarmos o nexo, em vez
de apenas a disjunção expressa, da lógica com a física estoicas, podemos
visar o estoicismo como uma depuração das dificuldades da lógica da substância
aristotélica, apenas a fim de melhor conservar a sua intenção que é de
preservar o dogma da demonstrabilidade da validez (do grego "higiez",
"saúde", como se fala num "argumento são", isto
é, Verdadeiro ) do argumento (silogismo/raciocínio). Ou seja,
conforme Bréhier ("La théorie des incorporels dans
l'ancien stoicisme") do que eles designam a "ligação"
(sinemménon) entre um termo antecedente e um termo consequente.
Assim, o importante aqui é notar que a noção de "ato" é
primeiramente aristotélica, e designa precisamente a supressão do devir como o
que só se põe na condição de potencial vir a Ser. Quando a condição potencial é
preenchida, ocorre o mesmo que o trânsito da privação à repleção, ou seja,
ocorre o trânsito do nada ao alguma coisa e daí ao ser que, no entanto, estava
prévio ao nada como o que deveria vir a Ser. O Ato torna-se portanto,
sinônimo de Ser. Quando algo é, ou veio a ser, esse algo é o que ele é, o ato
do seu ser, sua forma ou essência, independente do devir em que veio a
ser.
Não há paradoxo nessa teoria, posto que não há o nada em geral, o ser em
geral, mas cada fenômeno manifestando-se, "é" porque veio a ser desde
a condição potencial determinada em relação ao que ele é. Por exemplo, o
homem sempre vem do homem, através da prenhez da mulher. Mas um homem
só vem a ser essencialmente o que ele é, desde que sua mãe engravide.
Não obstante, um homem é sempre essencialmente o que ele é, independente
do vir a ser de todo homem particularmente considerado. A forma homem
é o ato de sua racionalidade.
Assim, para cada gênero de ser (vegetal, animal). Essa teoria
aristotélica é considerada na história da filosofia, como a solução da aporia
platônica da "kôra", ou seja, ela seria a inclusão do devir no pensar
válido (suposto demonstrado ou Lógico, não cético/sofístico). Mas
vemos como o devir está sendo "pensado": apenas como os modos
diversos que se podem pensar como de privação em relação ao Ser.
Por
outro lado, a distinção estoica de incorporal e corporal
está interna ao próprio pensamento, pois a representação das coisas, a
rememoração delas e até a ciência, sendo mentais, ainda assim seriam corpos,
pois resultam da impressão retida na mente, desde a pressão exercida pelos
objetos dos sentidos. O pensar incorporal, o raciocínio, inversamente, não
é a retenção de um correlato significado ("conceito",
"ideia" ou "noema") é um trânsito
ou "métabase" (implicação, transição) do "se" ao
"então", como nestes dois exemplos: se uma mulher tem leite, ela
engravidou; se é dia, está claro.
A crítica à substância aristotélica é fundada: se o postulado circuito do
devir ao ser permitisse que a forma ou conceito mental fosse Ser, nós teríamos
que ter algo mais para embasar a postulação do que meramente os fenômenos tais
como se apresentam aos sentidos, já que o que estamos fazendo é demonstrando a
validez da ciência, não a ciência ela mesma. Mas os estoicos apenas deslocam os
fenômenos (objetos) à sua atuação, ou seja aos fatos (acontecimentos)
como o domínio do pensável. Assim, é como se eles restringissem a física
aristotélica ao que ela verdadeiramente enuncia como o que da ciência se faz
pensamento válido.
Certamente Bréhier localiza a originalidade dos estoicos, mas também não deixa
de reportar sua relação rastreável com a filosofia de Aristóteles. Assim a
objeção dos céticos aos estoicos é uma espécie de segundo nível daquela que foi
endereçada a Aristóteles pelo estoicismo. Entre o "se" e o
"então" ou temos uma mesma coisa enunciada duas vezes, ou nada temos.
Os estoicos não hesitam em afirmar que se trata da mesma coisa: entre o ter da
cicatriz e o ter tido da ferida, o fato do ferir-se é o mesmo. A cicatriz e a
ferida são a mesma coisa, em momentos ou estados diversos. Mas assim que
implicação pode ter sido postulada, em termos de um raciocínio válido? Os
termos conservam-se extrínsecos, estão no devir, nem no ser, nem somente no
pensar. Tudo o que resta de válido
numa predicação seria tautologia, ainda que fora da predicação
nem pudesse ser "demonstrada".
Bréhier mostra como esse poderia, não obstante, ser o limite da filosofia
antiga. Na filosofia moderna, essa dificuldade estaria solvida pela lógica
indutiva que vai contar com uma ciência que não é apenas a recolha dos fatos
observados, a fim de enunciar o seu ser, mas sim o estabelecimento de leis como
constantes fenomênicas ou invariáveis. Entre o antecedente e o consequente da proposição hipotética,
certo, o laço permanece extrínseco, mas ele é garantido pelas leis que intervem
como o que permite assegurar a ligação. Essa noção de lei puramente fenomênica, que depende de ter vindo o empírico ao caráter do pensável é porém, estranha
aos antigos.
Segundo Bréhier, o campo da filosofia pode ser determinado pelo seguinte
axioma: "jamais os antigos creram que se pudesse pensar algo que não
existe". Assim, o "Lecton" dos estoicos, que é o
acontecimento expresso na proposição, não existe no sentido da existência
dos corpos, mas insiste ou subsiste como o verdadeiramente pensável da
proposição. O lecton é o fato (acontecimento), o incorporal,
aquilo que é efeito ou efetuado por um corpo. É tradutível como
expresso ("exprimable") ou sentido de uma proposição. Ele não se confunde com os
significados de cada palavra da proposição, não é um conceito, como já
assinalamos, sinônimo de um objeto. Dentro da limitação da filosofia antiga, os
estoicos seriam uma teoria original por ter deslocado o problema do significado
ao do sentido.
Já
Deleuze instala o estoicismo num outro aporte da filosofia antiga, que
seria o campo do paradoxo. Se os estoicos não mantiveram o pensamento numa
problemática da atribuição no sentido da essência, e se eles de fato operaram
esse mesmo deslocamento, então não podem ser julgados como tendo fornecido uma
teoria insuficiente da atribuição ela própria. O que eles instalaram de mais
básico, como a sua oposição de significante e significado, foi o sentido como articulação
entre ambas as séries, a dos significantes e a dos significados.
A premissa linguística estrutural de que decorre todo esse desdobramento do
inconsciente, e por esse viés o lecton dos estoicos, vem então como o
seguinte, conforme a Lógica do Sentido: "É que o significante
primordial é da ordem da linguagem; ora, seja como for ("de quelque
manière") que a linguagem seja adquirida ("acquis"), os
elementos da linguagem devem ter sido dados todos juntos, de um só golpe
("en un coup") já que eles não existem independentemente de suas
relações diferenciais possíveis. Mas o significado em geral é da ordem do
conhecido; ora, o conhecido está submetido à lei de um movimento
progressivo que vai de parte a parte, partex extra partes". Sendo
assim, "seja quais forem as totalizações que o conhecimento opera, elas
restam assintóticas (assymptotes) à totalidade virtual da língua ou da
linguagem".
Como em Lacan, Saber não é o mesmo que "conhecimento" (episteme). O
conhecimento pode ser que seja impossível na sua pretensão de enunciar o ser do
objeto enquanto tal, ele só enuncia o ser de si mesmo enquanto condição de
Saber (numa relação portanto derivada dessa condição) do objeto, e assim é que se torna verdadeiramente "episteme" na acepção moderno-ocidental de Ciência. Aquela mesma que Foucault definiu em A lógica do sentido como estrutural, quase-transcendental, etc. O saber lacaniano é da
palavra, o conhecimento é (se fosse possível, mas não é possível) das coisas.
Aristóteles é "metafísica" porque pensava que o Saber (lógica) podia
sustentar-se como "conhecimento" (ontologia).
Mas segundo Lacan, basta ao Saber enunciar-se nesse estatuto (aristotélico) da palavra lógica,
que ele leva direitinho até a modernidade e à análise e ao Significante que ele
"é" como operante, ou seja, que em algum ponto do caminho ele
precipita a fala dividida de um Descartes (Cogito/Sum), e de Descartes a Lacan
basta ter entrado em cena, ela, a Histérica, como objeto proposto de
"conhecimento". Mas isso, porque em cada uma dessas estações o Saber
falou o quanto pôde o ser que era o seu verdadeiramente, nesse seu nível.
Conforme Lacan, há tipos de analistas que produzem
literalmente psicóticos, em vez de sujeitos sãos, assim como se pode
deduzir por seus comentários que aquilo que o psicanalista de um tipo
tradicional produz é o tirano da sociedade industrial, a sociedade do
"Saber".
Aqui importa muito notar que Lacan, nesse o avesso da psicanálise,
utiliza expressamente a oposição heideggeriana do Ser e do ente. O correlato da cura é
a fala do ser, não do ente. A caçoada que tem por objeto o m'etre do maitre,
inversamente, objetiva justamente que esse "me" é o do moi, não do
Je, portanto ele só diz o ente, não o ser, quando se trata desse desnível onde
não é mais a demonstração o que está em jogo, mas a transformação do Saber em
Poder (estatuto dominador do mestre/soberania do senhor).
Quanto ao Je, Lacan do mesmo modo expressamente o conceitua nos termos
aristotélicos do upokeimenon, isto é, ele é o que fica conceituável como
a substância/substrato/ser não em si ou que seria o ente (objeto no devir), mas do
pensar que é a realização da fala verdadeira, a do silogismo, atualidade
do ser falante. Assim, restando no engano do "conhecimento" ou não, em
todo caso Aristóteles nomeou a oposição capital do upokeimenon e da "ousia
em si mesma".
Nesse
seminário, Lacan menciona Gorgias como aquele com quem, se lhe atribuíram
como a outros um parentesco, na verdade ele não tem uma
perfeita homologia. Assim, ele chega a afirmar, e precisamente numa glosa
que tem por objeto o estoicismo - aproximado no entanto a
Wittgenstein - que por aí "este fato, que faça bom tempo, é feito
apenas disso, que seja dito", mas inversamente ao que me parece ter
sido a dedução de Cassin, ele prossegue:"O verdadeiro depende - tenho
aqui que reintroduzir a dimensão que separo arbitrariamente - depende apenas de
minha enunciação, ou seja, se eu o enuncio com propriedade. O verdadeiro
não é interno à proposição, onde se anuncia o fato, o factício da
linguagem".
A afirmação importante é que nosso ser é numa relação com a verdade, mas o Eu
de que se trata não é interno à proposição como transcendental formal
(wittgensteiniano), e sim interno à fala como sua realização que é numa
inserção real do falante na questão do seu desejo. O discurso perfeito,
lacaniano, é/seria sem palavras (sem "semblante").
A relação que me parece demonstrável dos estoicos a Aristóteles, poderia também
ser o que Lacan observou ainda nesse referencial, jogando com as palavras
"sentido" e "sem" (sem-sentido ou não-senso como
independência do expresso em relação ao significado) :"Senz e
depois sans, não é de uma potência [puissance]que se trata?" Essa
"potência", o devir como o contrário do "ato" na terminologia aristotélica, não seria o denegável como "virtualidade imaginária",
mas "que é antes o que há de ser no sentido" que em vez de sentido
pleno (existente) é o que "escapa ao ser como acontece no chiste,
nas palavras justamente chamadas de espirituosas", isto é, como leio,
não na linguagem pura, mas na verdade. "A angústia não é sem objeto. Nós
não somos sem uma relação com a verdade", é o corolário dessas
observações.
Observe-se bem que, obviamente, a linguagem não é nenhuma unidade, nem
totalidade. Que não, é a própria matriz do estruturalismo saussuriano. Ela
gera-se, porém, como essa totalização em Deleuze, enquanto Virtual a
todo possuir (ter sido feita) dela mesma no inconsciente. Essa "integralidade
de significante", conforme citado de Strauss por Deleuze de que "o
homem dispõe desde sua origem", o preenche de tal modo que para fazer
algum lugar para o significado ele já está demasiado ocupado. "Há
sempre uma inadequação entre os dois", a série da escassez do significado
e a série excessiva do significante.
Mas então poderíamos indagar em que Deleuze realmente está rompendo com a
premissa psicanalítica. Se em todo caso não há produção de sentido que não
esteja premida pela totalidade Virtual do significante, postular um
inconsciente selvagem pode não ser o mesmo que diagnosticar a ausência do
"discurso" como incompletude do Édipo, e este sempre a caminho;
mas de fato, que o Édipo está sempre a caminho é o que não se pode negar da leitura
do Anti-Édipo. Como Lacan mesmo observou, o selvagem não tem o Édipo, mas ele
deve tê-lo, e o terá tão logo se civilize - conforme os casos mesmos de
analisandos seus.
Que a multiplicidade da linguagem tenha que ser geradora de um Virtual cujo
destino, como muito bem notou Eugenio Enriquez, se é produzir-se essa
cisão entre o Eu (Je/inconsciente/Outro) e o Ego (moi/ imaginário
uno-objeto), é também precipitar o Sujeito entre as possibilidades
do engano, do logro, restando no imaginário desse uno fixado por uma
identificação extrínseca qualquer; ou do engajamento em projetos
efetivamente relacionados à realidade que seriam sua emancipação
enquanto ser pensante/atuante.
Nós não poderíamos a sério denegar as questões que o estruturalismo nos
propõe como válidas, em se tratando da realidade histórica em que elas se
inserem, mas o problema aí é sustentar uma conexão de necessidade entre a
totalidade e a multiplicidade que jaz no modo mesmo de estruturação da
linguagem. Assim, por exemplo, na Lógica do Sentido, Deleuze vai obstar que o
paradoxo seja legível como aquilo que implica o impensável - o que ele designa
"vazio mental". Inversamente, ele supõe que o paradoxo, como
ilustrariam os estoicos, é a remoção do foco de junção das séries como o onde da
instalação da linguagem. O que o paradoxo realiza é a instalação da linguagem
na liberação da proliferação das duas séries ao mesmo tempo, do significante e do significado, sabendo-se já que
elas são formalmente independentes.
Mas nós teríamos que pressupor muitas coisas para aceitar isso, a princípio a
própria necessidade da disjunção de significante e significado como
"primordial". Além disso, o não-pensável que me parece o termo
sofístico do paradoxo, não é o vazio mental, mas o obstáculo posto a uma forma
do pensável, que é a representação dos objetos (imaginário), de modo que a
verdadeira irredutibilidade se instala não no interior da linguagem, entre a
palavra e o seu significado, mas sim entre a linguagem, o pensamento e a
physis.
O problema real da sofística é demonstrar a unidade da Physis como em si
impensável, portanto, a denegação do "ser" como acessível ao saber
como conhecimento, conservando o a priori de Bréhier. Em lugar da physis como
conceituável totalidade da Natureza, os sofistas colocam somente a
multiplicidade incontornável da experiência sensível. Já a
irredutibilidade da experiência à linguagem não é o correlato do
inefável, mas da ilusão indeslocável, posto que a fala está sempre
situada na intersubjetividade de um falante que, não obstante, está entre
o seu endereçamento, a sua experiência particular e o que ele foi capaz de
representar-se dela, no ponto mesmo em que aquilo que ele realiza é a
materialidade linguistica independente em si de tudo isso. O que precisamos,
quanto à sofística, é ver sua teoria da linguagem como a formulação e solução
das questões que essa irredutibilidade coloca. Aqui eles estão bem oponíveis à
questão do ser, capital à condução das teorias pós-socráticas que se encaminham
num sentido bem diferente dessa denegação sofística da physis que, assim
como o ceticismo, Lacan parece ter se recusado a equacionar na sua história do
Saber.
Já
o que ocorre desde Sócrates é a reassunção da tarefa de tornar a physis
pensável, por aí, trata-se da entrada na meta-physis. Nessa asserção, vemos que
os sofistas seriam críticos tanto do ser-ato de Aristóteles como do
extra-ser-ato dos estóicos.
O que o estudo das sociedades igualitárias, e também da sofística e de seu
pensamento político nos coloca como a questão importante, é se essa totalização
do virtual é necessária no sentido de sempre demonstrável como significação do
inconsciente. Assim temos a crítica de Derrida a Freud e Saussure, movida já
como uma crítica à noção mesma de "discurso" (logos) como referencial
indeslocável de todo pensar. A princípio, a gramatologia se enuncia
anti-estoica. Ela procede uma crítica inicial e básica à sua empresa, ao
dualismo de significante e significado. Sobre isso é importante notar que já o ceticismo antigo procedeu a essa crítica, sabendo-se que o estoicismo conceituou a dualidade. Os céticos mostraram que a oposição é contraditória, porque postula dois termos independentes, mas um só existindo pelo outro, sendo impensável a independência postulada. É a mesma crítica contra a oposição de causa e efeito. Sendo assim, poder-se-ia até concluir que o efeito está antes da causa, já que ela não é pensável por si senão como causa do seu efeito.
Em Derrida, o dualismo de significante e significado é coextenso à definição da metafísica como estruturando-se pelo recalque da multiplicidade subjacente à linguagem que é no entanto o mais obvio ao exercício da escrita. Esse recalque, portanto, é produzido como recalque da escrita em termos do conceituável como essencial à linguagem. A totalidade una Virtual é assim, aqui, reduzida a um sintoma, não ao ser assim do inconsciente linguagem.
Em Derrida, o dualismo de significante e significado é coextenso à definição da metafísica como estruturando-se pelo recalque da multiplicidade subjacente à linguagem que é no entanto o mais obvio ao exercício da escrita. Esse recalque, portanto, é produzido como recalque da escrita em termos do conceituável como essencial à linguagem. A totalidade una Virtual é assim, aqui, reduzida a um sintoma, não ao ser assim do inconsciente linguagem.
A seguir, a gramatologia desfaz a universalidade da linearidade do
significante, mostrando que as escritas não-alfabéticas não são assim
determinadas. Mas a dificuldade que resta aí, a meu ver, é o seguinte. Não
temos como conectar a não-linearidade da escritura, por exemplo, egípcia, e a
ausência do que Lacan chamaria o discurso do mestre e por outro lado, a
presença do desejo do Senhor. Pelo contrário, o Egito é imperial, o exemplo
capital do despotismo que o Anti-Édipo vai classificar como "bárbaro"
em termos de redução ao uno do imperador, de todo desejo e codificação
desejante.
A superação
desses dilemas, ou o desejo dessa superação que implica já a crítica feita
aos limites do que o põem, a meu ver está expressa por Oswald de Andrade (OA)
ao estudar as sociedades aborígines brasileiras enfeixáveis no que ele designou
"matriarcado". Aqui se está propondo aproximar o que
Willems estudou nessa rubrica de sociedades igualitárias e o conceito
pós-psicanalítico de OA, de modo a relacionar o que se puder haurir ao contexto
da democracia grega.
8)
O que mais chama a atenção entre Willems e OA, é o contraste em relação ao
estatuto do feminino. Nesse trecho examinamos a obra de Willems.
Na obra de Willems, essa temática do feminino é o que só discernimos no
avesso de sua não-fala. Não há o problema da desigualdade, em se tratando de
"sociedades igualitárias" em vez daquelas formas transicionais onde
há uma organização institucional ainda que não uma centralização, não
obstante começar-se a sua apresentação pela constatação de que, se elas devem
ser inclusas em estudos antropológicos do político, "O bolo
do poder pode-se cortar de muitos modos. As fatias nunca são iguais, pois os
homens podem ter maior poder de tomar decisões políticas do que as
mulheres".
O que se segue são dois períodos que concentram o nó do problema antropológico
do poder nessas sociedades asim chamadas simples em sinonímia de serem
igualitárias. Por um lado, "O fato de ser o indivíduo um ancião, um
guerreiro, um xamã, um chefe de grupo de parentesco, um membro de certa
família, casta ou classe, frequentemente implica um poder especial não
partilhado por aqueles que carecem desses qualificativos". Por outro
lado, ainda que no texto se esteja apenas prosseguindo como numa mesma linha de
raciocínio, "uma das descobertas mais significativas da pesquisa
antropológica refere-se ao fato de ser o poder político, em numerosos bandos
independentes de apanhadores de alimentos, distribuído de tal modo que garanta
uma parte igual ou quase a cada um dos adultos de sexo masculino".
O "poder" está especificado conforme a definição de Max Weber, que
tem sido a mais usada em ciências sociais. Trata-se da "probabilidade
de estar um indivíduo dentro de uma relação social, em condições de executar a
sua vontade, apesar de uma eventual resistência, independentemente da base
sobre a qual assenta essa probabilidade."
Não há de
fato uma contradição, quando desse trecho que examina a questão do poder em
nível de bandos - onde se assiste a defesa do ponto de vista de que há aí
"ação política" dos homens, que são todos dotados da capacidade
de tomar decisões que afetam o coletivo, e de que há chefia concentrada numa
pessoa para isso designada - se transita às sociedades com formas institucionais
do poder e a estas, então, se contrasta àquelas como "sociedades igualitárias
sem instituições políticas".
Há sim um contraste entre as noções de "ação política" e "instituições políticas".
O problema das sociedades simples, ao ver de Willems, como o que acarreta que
alguns as tenham suposto sem chefia ou não-políticas, é justamente que não há
instituições separadas de modo que ultrapassem a funcionalidade da tomada de
decisões. O chefe é nitidamente identificável, mas o que ele faz, para além do
sentimento patente dos outros em relação a ele, permanece problemático
conceituar, pois, não havendo instituições separadas, também não tem ele maior
poder decisório que os outros homens.
Essas decisões são sempre, por mais simples que seja a sociedade, escalonadas
em dois níveis, interno e externo, portando sobre os assuntos coletivos e sobre
as relações com outros povos.
Mas
aqui podemos notar a limitação da "antropologia social", posto que o
problema da chefia, e o fato de que as sociedades simples não podem ser
consideradas "anárquicas", está restrita a esse nível classificatório de "bandos". Nâo
poderia se estender o rótulo "igualitário" às sociedades democráticas
com instituições organizadas, nem centralizadas, e por esse caminho, como
classificaríamos a democracia grega?
Como vimos em Rostovitzeff, a democracia grega se especifica justamente
por desfazer a simbólica da desigualdade no convívio social por um lado, e por
estender a participação política em nível decisório e administrativo, a todos
os "cidadãos" - os que portam esse epíteto cuja intencionalidade é
precisamente, um estatuto político. O traço comum inegável das sociedades
estudadas como simples em antropologia, e a democracia grega antiga, é que se
todos são sujeitos da decisão política, a lei ou decisão efetivamente praticada
não pode ser pensada como o correlato da verdade do uno, ou da homogeneidade do
todo, e o problema do ponto de vista da episteme é como conceituar o correlato
desse pensável lá onde ele é atribuível.
Além disso, o nível de "bandos" é o que se constata no trabalho de
campo em condições históricas precisas. Na América do Sul, é óbvio que as
condições do matriarcado pré-colonial eram de populações bem maiores e estáveis
do que deixa discernir o epíteto. As tribos são realidades peculiares, não
obstante o termo parecer estar sendo usado em função de serem
"nômades", enquanto coletores de alimentos.
Outro item
importante relacionado, é o que tenho afirmado como
a interdependência de toda episteme clássica - para ficar com a
terminologia foucaultiana - com aquilo que a este seria escandaloso equacionar,
o fato da descoberta ultramarina. Podemos ver assim que esse problema das
sociedades igualitárias e do chefe destituídos de "autoridade
coercitiva", está na raiz da "Teoria política" moderna
(pré-ciências humanas). O caráter não-antigo dessa Teoria está bem assente que corresponde
ao fato de que seu objeto é outro. Não a "cidade", como na política
de Aristóteles, mas a "nação" nesse sentido igualmente moderno de ser
uma entidade governamental "representativa".
A autoridade não é pensada como atribuída ao Soberano - seja ele uma pessoa
como o imperador ou uma instituição como o parlamento - por si, sem que a
noção dessa atribuição envolva a sociedade, um conjunto populacional
heterogêneo. O Soberano é o que prova-se autenticamente representante da população,
de modo que fosse qual fosse a alternativa, ainda que vinda do seio da
população não seria representativa dela toda. A noção de ilegitimidade
da soberania torna-se pensável, quando antes o negativo era somente a
usurpação ou a má-governança.
Poder-se-ia argumentar que por isso mesmo, não há interdependência alguma
discernível, posto que a Teoria política moderna não conceitua a nação moderna,
tendo sido historicamente apenas um dos componentes da criação da nação nesse
sentido, sem que a ilegitimidade pensável decorra da posição mesma em que a
Teoria se erige, como discurso anti-papal, estando na origem a luta
renascentista entre Estado e igreja. Mas justamente, Foucault acentua bem como
a mentalidade renascentista não corresponde à "clássica" tipicamente
do século XVII.
Ora, se As palavras e as coisas examina bem a rubrica da "análise
das riquezas" como o que corresponde no clássico àquilo que desde as
ciências humanas do século XIX vai ser designado Economia política, é para
mostrar como esses dois resgistros epistêmicos são estruturalmente diversos e
irredutíveis. Toda a produção teórica que tinha por assunto o valor, na
época clássica, como análise das riquezas, não pode ser considerada precursora
ou antecessora da Economia política, do mesmo modo que não o pode a
"história natural" em relação à biologia, nem a "gramática
geral" em relação à linguística. Mas Foucault não examina aí a "teoria
política", de Hobbes a Locke e Rousseau, ou ao Iluminismo. Na verdade, esse
aspecto da análise do político ele procede em função do exercício do governo.
A teoria política não tem aí um relevo, o que se concede mais ao que não se
estuda com muita frequência, os espelhos de príncipes e artes de governar,
antes da Economia política precipitar a ruptura com a época clássica e
instituir a contemporaneidade de um governo cuja característica ao ver de Foucault é
abster-se da decisão que passa a caber ao Saber dos economistas. O governo - nessa posição foucaultiana expressamente neoliberal na acepção de anti-política, de origem citada fenomenológica-alemã (grupo Ordo) - apenas aplica como agente de gestão, o que é prescrito pelos cientistas.
A fragilidade dessa posição é óbvia, elidindo a transformação chave da contemporaneidade que é a subjetividade como o referencial da legalidade, ao contrário da clássica pertença ao estamento (nobreza, clero, servos). Como ideário do neoliberalismo, temos apenas a ingenuidade foucaultiana de que a retirada do Estado da esfera da decisão social que lhe prescrevia Keynes, seria um liberalismo político, ao invés do que sabemos bem, agora que o neoliberalismo tem sido corrente: o Estado apenas se exime das obrigações com assistência social para se reservar ao interesse da rapina de carteis ou multinacionais, os quais longe de serem liberais politicamente, implementam dominação sobre o privado numa escala previsível justamente pelo fato de não haver legalidade que os detenha. Assim como Foucault, Habbermas foi ardoroso adversário do keynesianismo do Welfare State, tendo apenas contribuído para o caos social de hoje em dia.
A fragilidade dessa posição é óbvia, elidindo a transformação chave da contemporaneidade que é a subjetividade como o referencial da legalidade, ao contrário da clássica pertença ao estamento (nobreza, clero, servos). Como ideário do neoliberalismo, temos apenas a ingenuidade foucaultiana de que a retirada do Estado da esfera da decisão social que lhe prescrevia Keynes, seria um liberalismo político, ao invés do que sabemos bem, agora que o neoliberalismo tem sido corrente: o Estado apenas se exime das obrigações com assistência social para se reservar ao interesse da rapina de carteis ou multinacionais, os quais longe de serem liberais politicamente, implementam dominação sobre o privado numa escala previsível justamente pelo fato de não haver legalidade que os detenha. Assim como Foucault, Habbermas foi ardoroso adversário do keynesianismo do Welfare State, tendo apenas contribuído para o caos social de hoje em dia.
Mas quando nos acercamos da "Teoria política" de Hobbes a Locke, vemos que o
ponto polêmico entre ambos começa por ser o estatuto do estado de natureza -
figurado pelo aborígine americano. É porque essas são tribos tipicamente
"igualitárias" que o ponto gerador da polêmica pode ter sido assim
posicionado. Para Hobbes, defendendo a representação pelo absolutismo, o estado
de natureza, ou da selvageria, corresponde ao sentido adjetivo desse termo,
ausência de ordem, guerra de todos contra todos.
Locke, defendendo o parlamentarismo e sendo o pai do liberalismo político,
filósofo máximo do século seguinte iluminista onde todo o mundo pensante do
político se tornou uma aspiração à consecução do estado de coisas vigente na
Inglaterra pós-revolucionária em que as ideias de Locke triunfaram após o seu
período de clandestinidade durante a curta restauração, inversamente a Hobbes,
via no estado de natureza do selvagem americano uma autarquia do indivíduo, uma
harmonia do homem com a natureza por meio do seu trabalho. Ora, tratava-se para
ele de um análogo do estado descrito na Bíblia no capítulo dos
"juízes", ou seja, preocupando-se o articulista do "segundo
tratado do governo", expressamente com o fato de que no estado de natureza
que era o do aborígine americano, tratavam-se de ajuntamentos sociais, mas sem
chefes expressamente designáveis, senão para o caso de guerra em que
uma chefia se tornava conspícua.
Não é que Locke tenha extrapolado o limite da Teoria política clássica, cuja
estruturação é a oposição entre estado de natureza (selvageria) e estado
de sociedade (civilidade/civilização). É que a civilização sobrevém como termo
do conflito potencial ao estado de natureza, o qual se deve a que esse estado
edênico em que cada um vive do seu trabalho, cuida somente de si mesmo e é
soberano da existência própria, é subvertido pela ação de alguns que se põem
concertadamente a pilhar o produto do trabalho alheio, em vez de cultivar os
frutos do seu trabalho exclusivamente.
Então uma representação política tem que ser produzida, para por fim à guerra
que se segue inevitavelmente à subversão da autonomia dos
indivíduos naturais, autonomia que em Locke é sinônimo de
racionalidade/humanidade. Tanto é o mesmo, que sempre se seguirá guerra
(revolução), se o expediente político da representação (sociedade/civilidade)
fracassar pelo comprometimento do Soberano com a subversão dos direitos dos
seus súditos. O que ficou designado como a teoria do direito sagrado à
revolução por parte do povo, na verdade é a expressão da Lei como fundamento
epistêmico de toda ciência pós-renascentista, lembrando que Locke é o
mestre do empirismo e por conseguinte, da lógica indutiva. Mas o racionalismo
de matiz cartesiano tampouco deixa de ser original em relação ao idealismo
antigo, justamente porque seu objeto é uma ciência "legal". Somente,
no clássico, essas leis são ainda as de uma Natureza, não as do objeto de cada
ciência formalmente autonomizada.
O
que importa ao nosso tema presente, é notar que nessa teoria de Locke
a propósito do estado de natureza e da mediação que conduz ao estado de
sociedade, o germe da dialética do senhor e do escravo, não obstante toda
a irredutibilidade entre o pensamento político de Hegel e de Locke, parece bem
nítido. Essa irredutibilidade é aliás, digna de nota. É que desde as
ciências do espírito românticas, a oposição dos estados de natureza e de sociedade
torna-se inoperante, desde que a inteligibilidade está estruturada pela
operacionalidade da evolução.
Observe-se que no clássico, não há uma evolução possível entre um estado e
outro, eles são assim como a que um senso comum não biologicamente informado
pensaria entre espécies, à Aristóteles. Em alguns aspectos, o pensamento
clássico é de difícil apreensão na atualidade, como quando se trata do problema
da liberdade em Leibniz, por que nós só pensamos em termos tais que se a
unidade da Natureza não é a priori, a unidade do objeto de uma ciência, não a
sua definição ideal, mas a pensável desde o seu método, garante que não haja a
irredutibilidade interna a si. As ciências do espírito lidam com um ser humano
que é cultura, não há a ambiguidade do ajuntamento social primitivo que não é
exatamente uma sociedade civilizada. O corte é entre o animal dotado de
instinto e o homem dotado de linguagem, não entre este e o selvagem. As
ciências do espírito são ciências do homem.
Mas se desde o Realismo as ciências do homem são o pivô de uma polêmica ainda
não resolvida, como se pode ver pela recusa foucaultiana e em geral,
estruturalista, em aceitá-las como tais, o que ocorre é uma insistência do
clássico em plena contemporaneidade: no manifesto, trata-se de uma crítica, o
clássico não foi de fato superado não obstante o evolucionismo; mas no latente,
um classicismo me parece denunciável dos próprios críticos, posto que o
estruturalismo fará retornar aquela irredutibilidade no interior do objeto, no
ponto mesmo em que ele desconsidera isso (de que falam as
humanities?) como objeto próprio, construído por elas.
Que esses dois planos, o latente e o manifesto, correspondem à corrência da
realidade histórica, se pode ver pelo fato de que hoje, quando se estuda dentro
das ciências humanas, a rubrica da teoria política tendo por objeto o
pensamento dos teóricos políticos, para alguns toda a questão dos pensadores a
estudar pode ser reduzida à "questão hobbesiano da ordem".
Essa redução atinge até mesmo a inteira sociologia. Se a sociedade,
analiticamente, é o problema da adesão societária por parte dos seus sujeitos,
a questão da sociedade seria: por que obedecemos? Como e por
que concebemos uma autoridade política e uma legitimidade das leis,
acima de todos os indivíduos que somos?
Observe-se porém que aqui já não se trata do problema da gênese, do surgimento
da obediência como do político (civilização), posto que agora já está
imbricada a questão da ordem (obediência), na problemática
epistemológica estruturante como problema da legitimidade, e da
legitimação. Náo é como no antigo referencial, onde basta haver de fato um
estado ordenado para que seja pensável como Estado de direito.
Nas humanities, o estruturante não sendo a oposição sociedade/selvageria
(natureza), trata-se da oposição sociedade/dominação. Ora, como vimos, se essa
problemática é a alma da sociologia, mais complicado é situá-la como a
rubrica "poder" quando se trata da Antropologia. Entre ambas, a
psicanálise lida com a mesma questão, mas pelo lado do Sujeito que
obedece, portanto mesmo que seja a mesma questão, o problema não permanece
o mesmo, não sendo mais "o que" é sociedade, ou como legitimar que ela
Seja. No entanto, que não haja na psicanálise uma interdependência de um
pensamento social embutido, não explícito, que seria o problema hobbesiano da
ordem, é o que não me parece denegável, mas então o verdadeiro ponto da nossa
crítica incide pelo fato de que entre ordem e lei há uma distância tal que
poderia nos permitir obter a escanção que procuramos entre uma concepção de lei
de sociedades igualitárias/democráticas, e uma concepção de lei como Ordem que,
não importando o quão legítima seja quanto aos meios, não pode ser diferenciada
de nada outro quanto aos seus fins ou seu funcionamento ou sua leitura pelo
sujeito.
Quanto à problemática histórico/epistemológica das humanities, no espaço deste
escrito só podemos sucintamente expressá-la, como a posicionamos em nossa
perspectiva, do seguinte modo. Temos contemporaneidade, ou ciências humanas,
quando a oposição estruturante de todo campo epistêmico é entre natureza e
cultura/sociedade, mas homóloga estritamente à oposição não-humano e humano. E
quanto ao não-humano, restrito ao conceito epistêmico de objeto de estudos das
ciências naturais, o problema é que intercepta também o humano enquanto não
redutível ao não-orgânico.
Então, o não-humano não é mais como no clássico e na metafísica, o que do
humano (intelecto/ser) é determinado como o derivado. Mas como duas formas
de realidade igualmente efetivas, natureza e homem, o que é preciso pensar não
é apenas como em certas teorias ou encaminhamentos das humanities, o meio de
operar o reducionismo dualista - por exemplo, em psicologia, reduzir o
objeto à consciência e só por esse motivo justificar-se fazê-la ou não
fazê-la (behaviorismo) por que, como no positivismo, pensa-se a
consciência como epifenômeno da matéria. Mas sim, como expresso em alguns
encaminhamentos perfeitamente exemplificáveis, como pensar a interseção dessas
formas. Até para denegar que a interseção seja pensável ou que a duplicidade
seja demonstrável, é preciso instalar uma crítica que parte do a priori
contemporâneo de sua presentação ao pensamento.
Se são assim as coisas, é evidente que não se escapa às humanities, não
obstante estar-se denegando fazê-las, como quando se trata do estruturalismo ou
do seu "pós". A questão da heterogeneidade cultural, que precipita a
ruptura com o clássico, permanece uma das maiores ambiguidades no campo
epistêmico atual, pois se é o que implica não haver "selvageria"
(natureza) fora da condição de humano, por outro lado é o que se torna
complexo no estruturalismo enquanto mais uma redução do cultural desta
feita a um novo tipo de materialismo, o linguístico.
Mas se nosso assunto concerne aqui à antropologia das sociedades
igualitárias, retornando ao referencial de Willems, vemos que ele posicionou
três postulações do que é atribuível ao horizonte observado: a) o papel do
chefe é restrito ao de porta-voz da opinião pública; b) é obrigação do chefe
ser generoso, prover de proteção e segurança o grupo; c) o chefe perde o status se deixar de corresponder às expectativas do grupo. Se bem que todos
os três são importantes para o que estamos demarcando como o que é
pertinente à teoria e ciência políticas, aqui nos interessa sobremodo o
estatuto da palavra do chefe como a que porta uma referência múltipla, ainda
que por "opinião pública" se costume ter o correlato de uma unidade
que corresponde somente ao proferimento do resultado de sua dialética. Após
examinar o modo como Willems lida com essa questão, aproximaremos a perspectiva
de OA.
§§§§§
O ponto chave no exame da convergência de ciência social e psicanálise, no que
se relaciona à antropologia, é tangenciado ainda que numa relação de inversão
em vez de reciprocidade, por Willems no momento em que este esclarece sua
defesa da universalidade do Estado, a partir da contestação à tese straussiana de que a
coesão social primitiva "deriva mais do parentesco que da comunidade
territorial" e de forma a poder-se deduzir uma incompatibilidade
entre "parentesco" e "organização política".
Inversamente, na concepção de Willems, "até o estudo mais superficial
da vida cotidiana dessas sociedades" serviria para mostrar que ambos
não são incompatíveis.
Os estudos psicanalíticos se estruturam, por outro lado, por uma oposição dada
como natural, evidente, entre a ordem subjetiva do parentesco e objetiva
da sociedade. Está claro que num ponto em que a história deixava de poder
ser contada em termos tais que os genocídios das populações pelos saques
colonial e neocolonial parecia justificável como a obra da evangelização do
cristianismo, de modo que a história só podia liberar de sua leitura o
ser uma sequência de infâmias, a concepção sobre o homem deveria mudar. Já não
há qualquer justificativa coerente de sua vida a partir de um sentido superior.
Não há deus algum na história como ciência, o homem é somente o que faz dele mesmo.
Mas a oposição que se enraizou entre o dever e o querer, a partir daí,
parece-nos hoje um tanto incoerente. As pessoas devem obedecer contra seu
querer; a ordem social, porém, existe porque é fundamental à sobrevivência da
espécie. Assim, porque existe sociedade e ordem do dever, senão porque é o que
as pessoas querem, se querem sobreviver? Como creio já ter enfatizado, a
conclusão psicanalítica e estruturalista, a partir desse mesmo
racioncínio, é que as sociedades não são redutíveis à funcionalidade da
sobrevivência, posto que o dever não é redutível em seu excesso significante
através dos inúmeros códigos sociais.
O que precisamos notar, contudo, é que o corolário - pelo que o conhecimento
desse excesso é o meio de purgá-lo a fim de obter-se a geselschaft - permanece
geo-egológico, se o excesso significante não diz sempre, em todas as
sociedades, a mesma sobrecarga de domínio do homem sobre o homem, isto é,
permanece um engano sobre as demais sociedades, uma mera generalização. Nesse
sentido, o estruturalismo seria uma regressão a Hobbes, em vez de apenas uma
crítica do otimismo das luzes como a algo calcado numa falsa legitimação. O estruturalismo não avança verdadeiramente a um novo
postulado político, mas com a particularidade de estar-se num tempo em que o
desdobramento hobbesiano da representação nem mais poderia obter propósito. Ele
solve a sociedade no contexto de relações interpessoais. Esse enunciado crítico tem sido notório na perspectiva pós-moderna, que vem considerando oportuno retornar à universalidade do político, o Estado, assim como à ideia de liberdade em Hegel.
Oswald de Andrade (OA) desenvolve justamente essa extensão da problemática
deixada no ponto da elaboração psicanalítica. Ele não apenas perfaz
uma crítica a alguns dos pressupostos freudianos, mas dessa crítica me parece
demonstrável que ele erige uma justificação para afirmar-se uma consciência
da heterogeneidade do social, não apenas internalização individual de regras, resultante da natureza do inconsciente.
Temos assim enunciados dois níveis da sua teorização. O terceiro seria
o atualmente criticável, pois constituindo mais como que o apoio
argumentativo da tese principal, que é a reversão da psicanálise
tradicional como inconsciente do pai individual, de fato se amparou no que podendo ser ainda polêmico na
época, hoje já sabemos ser inviável. O problema aí não é enunciar um inconsciente do matriarcado, isto é, da poliandria, não redutível a anterioridade do Édipo. Mas sim ter-se utilizado da antropologia oitocentista de Morgan, via Engels, contra o androcentrismo universal straussiano, para justificar essa tese. E por aí a dialética hegeliana, que OA reinterpretava em termos de evolução psicossocial desde a inversão do conceito inicial como tese, sendo agora o primitivo poliândrico do matriarcado como sujeito do ócio na luxuriosa e rica mata atlântica, a antítese sendo o neg-ócio (capitalismo protestante) e a síntese sendo o capitalismo tecnológico e a civilização dos gerentes, portanto o retorno do homem natural ocioso mas porque agora tecnizado.
Vemos que a fórmula dialética de OA é bem mais funcionalista do que faria crer a utilização de Morgan, que faria do patriarcado o correlato da dominação da propriedade na história. Ela é coerente com a concepção de Weber sobre o papel preponderante do protestantismo na emergência ou invenção do capitalismo. É fato de conhecimento geral que o capitalismo (revolução industrial) emerge nas nações protestantes e aí se conserva exemplarmente, porém um nexo da ética protestante em termos de frugalidade, individualismo e poupança, com o espírito do capitalismo como elemento formativo deste, é exclusivamente de Weber.
A mistura algo confusa de antropologia positivista e sociologia funcionalista não compromete o resultado positivo em termos da originalidade da obra de OA como um pensamento do inconsciente poliândrico - o que pode se compreender se, inclusive, algumas dessas conservações do oitocentos derivam de se ter começado por preservar alguns postulados freudianos pré-lacanianos. Não creio que a pós-modernidade seja um tempo em que se poderia fazer do nome de autor um "ismo", mas como uma plataforma de dialógo o encaminhamento de OA se revela extremamente proveitoso à problemática pós-moderna do ex-cêntrico.
Por outro lado, utilizações da tríade de Hegel para leituras totalizantes da evolução psicossocial nas Américas foram comuns, tendo sido exemplares nos USA daquela época, ainda que a total originalidade de OA esteja em dois aspectos. Na valorização do primitivo em termos de matriarcado - o ócio poliândrico a partir da prodigalidade da natureza tropical; e na antecipação pós-weberiana do capitalismo como um novo contexto do ócio devido à tecnização. Este segundo um tema bastante atual, jamesoniano, aliás, posto que a idleness neste tem sido um tópico relacionado à pós-modernidade, quando de fato já não se conserva o ascetismo como parâmetro do capitalismo, pelo contrário, já se está há algumas décadas na decorrência conceitual da "sociedade de consumação", o que não rompe com a questão histórica do nexo de capitalismo pioneiro e nações protestantes.
Algo deveria pois ser revisado no funcionalismo, e segundo creio é exatamente o engano weberiano eurocêntrico, pelo que a revolução industrial se reduz a poupança e racionalidade da empresa, ao invés de monopólio imperialista de mercados desde o princípio smithiano de produção como circulação crescente de mercadorias e não posse como de terras ou metais preciosos. Ou seja, contra-revolução industrial como marginalização de mercados anexados, concomitante a revolução industrial em progresso do centro da produção.
Uma vez que este princípio do circulação de mercadorias é avesso ao catolicismo histórico, agrário-metalista-aristocrático ou estamental em vez de cisão apenas de classes econômicas produtiva e assalariada, comunitário e não individualista, realmente há aí um locus histórico que tem sido explorado não só por Weber, isto é, não apenas como "ética". Mas por historiadores efetivos que mostram como a Inglaterra especialmente soube captar os lucros hauridos na dominação territorial portuguesa e espanhola sobre as colônias, por meio de transações comerciais.
Vemos que a fórmula dialética de OA é bem mais funcionalista do que faria crer a utilização de Morgan, que faria do patriarcado o correlato da dominação da propriedade na história. Ela é coerente com a concepção de Weber sobre o papel preponderante do protestantismo na emergência ou invenção do capitalismo. É fato de conhecimento geral que o capitalismo (revolução industrial) emerge nas nações protestantes e aí se conserva exemplarmente, porém um nexo da ética protestante em termos de frugalidade, individualismo e poupança, com o espírito do capitalismo como elemento formativo deste, é exclusivamente de Weber.
A mistura algo confusa de antropologia positivista e sociologia funcionalista não compromete o resultado positivo em termos da originalidade da obra de OA como um pensamento do inconsciente poliândrico - o que pode se compreender se, inclusive, algumas dessas conservações do oitocentos derivam de se ter começado por preservar alguns postulados freudianos pré-lacanianos. Não creio que a pós-modernidade seja um tempo em que se poderia fazer do nome de autor um "ismo", mas como uma plataforma de dialógo o encaminhamento de OA se revela extremamente proveitoso à problemática pós-moderna do ex-cêntrico.
Por outro lado, utilizações da tríade de Hegel para leituras totalizantes da evolução psicossocial nas Américas foram comuns, tendo sido exemplares nos USA daquela época, ainda que a total originalidade de OA esteja em dois aspectos. Na valorização do primitivo em termos de matriarcado - o ócio poliândrico a partir da prodigalidade da natureza tropical; e na antecipação pós-weberiana do capitalismo como um novo contexto do ócio devido à tecnização. Este segundo um tema bastante atual, jamesoniano, aliás, posto que a idleness neste tem sido um tópico relacionado à pós-modernidade, quando de fato já não se conserva o ascetismo como parâmetro do capitalismo, pelo contrário, já se está há algumas décadas na decorrência conceitual da "sociedade de consumação", o que não rompe com a questão histórica do nexo de capitalismo pioneiro e nações protestantes.
Algo deveria pois ser revisado no funcionalismo, e segundo creio é exatamente o engano weberiano eurocêntrico, pelo que a revolução industrial se reduz a poupança e racionalidade da empresa, ao invés de monopólio imperialista de mercados desde o princípio smithiano de produção como circulação crescente de mercadorias e não posse como de terras ou metais preciosos. Ou seja, contra-revolução industrial como marginalização de mercados anexados, concomitante a revolução industrial em progresso do centro da produção.
Uma vez que este princípio do circulação de mercadorias é avesso ao catolicismo histórico, agrário-metalista-aristocrático ou estamental em vez de cisão apenas de classes econômicas produtiva e assalariada, comunitário e não individualista, realmente há aí um locus histórico que tem sido explorado não só por Weber, isto é, não apenas como "ética". Mas por historiadores efetivos que mostram como a Inglaterra especialmente soube captar os lucros hauridos na dominação territorial portuguesa e espanhola sobre as colônias, por meio de transações comerciais.
Examinando a contribuição teórica de OA, vemos que ela se quis um novo
campo psicanalítico, antecipando em algumas décadas a famosa injunção
pós-estrutural esquizoanalítica de ser-se freudiano contra Freud: "Seria
necessário revisar Freud e seus epígonos despindo-os, em reigorosa psicanálise,
dos resíduos vigentes da formação cristã-ocidental de que todos
derivaram". Ou seja, despindo-o apenas dos resíduos da monogamia como teleologia da razão, pois de fato nisso OA foi contraditório. Por um lado, o capitalismo antitético do negócio sendo racionalidade calvinista, defendeu o catolicismo como meio de preservação da feminilidade sentimental na consciência em termos da nossa "colonização", infensa aos rigores do calvinismo. Mas sua síntese do homem natural tecnizado é anti-católica. Justamente por ser o triunfo da técnica como da racionalidade burocrática, a epítome da ética protestante à Weber, agora atualizada pela "revolução dos gerentes" à Bunyan que OA manteve em alta conta. Mas principalmente por ser a sua síntese do capitalismo realizado o paraíso do divórcio permitido, assim como da liberação da sexualidade feminina. Don Juan já não teria sentido, a seu ver, numa era em que as mulheres divorciadas não se sentem fracassadas, mas, pelo contrário, se liberam para relações amorosas mais satisfatórias.
Em todo caso, seria preciso fazer uma psicanálise da própria psicanálise freudiana, segundo
OA, para colocar em questão o que pode se deduzir dos princípios
outros, em relação aos que nortearam a meditação de Freud, os da sociedade
"sem classes".
Quanto a isso, OA ("A crise da filosofia messiânica") usa
tanto a expressão "Estado sem classes" quanto "ausência
de Estado", como sinônimos, podendo-se assim entender que em todo
caso, trata-se de uma sociedade que não pode ser descrita nos termos dos
conflitos e inter-relações estruturantes daquelas em que Estado significa uma
estratificação tal que "uma classe se apoderara do poder e dirigia
as outras". Essa sinonímia, contudo, é importante esclarecer porque
está posicionada como um dos três pilares da estruturação formal do
Matriarcado, cujos outros dois itens são o filho de direito materno e a
propriedade comum do solo.
Como mais um meio de definir esse Estado de classes que o Matriarcado não
é, OA utiliza nesse trecho a expressão "organização coercitiva",
esclarecendo-a exatamente como aquela em que o direito é exercido, e deve ser
entendido por todos, como o que "negava pela coação, a própria natureza
do homem". E pelo que se acresce ao contexto, isso se concentra na
noção de que há lei do patriarcado quando ela implica a escravização de
alguns. Ou seja, quando ela não pode se entender como a lei do matriarcado que
deve se definir por um exercício a expressar-se como a vontade daqueles
que a professam. Matriarcado em OA, como o regime suposto das tribos brasileiras à época da descoberta das Américas pelos europeus, é o contrário do poder das mulheres ao invés do poder dos homens, mas sim ausência de dominação na sociedade, liberdade como autarquia da pessoa, uma concepção do estado de natureza bem familiar aos leitores de Locke.
Que há uma concepção de Estado sem classes, ou de ordem social, elaborada
ou ao menos pressuposta em OA, e não apenas a construção teórica da consciência
de grupo (formado pelo que seria conforme sua expressão um inconsciente de alteridade, não de
identidade), é demonstrável porque o corolário dessa sua tese é o embasamento
político da sociedade do presente. Aquela que deveria reverter a opressão
patriarcal-capitalista justamente pela transformação da técnica que deverá
secundar uma geselschaft ("revolução dos gerentes",
emancipação do privado pelas tecnologias de administração pública).
Assiste-se assim a uma inversão em OA como modernismo brasileiro, do que nessa época, entre os anos trinta e cinquenta, se está elaborando na Europa, ora como crítica da geselschaft (sociedade) como mera impessoalidade burocrática, ora como anteposição desta à gemeinshaft (comunidade) primitiva mas na acepção de "tradicional", isto é, aproximável ao feudalismo monárquico europeu. O que é fácil explicar. Enquanto o primitivismo dos modernistas europeus vinha da descoberta da antropologia recente sobre a África - inovando assim a ciência social com o trabalho de campo à serviço do neocolonialismo - OA continuava pensando o primitivo americano a que haviam se limitado os conhecimentos de Locke e Rousseau. De fato o folclore de tribos africanas costuma ser o imaginário do rei primitivo, havendo chefia de prestígio e status de aristocracias associadas como em panteões politeístas que comportam porém um deus principal que representa não qualquer outra força natural, mas a soberania, como o panteão homérico exemplifica bem.
Mas os mitos aborígines americanos expressam o igualitarismo sem instituição de prestígio. Os seres poderosos da natureza como o sol e a lua são vistos como objeto de emulação, símbolos de soberba cuja personificação caricatura discursos de jactância, atitudes de despotismo conspícuo, velhaco ou covarde contra o herói que por sua humanidade simboliza os recursos da fleuma ou do planejamento laborioso. Ou então, em estórias satíricas, o herói burla a seriedade natural, aproveitando-se de circunstâncias para alterar o percurso concatenado dos seres, de modo que submete-os a deformações míticas que correspondem porém à aparência real das criaturas, por exemplo, um certo pássaro tem uma certa aparência que a estória visa burlesca, então é porque um herói vaticinou que a criatura seria assim, etc.
Não se costuma atribuir um problema antropológico real na chefia africana típica, mas sim nesse paradoxo aparente da chefia aborígine americana típica. Creio que este paradoxo célebre entre os antropólogos é aparente, ao invés de real, porque se torna assim apenas para um pensamento que não consegue realizar a associação conceitual entre essa chefia americana "simples" e a democracia, seja da pólis pós-homérica ou a contemporânea presidencialista.
Assiste-se assim a uma inversão em OA como modernismo brasileiro, do que nessa época, entre os anos trinta e cinquenta, se está elaborando na Europa, ora como crítica da geselschaft (sociedade) como mera impessoalidade burocrática, ora como anteposição desta à gemeinshaft (comunidade) primitiva mas na acepção de "tradicional", isto é, aproximável ao feudalismo monárquico europeu. O que é fácil explicar. Enquanto o primitivismo dos modernistas europeus vinha da descoberta da antropologia recente sobre a África - inovando assim a ciência social com o trabalho de campo à serviço do neocolonialismo - OA continuava pensando o primitivo americano a que haviam se limitado os conhecimentos de Locke e Rousseau. De fato o folclore de tribos africanas costuma ser o imaginário do rei primitivo, havendo chefia de prestígio e status de aristocracias associadas como em panteões politeístas que comportam porém um deus principal que representa não qualquer outra força natural, mas a soberania, como o panteão homérico exemplifica bem.
Mas os mitos aborígines americanos expressam o igualitarismo sem instituição de prestígio. Os seres poderosos da natureza como o sol e a lua são vistos como objeto de emulação, símbolos de soberba cuja personificação caricatura discursos de jactância, atitudes de despotismo conspícuo, velhaco ou covarde contra o herói que por sua humanidade simboliza os recursos da fleuma ou do planejamento laborioso. Ou então, em estórias satíricas, o herói burla a seriedade natural, aproveitando-se de circunstâncias para alterar o percurso concatenado dos seres, de modo que submete-os a deformações míticas que correspondem porém à aparência real das criaturas, por exemplo, um certo pássaro tem uma certa aparência que a estória visa burlesca, então é porque um herói vaticinou que a criatura seria assim, etc.
Não se costuma atribuir um problema antropológico real na chefia africana típica, mas sim nesse paradoxo aparente da chefia aborígine americana típica. Creio que este paradoxo célebre entre os antropólogos é aparente, ao invés de real, porque se torna assim apenas para um pensamento que não consegue realizar a associação conceitual entre essa chefia americana "simples" e a democracia, seja da pólis pós-homérica ou a contemporânea presidencialista.
Enquanto no mundo patriarcal a presentificação da geselschaft, enquanto o que
subentende a emancipação do privado, é dificultada, segundo OA, pela vontade de
domínio sobre a consciência do outro que se mascara pelo domínio de
classe, a tese do homem cordial (brasileiro aborígine = homem gentil,
não ainda "sentimental") sustenta a convergência dessa índole com a ordem
tecnológica. Justamente por que nela, enquanto ordem social, estariam
ausentes quaisquer regras privadas que não apenas o que podemos então pressupor
que ele pensou como as leis de convívio público. Aqui portanto, há reversão total do funcionalismo de OA relativamente ao europeu dessa época.
O que ocorre, porém, como vimos, é que essa parte da sua demonstração, cuidando
da estruturação, digamos, institucional, básica ao matriarcado e à sociedade
tecnológica, apresenta-se geralmente apoiada na antropologia do século XIX e
particularmente na evolução que Engels retraça de Morgan no seu A origem da
família .... Essa "ciência" que ele não crê ainda abalável, sendo
a seu ver a única capaz de sustentar uma tese do matriarcado primitivo
- e nisso OA já expressamente se pondo contra o que considera,
contudo, os estudos sérios do " 'paulista' Levi-Strauss", assim
como Westermack a quem, inversamente, chama "palhaço da
cultura" - nesse ponto é também o que invoca para fazer confirmar as
teses que considera basicamente indeslocáveis do próprio Freud.
Aqui também há contradição em OA, contudo, porque de fato a tese oitocentista positivista, coloca na origem não o sujeito livre como autarquia da pessoa. Mas expressamente a horda, desde Darwin, a qual é considerada sem qualquer regra de parentesco, originando a famosa "promiscuidade primitiva" conceituada por Engels, até hoje considerada tese marxista "ortodoxa". A concepção da primitiva autarquia da pessoa é vigente de Locke ao romantismo, apenas. O funcionalismo pós-positivista europeu descobriu pelo trabalho de campo, a regra de parentesco ali onde o positivismo prescrevia a horda sem lei. Porém como estamos notando, para uma valorização do suposto "comunitário" sem consciência subjetiva, que apenas conduziu aos anarquismos e demais contrassensos contra-políticos, típicos até dos pós-estruturalistas assim como do marxismo "humanista", isto é, funcionalista.
Aqui também há contradição em OA, contudo, porque de fato a tese oitocentista positivista, coloca na origem não o sujeito livre como autarquia da pessoa. Mas expressamente a horda, desde Darwin, a qual é considerada sem qualquer regra de parentesco, originando a famosa "promiscuidade primitiva" conceituada por Engels, até hoje considerada tese marxista "ortodoxa". A concepção da primitiva autarquia da pessoa é vigente de Locke ao romantismo, apenas. O funcionalismo pós-positivista europeu descobriu pelo trabalho de campo, a regra de parentesco ali onde o positivismo prescrevia a horda sem lei. Porém como estamos notando, para uma valorização do suposto "comunitário" sem consciência subjetiva, que apenas conduziu aos anarquismos e demais contrassensos contra-políticos, típicos até dos pós-estruturalistas assim como do marxismo "humanista", isto é, funcionalista.
Parece-me
ter sido o escopo de OA demonstrar que não há um antagonismo essencialmente
humano entre a ordem social (dever/lei) e o desejo individual, o que é algo bastante pós-moderno, que deveria estar sendo utilizado na renovação pós-moderna do marxismo, se ela é possível. E que quando a
lei só pode ser pensada na base desse antagonismo por ser a lei da
opressão de classe, é porque ela é instituída na base do patriarcado.
Comprovando-se outros fatores gregários, os do matriarcado, a conexão que
vimos com a emancipação permite supor que a tese de OA aproxima a ordem social
do matriarcado com a ordem legal que se esperaria de uma democracia como
algo por definição oposto à ordem do direito aristocrático,
absolutista, ou "capitalista" sem a reserva do aproveitamento
politicamente emancipatório.
A visada histórica que é constitutiva do seu texto sobrepõe de fato o matriarcado, como a vontade de liberação social e igualitária, aos pontos discerníveis como concreções do patriarcado como os aqui referidos.
A visada histórica que é constitutiva do seu texto sobrepõe de fato o matriarcado, como a vontade de liberação social e igualitária, aos pontos discerníveis como concreções do patriarcado como os aqui referidos.
Contudo, a enunciação desse escopo se torna obscurecida para
vir ao plano da expressão os estudos alternativos, inovadores ou revolucionários
, como os citados por OA de Brifault, Engels/Morgan, Freud, Nietzsche/Bachofen e Malinowski. Tal que pudessem amparar a concepção do matriarcado ou
de fatores gregários diferentes daqueles conceituados como universais pela
crônica e pela ciência correntes do ocidente, os do patriarcado.
Dentre esses estudos que estavam correndo ainda na base da
promiscuidade primitiva e do freudiano mito da horda primitiva parricida, OA se aproveita para estabilizar a oposição do ócio versus a obrigação
penosa do trabalho, como o que era desconhecido ou não havia sido ressaltado
devidamente até aí. Ele então está aceitando a concepção de Freud pela qual há
uma repressão básica do desejo pela obrigação do trabalho, apenas supõe
que está acrescentando algo não equacionado antes, que é o fato de
que o matriarcado desconhece essa obrigação.
Agrega OA uma variável do meio. O trópico é o lugar do ócio porque nele há
abundância, não escassez. Além disso, o clima muito quente é antitético ao
esforço físico. Assim também a sociedade tecnológica é uma sociedade de
abundância, e nela há a emancipação que a princípio é do próprio trabalho,
que passa às máquinas, deixando de ser imposto ao ser humano
que então volta a ser o sujeito do ócio, sem culpa e pela própria
determinação social. Há, pois, um alcance clínico-sociológico nessa
metapsicanálise.
A sociedade tecnológica não será um choque insuperável pela consciência
europeia se a crise já efetivamente por ela instaurada - crise cuja
repercussão atinge todos os domínios, das duas guerras mundiais ao espanto
teórico dos existencialismos motivado pelos descalabros da dominação e
da exploração - for ultrapassada pela substituição da ciência
patriarcal pela compreensão do homem como originariamente Matriarcado, homem
este a quem nada da sociedade tecnológica seria estranho, mas tudo seria
politicamente aproveitável em prol de sua emancipação (gozo).
Em todo caso, é fora de dúvida que OA apreendeu a conexão do inconsciente
freudiano com o determinismo do gozo fálico. Ele enfatiza justamente que no
Matriarcado ou poliandria, a mulher é sexuada, não apenas o objeto sexual do homem, e o sexo
é pensado em função dos acontecimentos da feminilidade, como a maternidade e os
papeis sociais ligados ao desejo feminino: os maridos (poliandria de fato
e/ou de direito); o pai "sociológico", isto é, atribuído pela mulher ou sistema do parentesco ao invés de pela biologia; o avunculato, como sistema em que a autoridade masculina sobre o filho pertence ao tio deste, o irmão da mulher; e o o
"amigo", com quem a mulher casada ou solteira tem relações puramente eletivas. Se o gozo feminino é sem culpa, e engendra o gozo masculino,
dele não se desprende nenhuma vontade de domínio.
Isso é expressamente ressaltado por OA, em Variações sobre o
matriarcado, ao sublinhar que este não pode ser confundido como o fez
"um jornalista ilustre, que se julga dono de todos os assuntos",
com "o poderio atribuído à Sra.Eva Peron". Ou seja, é
inconsequente supor que "o matriarcado existia quando a mulher
mandava".
A
partir daí, porém, OA se concentra no resgate do conceito
"matriarcado" em ciências humanas, entre a revolução patriarcal
colhida pela interpretação de Bachofen do ciclo mítico de Orestes, que subentenderia
um passado não-patriarcal, e os estudos de Malinowski a propósito do papel social
do pai nas sociedades primitivas. Ou seja, ele reafirma aqui a outridade da
sociedade matriarcal em relação ao conceito de domínio pela ordem social que é
a do patriarcado, não obstante o sexo do que o exerce. Mas não chega ao
conceito positivo da legalidade vigente do matriarcado, que
infere-se, a meu ver, apenas do sentido geral dos seus argumentos.
É interessante notar que há uma coincidência de OA com Lacan - ainda que este não
seja um pensador do matriarcado, como já fizemos ver - quanto à leitura do Banquete
platônico, em que ambos fazem intervir uma referência a Henry Miller.
Mas se entendo a leitura de Lacan, Platão/Sócrates não teria identificado o
amor ao bem, e sim à alma, e esta, conforme Lacan, seria no Banquete não a
parte eterna de nós mesmos como identidade absoluta, mas inversamente, a sede
paradoxal da falta, da aspiração ao outro ( o amado ). Essa leitura é na
verdade um capítulo introdutório do "automatismo" da transferência -
o que ocorre entre o analisando e o analista, a catarse terapêutica. Assim, a
cura, é a troca da crença da própria alma como sendo ou devendo ser identidade,
pela compreensão de si como falta.
Inversamente a aprendermos a nos aceitarmos
"amantes", que segundo Lacan, para um grego é sinônimo de ativo, para
OA o Banquete deve ser lido segundo Hölderlin, pelo que trata-se de
que a virtude é ser amado - ser passivo: "Enquanto faz assim a
exaltação do espírito servil, agradável a todo tirano, por baixo e por cima da
mesa do Banquete, Sócrates se deixa disputar pela bolina de Ágaton e de
Alcibíades, numa cena digna do romancista americano Henry Miller".
Em Lacan, Miller é citado como o que seria uma face de Sócrates, aquela
revelada pelo que conta dele Alcibíades, enquanto a face de todos
conhecida seria a de um scholar puritano - ou seja, o
relato de Alcibíades equivale a um escândalo. Ora, como todos sabem, Alcibíades
não nos conta que Sócrates fôra algum libertino ou que meramente
tivesse aceito as propostas dele.
É apenas o fato de que entre Alcibíades e Sócrates havia ocorrido um longo
assédio, cujo resultado nulo não implicava de modo algum que Sócrates não era
um "amante" de Alcibíades - no sentido exclusivo de ter o
sentimento de amor por ele - o que parece a Lacan permitir ler esse
trecho do Banquete como se fosse a reportagem de algo muito escandaloso para os
gregos daquela época. Não obstante, isso resgata o valor paradoxal do ativo e
do ser-amante, na economia do diálogo, onde trata-se da alma como faltante. Eis
a dimensão da Verdade que permite a Lacan discernir entre a altura em que se
instala a fala de Sócrates e toda defesa da mera Doxa.
Pois, como ecoa Lacan a Platão, mesmo que alguém tivesse uma Doxa verdadeira,
como saberia que ela é a verdadeira, se não postulasse além disso, o Bem ou
a ontologia do Logos - o rigor da linguagem não apenas
"falada", mas sim verdadeira? Mas esse Bem é o que está hiante entre aquilo que o Logos
permite ter-se assegurado, e o que ele é em termos da garantia do verdadeiro e
seu saber. Como é corrente, a linguagem racional de Platão não permite que se
tenha nesse mundo a ideia em si, somente o seu vislumbre. Então o Logos, o que
ele nos permite discernir de verdadeiro através da elucidação do Amor, é essa
falta, a Alma cujo ato é a presentificação de si como falta, desejo do outro. A
compreensão do motivo mesmo da limitação do saber ao vislumbre. Mas também a
conexão da falta ao Bem como do inconsciente à identidade do Um significante, o poder criativo do sentido na forma da atribuição.
Em
todo caso, aqui poderíamos recuperar um quarto nível da teorização de OA,
que seria epistemológico, embasado dialeticamente. Como vimos, o homem tecnicizado, mas
imperialista-capitalista do patriarcado, se coloca como a "antítese",
entre o homem natural, o aborígine do matriarcado originário
("tese"), e o homem natural tecnizado, da sociedade tecnológica
realizada futuramente na sua potência emancipadora como "síntese".
Meu contato inicial com a obra de OA está aqui acrescido da percepção de sua
conexão com o Romantismo. Se suas teses expressam o vínculo com Hegel, outros
referenciais testemunham da sua valorização romântica, como registrado no
diário da garçoniére, e também pelas referências a Maine de Biran. A dialética
em Oa surge modulada como secundando um pensamento que não se estrutura por
contraposições estanques, mas tendo todas as suas oposições conceituadas como
pares complementares. Especialmente matriarcado-patriarcado, com o conjunto de
características associadas a cada um deles, que como assinalei se interpenetram
historicamente, a partir do ponto de origem (antropofagia/matriarcado) de que
se desdobra a apropriação primeira (escravismo/patriarcado).
Essa complementaridade surge, ao que parece, como uma leitura sua da dialética
de Hegel, por extensão do pensamento do "romanticismo" numa relação
com o incosnciente do matriarcado que não seria marcado pela disjunção, mas
pela inclusão: a alteridade é pensável como a multiplicidade, de modo que de
modo simetricamente inverso ao inconsciente freudiano, o horror do inconsciente
do matriarcado não é a diferença, é a identidade - o ter que ver-se
totalmente indivíduo só, para o aborígine.
Alguns
pontos nessa argumentação, que como assinalei, está lastreada por algumas
teorias indemonstráveis, são determinados por elas - como a obviamente
errônea conexão de Hesíodo com a moral freudiana do trabalho
dessexualizante. Assim também uma interpretação desatualizada de Darwin, em relação
aos nossos parâmetros da evolução biológica. Mas, como já ressaltei, a
parte positiva da teoria de OA, o inconsciente do matriarcado, é o que
permanece incólume.
Nessa teoria, trata-se de que a criança não poderia obter um terceiro termo
entre o solipsismo da pulsão e a indiscernibilidade da mãe, numa figura única
que seria o pai, posto que não há a unicidade dessa figura de pai na
sociedade tribal, onde as coisas eram de modo "que o filho
não fosse de um só homem individualizado, mas, sim, o filho da tribo"
(Variações...). Não há uma imposição de desfazer a indiscernibilidade, mas
uma transição gradual e convergente do indiscernível ao múltiplo que é o grupo,
a tribo. Portanto, não há um antagonismo natural de sujeito e sociedade.
Não se trata da catarse psicanalítica a ser obtida privadamente, de sujeito a
sujeito, mas se tampouco temos uma teorização clínica em OA, o que
podemos notar é que não há, estruturando a sua noção de inconsciente, a
oposição de falta/identidade como um dualismo que garante a aposta metafísica
(onto/logia) como propedêutica do procedimento científico.
Inversamente, há uma implicação da sociedade como o âmbito do desejo, de modo a
tornar as condutas - estéticas e emancipatórias - em si mesmas
revolucionárias ou (sócio)-clínicas. Como se não pudesse haver a promessa da
cura privada nesse caso, mas todo envolvimento emancipatório com o
social já formasse um âmbito terapêutico em nível subjetivo.
§§§§§
A sociedade como mobilidde social - não "segmentaridade"
- em Willems, e a tese do matriarcado na interpretação do Inconsciente em OA,
são desenvolvimentos epistêmicos que encontrariam nos ramos atuais da
sociologia um sentido de continuidade.
Em parâmetros de estudo, seja dos movimentos sociais, seja da
"sociedade" como mudança social, desfaz-se a concepção de coletividade
como haurindo sua autonomia - em relação ao nível meramente
pessoal/interpessoal - da estrutura identitária de sua extratificação em grupos estruturais (estamentos, classes, castas, etc.), o que
limita a problemática epistemológica à questão crucial de se trata-se de
extratificação funcional (adpatação ao meio) ou simbólica (fato do
Significante). Não basta inserir um ingrediente de simbolismo no
funcional, para desfazer a dualidade cegante dessas vias.
O que o inconsciente de alteridade - que a princípio, como vimos em OA, foi
apenas resultado de uma adaptação da poliandria ao que se considerou a descoberta
de Freud - antepõe, em todo caso, é que o grupo não se torna estruturante do
simbólico, em vez da unidade (Outro), de modo a que continua a ser pensável
como essa unidade, sob uma forma qualquer.
Em nível interpessoal, o horror do UM, em vez do horror do múltiplo, não
implica, como se pensou longamente ser o caso na idealizada gemeinschaft, ser o
aborígine limitado a uma consciência coletiva, incoativo à autopercepção
individual, tampouco implica um inconsciente junguiano.
Inversamente, afirma que a posição de enunciação, consequentemente a realidade
em relação a que a enunciação se produz, implica a alteridade, e o antagônico a
essa economia inconsciente seria tê-la, na experiência consciente, anulada.
O que resulta é a autarquia do sujeito singular, não a identidade do coletivo,
portanto, resulta a impossibilidade da gemeinshaft - a redução ao uno como
totalidade, da "sociedade" - ser originária. Autárquico, o sujeito é
a gênese do seu vir a ser, a qual não pode ser dada a ele, seja lá como se a
pense, em termos de sentido ou de contrafcação do sentido dado, senão por ele.
Já o pensável da lei se torna a expressão do múltiplo - a convergência possível
desde o equacionamento, como relevante, de todas as
opiniões atinentes a um problema particular que solicita uma
decisão que afetará a todos - naquilo em que ela não se desdobra,
como de um saber perfomático, do poder que ocuparia, para o desejo, o lugar do
Um. Se não fosse já o caso desse desejo.
O desfazimento do paradigma da totalidade social, e o conceito de sociedade
como o que em devir acarreta um nível decisório e participativo, coletivo, deve
franquear a dualidade de vias na qual se confinou a ciência social, como espero
tornar mais claro no que se segue.
A aliança do rei mágico e do sacerdote "jurista" - apenas no sentido
do encarregado dos julgamentos - é um tema de Dumezil,
feito canônico na literatura a propósito das origens ou estruturação do
Estado confundido com o Império. Mas como de costume nos procedimentos da
geo-egologia ocidental, esse esquema se mostra por demais generalizante na sua
aplicação, o que se exemplifica bem pelo MIlle Plateaus (Deleuze-Guattari).
Já podemos ver porque não se deve generalizar nenhum fato observável da
instituição de uma sociedade, mas especificar o mais que se possa que tipo de
relação inteligível com as informações que já dispomos é o que estamos
elaborando ao tentar entender o que estamos vendo de novo, nessa sociedade até
aqui desconhecida, justamente utilizando-se o registro das "sociedades
igualitárias" da América do Sul. Nelas, o fato de haver um chefe, como
examinamos, coloca apenas, ao antropólogo e ao etnógrafo, o problema de
captar conceitualmente a sua prática na sociedade considerada.
Em vez de estar prefigurando o Uno imperial, o chefe pode estar
estruturando aquilo que a instituição governamental democrática perfaz, ou
seja, pode estar apenas amparando e garantindo o exercício do Legislativo -
como na descrição de Willems acerca da palavra do chefe como súmula das
opiniões a que precisa consultar, de todos os homens, de forma que nenhum
sujeito deixa de ser deliberante.
Uma tipologia como a de Beattie, por exemplo, que não é uma
classificação a partir de conceitos gerais, mas apenas séries de
traços ou critérios, distingue o critério da centralização em
relação aos vários grupos sociais, e o critério da especialização da função
política. Assim, mesmo que os grupos sejam sempre independentes, não
havendo uma instância superior a cada um deles, pode haver
uma instituição ou pessoa identificada como fonte
da aplicação das leis (autoridade), cuja amplitude de ação mede ao mesmo
tempo a da autoconcepção como tal da !sociedade" por parte dos seus membros.
Se observarmos a Grécia homérica pelos seus registros, inversamente, vemos por estudos como de Detienne e Vernant, que
o Rei é detentor de um poder que não se supõe que a plebe possua, expresso na
performance do seu sacerdote, de modo que a "verdade" - a
ordem/palavra/decreto do Rei - é o correlato de algo necessariamente pensável
como superioridade de clã (nobreza/divindade). Ou seja, a extratificação é ao
mesmo tempo um parâmetro identitário dos sujeitos singulares, tomados
singularmente. Ela fornece aquilo que na democracia/igualitarismo vimos que está coibido
pensar que alguém possa fornecer a outrem, um sentido "por baixo"
(hypokeimenon), "subjacente" ao seu devir.
O que está se afirmando é que a sociedade, se presentifica a autonomia apenas
do Legislativo, não deixa de ser concebida como tendo essa autonomia - em
relação às demais sociedades com que entre em relações externas, e em relação
aos sujeitos particualres - mas ela não é pensável como uma totalidade, e sim
como o nível das deliberações práticas em seu devir.
O que vimos como a dualidade de vias em termos de limitação epistêmica da
ciência social, se relativiza posto que uma "geselschaft" ou
pura funcionalidade das estruturas, depende do poder ser de sua liberação desde
o inconsciente. As estruturas são linguagens, mas a linguagem não se reduz à
linearidade do significante suposta como universal por ter-se dado,
circularmente, um tipo de sociedade como generalizável de todas as demais.
Importa, pois, notar que essa epistemologia da generalidade que se modula como
epistelomogia do a priori, decorre da posição de equivalência da dotação de
sentido, que é correlato das estruturas da sociedade homérica, a qual
comunica-se através dos seus desdobramentos na metafísica, a geo-egologia que
subjaz à dominação imperialista atual. Supõe-se que um nível do privado se
autonomizou assim, contra todas as demais sociedades onde isso não existiria,
mas esse nível é apenas "interioridade", onde faça-se o que se fizer,
não tem o valor de uma auto-concepção, não é uma singularidade.
É apenas o que se deixa fazer cada um, no seu canto. O que é relevante se torna
sempre mais invadido para ser lido como a expressão do Poder. Assistimos agora
mesmo a demonstração dessa obsessão da equivalência. O espaço do blog na
internet foi mudado, e quando o acessamos, não vemos mais apenas a lista dos nossos
títulos. Vemos um espaço tomado pela demonstração da habilidade técnica da
linguagem computacional, cujos conteúdos na verdade nos interessam nada, mas
cuja profusão contém fatores tais que causam incômodo. A página mesma em que
escrevemos exibe obrigatoriamente uma adjacência da "demonstração". O
"ocidente" perde cada vez mais a capacidade de discriminar entre
"autoridade" e "despotismo".
Mas se a sociedade em todo caso, na sua justificativa profunda, é o nível
deliberativo do que afeta a coexistência, portanto não é a projeção de um só
equivalente a todos, mas a existência real de todos que não pode ser
reduzida a de qualquer um, podemos afirmar que ela nem sempre existe, onde
existe coletividade, que por exemplo, é o que o neoliberalismo econômico
precisa impedir que exista, etc. Mas aqui o hypoqueimenon mesmo já foi
modulado, nem mais expressa um sentido ou significado, senão a mera
escala do utilizável ou não, de cada um de nós, pelos interesses do
dinheiro: "Ordo", sujeito qualquer da Ordem, eis a palavra do
neoliberalismo econômico.
O engano seria supor que repor o hypoqueimenon original traria alguma emancipação real. Bem ao contrário da indefinição da "liberdade" no pós-estruturalismo, vemos com Bottomore (Introdução à sociologia) já os delineamentos do que hoje consideramos o "desenvolvimento humano". O patamar dos itens de alimentação, saúde, moradia, etc., que fazem qualquer população exibir performances compatíveis de produção e cultura.
O engano seria supor que repor o hypoqueimenon original traria alguma emancipação real. Bem ao contrário da indefinição da "liberdade" no pós-estruturalismo, vemos com Bottomore (Introdução à sociologia) já os delineamentos do que hoje consideramos o "desenvolvimento humano". O patamar dos itens de alimentação, saúde, moradia, etc., que fazem qualquer população exibir performances compatíveis de produção e cultura.
§§§§§
Nosso diálogo com as derivas epistêmicas em ciência social, que se mostram
críticas da ego-geologia ocidental, ainda que dentro dos limites dos referenciais em que
se moveram, desemboca numa relativização do "matriarcado". Pois em
vez de um parâmetro de classificação meta-histórico, pensamos agora o
inconsciente de alteridade apenas como heterogêneo em relação à coalescência do
Poder. É isso que motiva nossa releitura dos gregos, e a reinterpretação da
sofística.
Assim, não poderíamos pensar Lacan "sofista", se por sofística
entendemos uma linguagem não homogênea ao parâmetro conceitual de um
referencial único que seria a cultura grega desde Homero. Nas duas
vezes em que registrei a tangência da sofística, por Lacan, houve a repetição
da fórmula "por que Não?", com que ele se esquiva de realmente
pronunciar-se a propósito, mas parece-me claro que a ênfase não é no "por
que", e sim no "Nâo".
Ainda assim, se ele entendesse a sofística a partir de uma
concepção da unidade da cultura grega, caberia nossa ressalva de sua não
homogeneidade aos sofistas, posto que nossa posição é contrária a essa
concepção, e quanto a Lacan nós o interpretamos como um "pensador" do
hypoqueimenon - ou seja, projeção da fantasia identitária que só as oligarquias ou as ditaduras poderiam servir. Ao menos Platão não foi ambíguo nisso. A teorização lacaniana da linguagem não é a da sofística, mas a que se
interpõe como o encaminhamento desde Sócrates platônico, obtendo expressão mais
transparente com Aristóteles, ou seja, supondo-se que o que a linguagem
suscita de problemático e dado a pensar é a "quididade".
Mas não se ignora que entre Platão e Aristóteles, haja efetivamente posições
contrastáveis, e pelo já exposto, vemos que se Platão enuncia, para Lacan, o
movimento "anímico" do desejo, é na verdade Aristóteles que conceitua
o seu objeto.
Transpor o objeto à formalização máxima de puro Significante, que é o que faz
Lacan nesse caminho, nós não nos eximimos de considerar bastante inteligente e
talvez fosse até mesmo proveitoso se há um domínio clínico na psicanálise, isto
é, se ela tem que se a ver com o "patológico" e de fato pode salvar pessoas dos abusos psiquiátricos da insulina e da eletricidade. Mas descontando-se a circunstância factual das perversões "clínicas" ainda piores, o ônus se torna
demasiado quando se trata apenas de avaliar a teoria. Além disso, o formalismo lacaniano - que, como
Cassin notou, não deixa de ser "pragmático" por abranger a dimensão
do desejo - está aqui sendo considerado neo-aristotélico, por que o
investimento na teoria da alma não limita o platonismo, e justamente trata-se
por esse aspecto pragmático, de deslocar a centralidade do "ver" por
sua transposição como apenas o poder explicar da Causa.
Quanto a considerar a esquizoanálise e seu bergsonismo, um neo-platonismo, não
implica que não se conheçam as críticas feitas a Platão no interior desses
registros. Mas que os estoicos não revertem realmente Platão, já se poderia
notar pelo fato de que o estoicismo informou de dentro, historicamente, o
império romano e até, pelo que afirmam alguns historiadores, faz a mediação que
permite ao Império cristianizar-se - a unidade da Physis, com efeito é
personificável pelo Rei-Sol que não custa muito fazer tornar Cristo.
O bergonismo - como ensina Deleuze - depende de um método de divisão platônico
em que, partindo de um misto de material e espiritual, descarta-se continuamente
o material para continuar a divisão a partir do que põe o unicamente
espiritual, indo assim até a divisão platônica, suposta limite de inteligência material e intuição
espiritual. Todos esses dualismos que são relançados no inconsciente maquínico
se ele pensa, como duas sínteses opostas, a produção e a "memória", o
que se mostra sempre muito embaraçoso quando se trata de tentar aplicá-lo
aos estudos que tem por horizonte os dados da descrição efetiva do que
ocorre na progressão das aquisições da criança até a maturação das capacidades psíquicas.
§§§§§
Alhures designei o inconsciente de alteridade como "inconsciente
popular", sendo a população a heterogeneidade que
permanece na realidade não coberta imediatamente pelo registro
conceitual/conceituável da extratificação social. O nexo com as sociedades
igualitárias é que nestas a heterogeneidade é pensável como o que desdobra
as instituições mesmas da extratificação. A sociedade, nesse caso, não é o
correlato de um conceito tal que pelo termo conceito temos a definição de um "quid"
(totalidade), e sim o campo problemático para nós apreender, que recobre
um nível autônomo e ao mesmo tempo essa autonomia sendo relativa somente ao seu
devir.
Inversamente,
já tendo havido a sobreposição de casta, classe ou Poder, o
que se pode deduzir não é necessariamente que os grupos subalternos
correspondam desde a natureza do desejo, à sua tópica "suplementar"
que responde apenas pela estruturação inconsciente (= linguagem) do Poder.
E sim há para deduzir que todo Poder gera um Contra-Poder ou um Não-poder, em
que podemos posicionar o que o pós-modernismo tem problematizado em termos de
ex-cêntrico.
É nesse lugar epistêmico do ex-cêntrico que coloco o inconsciente popular,
suposto não como o correlato imediato da situação do subalterno, obviamente.
Mas como o que podemos pensar haver, como o desejo do múltiplo que tematizamos
acima, desde que o Poder não é originário, nem universal do inconsciente, por
um lado; e que os grupos subalternos não podem se identificar plenamente
com ele, por outro lado.
O capítulo sociológico do "conflito social" é um dos mais difíceis,
certamente, como desde os sixties os estudiosos da área geralmente
sublinham. Mas um dos fatores que contribuíram para a dificuldade, é que o
conflito tem que ser tratado desde o horizonte de teorias centradas no conceito
que fornecem, da totalidade social. Ou seja, do que é antônimo de
"conflito", se a totalidade é a unidade de todas as suas partes.
Isso, quão paradoxal possa parecer, atinge o cume em Marx, onde
inversamente deveríamos pensar tratar-se de uma sociologia do conflito em si.
Como sublinhou John Rex (Problemas fundamentais da teoria sociológica), a propósito dos teóricos do conflito social,
"pode-se duvidar que qualquer dos autores mencionados tenha realmente
levado a níveis satisfatórias suas críticas à teoria 'integracionista' e
'funcionalista' " - a qual Rex lê como concentrando todo o esforço em prol
da conceituação da totalidade social.
Sendo esses autores Gluckman, Dahrendorf e o próprio Marx, e tendo o
impulso nesse sentido na sociologia começado com Coser e sua releitura de Simmel, a questão
não é tanto que Rex esteja defendendo o funcionalismo como não abalado pela
ênfase sociológica que vai sendo sempre mais inevitável nos aspectos de
mudança e conflito. E sim que, como ele mesmo resumiu, "o ponto de
vista a partir do qual fazem suas críticas é indicado pelo título de Coser, The
funcions of Social Conflict, título esse que subentende o argumento que Coser
demonstra explicitamente, ou seja, o de que o conflito pode ser estudado não
como destruidor de sistemas sociais, mas como possuidor de uma função dentro
desses sistemas". Podemos notar que realmente em Marx o conflito de classes conduz à ideia de um sistema autodestrutivo, porém isso só é assim para uma concepção da história como progresso teleológico. Se o estruturalismo althusseriano desfez a noção de história total, mostrando que Marx conceituou modos de produção como combinatórias independentes, o princípio omni-histórico do sistema dos elementos do qual as combinatórias são apenas variações é de fato ultra-conservador do ponto de vista virtualmente superior, o do sistema ao invés de cada variação ultrapassável na "história".
Aqui não seria apropriado deslindar mais a questão sociológica assim esboçada,
mas transformar sua motivação a partir da noção de sociedade como
heterogeneidade em devir imanente, em vez de totalidade. O antagonismo gerado pelo Poder no seio
dessa heterogneidade, pode não ser necessariamente o correlato de uma realidade
unificável como seu "outro lado".
Permanecendo na perspectiva funcionalista do conflito-função, assim
como, outramente, na perspectiva estruturalista do
"suplemento", descobre-se que certas questões se tornam insolúveis.
Por exemplo, há um enorme interesse dos sociólogos, quando observam o cotidiano
de uma grande cidade, em poder discernir o que exatamente diferencia uma mulher
conforme seja de classse média ou proletária, digamos, numa fila de ônibus -
conforme o depoimento de Peter Mann ("Métodos de investigação
sociológica"). O sociólogo, que não compartilha da valoração adjetiva
dos traços diferenciais (preconceito), deveria saber porque, mesmo assim, ele
pode compreender que as pessoas que ele vê são classificáveis nesses
traços pelos padrões habituais. Mas a causa é o que ele descobre não saber
imediatamente explicar.
Claro está que o referencial é a grande cidade europeia, onde o proletariado já
se encontra organizado, sendo bem pago, não miserável como alguém que à
primeira vista seria discernível por motivos óbvios. Já houve, aliás, quem
voltasse dos Estados Unidos alardeando que tinha descoberto na sua viagem, a
sociedade comunista em ato. Não obstante, a questão da extratificação por Status
- se não já por "classes" - resta um fato de proporções consideráveis
no mundo ocidental. Além disso, não houve até agora meio de se evitar a evidência de que a prosperidade do proletariado do centro é função do imperialismo na margem, e não verdadeira conquista da organização social contra o "poder econômico" abusivo, como a enorme desigualdade de propriedade do grande capital.
Ora, o problema é que nenhuma teoria do conflito satisfaz a exigência de um
critério que auxilie o sociólogo em sua observação, e a de Marx ainda menos,
pois, justamente, segundo Marx não há diferença alguma, em termos
estruturais, entre a classe média e o proletariado, ainda que ele estivesse
cônscio de que a classe média vive da ilusão de que é essencialmente outra
coisa. Estruturalmente, isto é, socialmente, só há diferença real entre
a Burguesia (classe dos capitalistas) e o Proletariado (classe dos
assalariados). Como as separações de status tem se revelado cada vez mais fator
de conflito social, vemos em que crise se encontra a ciência social na
atualidade.
O
que estou designando o inconsciente popular, cuja estruturação recupera o que
vimos em OA como um desejo que põe a alteridade em nivel interpessoal, e de que
se desdobra a impossibilidade de totalizar a sociedade como um
"quid", implica porém, a geselschaft real, não apenas a ilusão da
equivalência. Não há aí um menos, como a impossibilidade de aceder ao universal,
inversamente ao que pensava Lacan, e sim um mais, aquilo mesmo que está coagindo, pelo
encontro da alteridade desde as Grandes Navegações como Modernidade, o corte
empírico para com a metafisica. Não há aí uma impossibilidade do algoritmo, mas
inversamente, a sua não-esterilidade meramente idealizante.
A metafísica não é a visibilidade científica, lembrando que por um lado, a visibilidade platõnica não era nem podia ser deste mundo, sendo politicamente apenas a ditadura porém nada racional de fato pelos absurdos acumulados pela ambição socrática instituir pelo que se lê explicitamente de Platão, e a causa aristotélica não é o algoritmo/função, mas o "eidos", a forma como apenas uma definição simplória de senso-comum.
A metafísica não é a visibilidade científica, lembrando que por um lado, a visibilidade platõnica não era nem podia ser deste mundo, sendo politicamente apenas a ditadura porém nada racional de fato pelos absurdos acumulados pela ambição socrática instituir pelo que se lê explicitamente de Platão, e a causa aristotélica não é o algoritmo/função, mas o "eidos", a forma como apenas uma definição simplória de senso-comum.
Referenciei a trasnposição do arcaico ao político na Grécia, algo que
historicamente se deve à luta de classes, como conceituado em Rostovtzeff. Suscitando registros - à exemplo de Hesíodo - que expressam o fato de que essa
luta estava sendo sustentada por uma mentalidade estruturada de forma
inrredutível à do discurso da soberania aristocrática cuja referência básica é
Homero.
Assim também a dramaturgia pós-homérica, inversamente à interpretação de
Bachofen. Bem inversamente à interpretação de OA, a temática Electra/Orestes é aliás bem
oportuna, por resultar numa política explícita de
contestação ao ideal Homérico do feminino - conforme o antagonismo
mortal dos irmãos semi-escravizados, a Helena/Clitemnestra, na peça de Eurípides, aquelas personagens que simbolizam a aristocracia, sua futilidade autoritária que não hesita em eliminar multidões ou qualquer um apenas para servir a coqueterias supostas comprobatórias do que serve ao esnobismo.
Importante é lembrar que Electra, cuja posição na peça é proeminente por construir o antagonismo, havia sido escravizada pela mãe, assim como a ação de Orestes quanto a isso é uma legítima defesa.
Importante é lembrar que Electra, cuja posição na peça é proeminente por construir o antagonismo, havia sido escravizada pela mãe, assim como a ação de Orestes quanto a isso é uma legítima defesa.
Quando a expressão do inconsciente popular chega à
maturação da sociedade popular - mas democrática e não fascista - a sofística expressa o
pensamento já emancipado do mito, oriundo dessa mentalidade.
É a sofística quem transpõe pioneiramente, a problemática do
ser e do sentido à da linguagem, mas vemos assim que de forma bem
oponível à sua retomada socrática, a transposição foi feita por uma
operação estruturante do desfazimento da physis como referencial de todo
investimento pensante. O referencial sofistico não é a realidade das coisas
(ontologia), mas a Retórica, definida como Politropia - a heterogeneidade
endereçada da palavra. O pensável é nitidamente, a heterogeneidade dos
falantes. Não poderia haver para a Retórica politrópica, já nem a de Pitágoras
ou de Corax-Tisias, mas dos sofistas da Polis, o problema do seu
"quid" porque ele não existe anteriormente, não ao
"discurso", mas em si mesmo, pois, como efeito da palavra na
heterogeneidade dos falantes, não é o subjectum - a verdade do singular - e sim
o consenso a nível social (público) cujo objetivo é o respeito da heterogeneidade da opinião em nível privado.
O Romantismo como um pensamento da História social, isto é, inversamente a Marx
algo que não é redutível à totalidade estrutural, a meu ver lida com o mesmo
problema, eminentemente em sentido epistemológico. O que se considera hoje em
dia a priori estrutural, é na verdade o problemático da heterogeneidade social,
se ele não pode ser de fato dado como um correlato não meramente idealizado por
um pensamento estruturado de um modo determinado.
A oposição de humanities e ciências da natureza precisa ser preservada, como já
expressa na oposição sofística de Nomos e Physys, uma vez que a realidade do
social é o mutável, não demanda um exercício pensante cujo referencial pode ser
redutível, justamente, a uma "natureza" ("quid"). Alguns
sofistas permaneceram estudiosos de ciências particulares, sem que isso
implicasse a transposição da retórica em ontologia. A ciência pós-moderna está
nesse caminho, pois não pode totalizar da sua reserva de método, instrumentação
e práticas setorizadas, uma totalidade de mundo ontológica, nem
cognitiva.
Essas concepções são as mais básicas na orientação relativa à releitura do
Romantismo como ruptura genética da modernidade - aquilo que recoloca a
expressão do inconsciente popular - que impulsionaram o meu tratamento do tema
literário dos "duplos".
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21 / 04 / 2012
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Este texto não contem erros de ortografia, lacunas de sentido ou de informação não compatíveis com o nível de informacionalidade constatável. Revisei o texto em setembro de 2016. Acrescentei algumas notas que julguei esclarecedoras mas tencionei manter o nível da informação conforme o estado dos meus estudos na época da elaboração. Aqui desejo acrescentar algo à minha leitura de OA. Atualmente ela é mais crítica do que a princípio me pareceu. Na verdade é algo complicado de fato entender a diferença entre autarquia da pessoa e sentimento de individualidade. Ou seja, a incompatibilidade entre autarquia da pessoa típica do inconsciente de grupo como de alteridade, e o que OA atribuiu como a repulsa da individualidade por si que experimentaria o aborígine. Pelo contrário, parece haver aí o que tenho sempre mais constatado como a dupla-ligação do pensamento da "esquerda", que até certo ponto é a presentação oratória do direito burguês, como plataforma política da defesa das garantias individuais, mas desse ponto à frente recusa para a acusação bramânica do ego (burguês) como a raiz de todos os males, etc. Ao que parece, OA nunca resgatou sua dívida com o marxismo ortodoxo. Mas também podemos notar que a noção de igualdade, porém subjacente à poliandria, é algo contraditória, a menos que se pudesse atribuir aos homens a mesma liberdade que se está afirmando ser a das mulheres. Não há referenciais explícitos a isso. Vimos que Lacan considerou a poliandria em termos de ficção de um regime real, a intotalização do universal que, este, só o androcentrismo proporciona na história. Mas isso mais tardiamente, já na fase estruturalista. A princípio, quando escreveu "Os complexos familiares" nos anos trinta, sob influência da sociologia de Durkheim, afirmou das sociedades poliândricas que eram o caso do "pai fraco", com as consequências "clínicas" associáveis. Não considero séria a hipótese da intotalização do universal, mas quanto a essa segunda atribuição, hoje considero que de fato OA não teria como conjurar a objeção. Pois na poliandria que preconiza ao mesmo tempo como a realidade primitiva e o ideal da emancipação, a assimetria eliminada pelo lado da subjugação da mulher se reintroduz pelo lado do status subalterno do homem cuja posição social e autonomia sexual não chega a ter uma caracterização precisa na teoria.
Ficou registrado já na época da elaboração do texto minha discordância relativamente à interpretação de OA sobre Orestes, concordando ele com Bachofen. O interregno destes anos acrescentou mais vigor a minha posição, com estudos especialmente voltados conforme expressos em meu blog intitulado "os gregos e a democracia". Em que desenvolvo mais minhas críticas a Cassin. "Teoria Moral na geo-ego-logia" e "Pensamento e relação" assim como outros títulos citáveis são blogs bem recentes meus, que exploram essas críticas como generalizáveis a todo parâmetro do inconsciente estrutural e pós-estrutural.
. Esses estudos resultaram em conteúdos pelos quais, assim como pelo descalabro político que se abateu sobre o país dadas as corrupções do governo "pt", eu acentuaria muito mais as críticas ao neoliberalismo econômico e ao pensamento de "esquerda".
Sobretudo, o avassalamento do privado numa escala sem precedentes, está se verificando porque empresas não tem o princípio de civilidade legal legislativa do Estado democrático, ou seja, o respeito à privacidade dos cidadãos. Ou seja, ao contrário do que os teóricos estruturalistas e anti-hegelianos do Estado como apenas despotismo jamais equacionaram. Tendo por isso se tornado a nós de hoje apenas os prosélitos do horror do neoliberalismo econômico, ou seja, tendo se acabado com qualquer atribuição de "esquerda" como horizonte político de justiça social ou sequer sanidade mental.
Não recuei porém da recusa à "identidade" funcionalista que a crítica estrutural tão bem procedeu. O que constatei foi apenas que do ponto de vista geo-ego-lógico, o estruturalismo e o "pós-estruturalismo" não lograram ultrapassar o que estavam criticando.
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( 23/09/2016)
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Na
Internet estão publicados mais Blogs de minha autoria, aqui listados:
Estudos
em Sociologia
Sociologia
Neocapitalismo
Temas de
filosofia moderna
Estudos
medievais
Reescrevendo
o Brasil
Hegel
(tb. publicado em "estudos hegelianos")
Textos escolhidos
Estudos gregos
História do Brasil
O Romantismo, el doble e o fantástico
Textos da Contemporaneidade
Leituras do modernismo entre o pop e o pós
Poesia reunida
Poemas
Meg
Vem você também vencer
O clube de conferências
A poesia é robô
Enlightment
Psicologia
Psicologia, continuação
contraodisposistivo
anti-mídia
censura universitária
Geoegologia ciência e política
O robô feliz (título de "O
pós-modernismo")
Releituras do contrato social (estudo de Rousseau)
Piaget
Romance de Juventude (título de "o
discurso do primitivo")
Censura Universitária
Hot mail memories
A alma pura
Escritos em Humanities
Há também o blog "crônica do Rio" que por ter sido travado pelo
provedor, não pode ter sido até agora devidamente corrigido. "O devir das
ciências humanas", meu estudo longo sobre a história de cada uma das humanities
e pensamento precedente, não pode ser publicado - não se sabe porque.
Não me responsabilizo por qualquer blog não constando da lista presente,
sendo que todos os blogs listados encontram-se assinados em meu nome, e que
portam a mesma foto minha apresentada neste texto.
As inserções que registram intervenções ilegais neste blog atestam o fato óbvio
de que não podemos garantir não haver sabotagens posteriores à conclusão do
texto. Quanto a isso, só o exemplar de livro impresso em papel poderia garantir
a conservação da letra. Reviso quando posso o conteúdo registrado na Internet.
Há também as constantes ameaças de "perder a conta", "expirar a
página", etc. Os blogs são constituídos, escusado notar, somente na circunstância
do acesso à conta estar vigente.
Pela Quártica editora tenho publicados mais dois livros de ficção, Contos
do espelho; Contos da musa irada; O
pós-modernismo; Filosofia, ceticismo e religião. Podem
ser requeridos pelo site da editora.
==============
Nenhuma licença me foi pedida ou por mim concedida para intromissão de
terceiros na minha conta, controle do meu computador ou elaboração
deste blog. qualquer destas ações deve ser considerada crime, demonstrando
a desonestidade do fautor, conforme penalidade cabível
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